A vantagem do Palmeiras ainda é confortável. O futebol, nem tanto
Líder e com os objetivos cumpridos, o Palmeiras não vive uma crise. Mas a queda de rotação existe — e a Libertadores não costuma respeitar gordura na tabela.
8 de agosto de 2026

Não há crise. Há um incômodo — e ignorá-lo seria bem mais perigoso do que exagerá-lo.
O Palmeiras segue líder, conserva uma vantagem confortável no Campeonato Brasileiro e avançou na Copa do Brasil. A planilha está em ordem, os objetivos imediatos foram cumpridos e ninguém precisa correr até o armário para procurar o capacete. Só que o futebol apresentado nas últimas partidas perdeu rotação. Não o bastante para derrubar o time da montanha, mas o suficiente para fazer barulho lá embaixo.
Em cinco jogos recentes, foram três vitórias e duas derrotas, com 13 gols marcados e seis sofridos. É um saldo positivo, claro. Nesse intervalo, o Palmeiras venceu o Coritiba por 3 a 1, perdeu em casa para o Atlético-MG por 2 a 1, atropelou o Vitória por 4 a 0 e construiu um 3 a 0 sobre o Fortaleza que praticamente resolveu o confronto da Copa do Brasil.
Depois veio a derrota por 3 a 2 na volta, no Ceará. O placar não ameaçou de verdade a classificação — o agregado terminou em 5 a 3 —, mas expôs uma diferença importante entre cumprir a missão e jogar bem.
Classificação não é certificado de bom futebol.
É tentador colocar a derrota na gaveta das partidas administradas. O Palmeiras tinha três gols de vantagem, conhecia o regulamento e não precisava transformar a noite em guerra civil. Tudo isso é verdade. Também é verdade que time competitivo não escolhe quando pode afrouxar os parafusos sem pagar algum preço.
Contra o Fortaleza, a equipe permitiu um jogo mais aberto do que deveria, aceitou trocas de golpes e perdeu parte do controle que costuma ser sua marca. Foi como dirigir com o tanque cheio e a luz do óleo acesa: dá para chegar ao destino, mas não convém chamar o mecânico de pessimista.
A derrota isolada incomodaria pouco. O problema é que ela conversa com o 2 a 1 sofrido diante do Atlético-MG, em pleno Brasileirão. Entre os dois tropeços houve atuações fortes, especialmente nos 4 a 0 sobre o Vitória e nos 3 a 0 da ida contra o Fortaleza. O Palmeiras não desaprendeu a jogar. Seu teto continua alto. A questão é a frequência com que consegue alcançá-lo.

Esse recorte também impede qualquer diagnóstico preguiçoso. Não existe terra arrasada em uma equipe que marcou 13 vezes em cinco partidas. O ataque produz, o elenco responde e o time ainda consegue transformar superioridade em goleada. O que mudou foi a regularidade do domínio. Em alguns momentos, o Palmeiras controla adversário, espaço e ritmo. Em outros, parece deixar a partida escorrer para uma zona de improviso que favorece justamente quem tem menos a perder.
A vantagem na tabela protege o resultado; não protege o desempenho.
A gordura construída no Brasileiro é mérito, não acidente. Ela nasceu de uma campanha suficientemente sólida para dar ao líder o direito de tropeçar sem entregar o primeiro lugar na portaria. Abel Ferreira e seus jogadores merecem esse crédito. Só não podem confundir crédito com salvo-conduto.
No mata-mata continental, não existe colchão de pontos. Não há rodada seguinte para consertar uma saída frouxa, uma bola parada mal defendida ou 20 minutos de desatenção. A Libertadores tem a delicadeza de um cobrador de estacionamento: passou do horário, ela não quer ouvir a explicação.
É aí que a queda de rotação deixa de ser detalhe estético. O Palmeiras não precisa encantar, empilhar dribles ou virar atração de intervalo. Precisa recuperar a autoridade que faz o adversário perceber, cedo, que cada erro será cobrado. O melhor time de Abel não é necessariamente o mais bonito; é aquele que reduz o jogo do rival até a noite ficar pequena demais para uma surpresa.
O maior erro agora seria tratar as duas derrotas como acidentes sem relação entre si. Elas aconteceram em contextos diferentes, mas apontam para a mesma necessidade: concentração contínua. Contra o Atlético-MG, a vantagem no campeonato não evitou a derrota em casa. Contra o Fortaleza, a vantagem no confronto evitou o prejuízo esportivo, mas não apagou os três gols sofridos.
Asteriscos ajudam a explicar. Não entram em campo para marcar ninguém.

Abel não precisa promover uma revolução, e seria teatro fingir que o momento exige uma. Precisa cobrar o que sempre sustentou este ciclo: intensidade sem bola, controle emocional e seriedade mesmo quando o placar oferece uma poltrona confortável. O Palmeiras já demonstrou, nesse mesmo recorte, que consegue responder. Fez quatro no Vitória e três no Fortaleza quando acelerou de verdade.
O alerta não nasce porque o Palmeiras parou de vencer. Nasce porque começou a escolher demais quando dominar.
O líder ainda olha a tabela de cima. Pode respirar, administrar cargas e valorizar a classificação conquistada. Mas deve fazer tudo isso com um olho no retrovisor e outro no túnel estreito da Libertadores. Ali, vantagem antiga não passa pela catraca.
E o Palmeiras sabe disso melhor do que quase todo mundo.
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