Tirar Infantino sem desmontar o trono é só trocar o rei da Fifa
A ofensiva contra Infantino só valerá a pena se a Fifa desmontar o poder presidencial. Sem reforma, muda o ocupante — e a velha máquina continua mandando.
17 de agosto de 2026

Trocar Gianni Infantino por outro dirigente e deixar intacta a arquitetura de poder da Fifa não é revolução. É mudança de crachá.
O presidente suíço virou o rosto perfeito de tudo o que incomoda na entidade: centralização, decisões tomadas longe do escrutínio público, alianças políticas costuradas em congressos previsíveis e uma habilidade quase artística de transformar qualquer crítica em ruído de fundo. É compreensível que a oposição personalize a batalha. Multidões entendem melhor um vilão do que um estatuto.
Só que aí mora a armadilha.
O problema da Fifa não cabe em um homem, por mais espaço que esse homem ocupe.
Infantino foi eleito em 2016, na ressaca do escândalo que derrubou a velha ordem de Joseph Blatter, e chegou embalado pela promessa de reconstrução. Desde então, foi reeleito sem adversário em 2019 e novamente em 2023. A ausência de concorrência real não prova, por si só, que todos estejam satisfeitos. Prova algo mais relevante: enfrentar o presidente da Fifa continua sendo uma operação cara, arriscada e ingrata.
Cada uma das 211 associações nacionais tem voto no Congresso. No papel, é a festa da democracia global. Na prática, o dirigente de uma potência campeã do mundo entra na cabine com o mesmo peso eleitoral do representante de uma federação minúscula — princípio defensável, claro, até o dinheiro, os programas de desenvolvimento e os favores institucionais começarem a circular pelo salão.
A Fifa distribui recursos fundamentais para países que dificilmente conseguiriam desenvolver o futebol sozinhos. Isso é necessário e deve continuar. O problema nasce quando investimento, gratidão política e sobrevivência eleitoral passam a frequentar a mesma mesa. Ninguém precisa entregar um envelope debaixo do guardanapo. Basta que todos entendam perfeitamente quem controla o cardápio.
É por isso que a ofensiva para remover Infantino só terá valor histórico se atacar a Presidência como instituição. Limite efetivo de mandatos, orçamento fiscalizado por instâncias realmente independentes, publicação detalhada de despesas, critérios objetivos para distribuição de verbas e poder executivo dividido não são detalhes burocráticos. São o jogo.

A primeira providência deveria ser separar representação política de administração cotidiana. O presidente pode representar a Fifa, negociar com governos e conduzir a agenda estratégica. Não deveria, porém, concentrar influência sobre dinheiro, nomeações, competições, disciplina e relações com as confederações como se comandasse um império com bandeirinha de escanteio.
Um executivo profissional, escolhido em processo transparente, precisaria cuidar da máquina administrativa e responder a um conselho plural, com atas públicas e mandatos desencontrados. O Congresso, por sua vez, teria de deixar de ser uma cerimônia em que quase tudo chega decidido. Hoje, muitas assembleias da Fifa têm o suspense dramático de uma reprise cujo placar já aparece na tela.
Uma eleição sem disputa não é aclamação popular. É sinal de que o sistema tornou a disputa inconveniente.
Também é preciso mexer na regra dos mandatos sem truques de contabilidade política. Em 2022, o Conselho da Fifa considerou que o período iniciado por Infantino em 2016, menor que um ciclo completo de quatro anos, não contaria para o limite previsto nos estatutos. A interpretação abriu caminho para que ele possa buscar nova eleição em 2027 e, em tese, permanecer até 2031.
Pode até haver argumento jurídico. Politicamente, fica a sensação de que o relógio da entidade só funciona quando convém ao dono do pulso. É como aquela pelada em que o sujeito leva a bola, escolhe os times e, quando começa a perder, anuncia que “o primeiro gol foi só aquecimento”.

A ironia é que a Fifa já viveu esse roteiro. Blatter saiu, o mundo ouviu discursos sobre transparência e renovação, novos nomes ocuparam os corredores — e a Presidência continuou grande demais. Mudaram o motorista, deram uma lavada no carro e mantiveram o motor preparado para atropelar contrapesos.
Quem deseja derrotar Infantino precisa apresentar algo mais convincente do que um nome alternativo. Precisa mostrar quais poderes o próximo presidente aceitará perder. Essa é a pergunta que separa reforma de revanche.
Os dirigentes de UEFA, Concacaf, AFC, Conmebol, CAF e OFC adoram discursar sobre governança quando o poder alheio os incomoda. Mas quantos aceitariam fiscalização equivalente dentro das próprias confederações? Quantos defenderiam transparência se ela alcançasse contratos, viagens, bônus e negociações regionais? A faxina institucional costuma ser muito popular até alguém abrir a porta do armário certo.
Não basta formar uma coalizão eleitoral baseada em ressentimentos. Ela se desfaria na manhã seguinte à vitória, quando começasse a distribuição de cargos. O candidato de oposição teria de assumir compromissos prévios e verificáveis: mandato presidencial mais curto, impossibilidade de reinterpretar sua duração durante o jogo, conselho com membros independentes, auditoria externa publicada integralmente e proteção concreta a denunciantes.
Deveria prometer, sobretudo, que não disputará a reeleição caso as reformas não sejam aprovadas no primeiro ciclo. Parece radical? Radical é esperar que alguém chegue ao topo da Fifa, descubra o conforto do cargo e espontaneamente decida serrar as pernas do próprio trono.
Presidente reformista de verdade é aquele que entrega ao sucessor menos poder do que recebeu.
Há ainda uma mudança cultural indispensável. Federações nacionais não podem continuar tratando o voto como moeda diplomática. Devem explicar publicamente por que apoiam determinado candidato, quais propostas pesaram e que compromissos foram assumidos. O torcedor talvez não acompanhe uma emenda estatutária com a mesma paixão de um mata-mata, mas sente no bolso e no calendário as decisões tomadas nesses salões.
Mundiais inflados, calendários espremidos, novas competições e acordos comerciais não brotam do gramado. Tudo passa por uma engrenagem política que se protege enquanto vende a imagem de modernidade. A Fifa aprendeu a produzir vídeos brilhantes, slogans emocionais e cerimônias impecáveis. Sua governança, entretanto, ainda parece um vestiário antigo coberto por uma demão apressada de tinta.
Tirar Infantino pode ser parte da solução. Transformar sua queda no objetivo final seria repetir exatamente o erro que permitiu à Fifa atravessar tantas crises sem perder o vício da concentração.
Quem vier depois deve sentar numa cadeira menor, prestar mais contas e ouvir mais “não”. Se os opositores não estiverem dispostos a construir essa Fifa, não procuram uma reforma.
Procuram apenas a vez deles.
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