A Libertadores virou maquiagem: o São Paulo já faz campanha de rebaixado
A derrota para a lanterna e os dez jogos sem vencer rasgaram o disfarce: a vaga continental esconde um São Paulo perdido e perigosamente perto do Z-4.
24 de agosto de 2026

A máscara caiu em Chapecó. E não foi arrancada por um candidato ao título, por um elenco milionário ou por alguma máquina de jogar futebol. Quem rasgou o disfarce foi a lanterna do Campeonato Brasileiro.
A derrota por 1 a 0 para a Chapecoense empurrou o São Paulo para uma realidade que o clube vinha tentando maquiar com noites continentais, contas de classificação e aquela velha conversa sobre o peso da camisa. Peso, aliás, que no momento parece estar puxando o time para baixo.
Já são dez jogos sem vitória no Brasileirão. Dez. Não é oscilação, azar ou uma fasezinha incômoda. É campanha de rebaixado — com toda a carga que a expressão merece.
Dez partidas sem vencer não formam um alerta. Formam um diagnóstico.
O triunfo por 3 a 1 sobre o Bolívar, pela Copa Sul-Americana, teve seu valor. Depois do empate por 1 a 1 na altitude, o São Paulo resolveu a eliminatória em casa e avançou. Em uma temporada normal, seria combustível. Nesta, virou corretivo facial: cobriu as olheiras, disfarçou o abatimento e permitiu ao clube sorrir para a foto por alguns dias.
O problema é que mata-mata continental e pontos corridos cobram virtudes diferentes. Em 180 minutos, camisa, ambiente, experiência e um lampejo técnico podem decidir. No Brasileiro, não há esconderijo. A tabela pede regularidade, organização e capacidade de pontuar até quando o futebol não aparece. O São Paulo não entrega nada disso.

O continente virou álibi
É aí que a Libertadores entra como maquiagem. Não porque o São Paulo esteja disputando a competição neste recorte — a campanha continental atual é na Sul-Americana —, mas porque a ideia de “vaga na Libertadores”, tão presente no imaginário e no discurso de clubes grandes, funciona como cortina de fumaça. Fala-se no andar de cima enquanto o elevador desce.
A classificação sobre o Bolívar não apaga o que aconteceu antes nem o que veio depois. No Brasileiro, o time perdeu por 2 a 1 para o Grêmio, ficou no 1 a 1 com o Coritiba dentro de casa e, na sequência, perdeu para a Chapecoense.
São três rodadas que contam uma história bastante clara: derrota fora, tropeço em casa, derrota para o último colocado. Não há interpretação generosa capaz de transformar essa sequência em sinal de recuperação.
A Sul-Americana oferece respiro. O Brasileirão apresenta a conta.
E a conta está ficando salgada. A proximidade do Z-4 não é mais um detalhe desagradável na classificação; é o centro da temporada. Qualquer planejamento que ainda trate a luta por competições continentais como prioridade está olhando o retrovisor enquanto o carro segue em direção ao barranco.
A situação lembra aquele sujeito que emoldura o diploma na sala enquanto a cozinha pega fogo. A conquista pode até ser bonita, mas talvez seja melhor procurar o extintor.
A pior mentira é a contada dentro do clube
O maior erro do São Paulo agora seria atribuir tudo a uma sequência infeliz. Dez rodadas eliminam o direito à desculpa. Quando um time passa tanto tempo sem ganhar, o problema não está em um desvio, numa bola vadia ou numa arbitragem ruim. Está na estrutura do futebol apresentado e, sobretudo, na incapacidade de reagir.
Time grande também cai. A história brasileira é generosa em exemplos e cruel com quem acredita que escudo soma ponto. O São Paulo conhece o tamanho da própria arquibancada, da camisa e das conquistas. A tabela, porém, não conhece reverência. Nela, tradição vale rigorosamente zero.
Perder para a Chapecoense, especialmente nas circunstâncias atuais, é mais do que deixar três pontos em Chapecó. É dar vida a um adversário que estava no fundo e admitir que o São Paulo também frequenta essa conversa. Quem não consegue se impor diante da lanterna não pode tratar a zona de rebaixamento como um problema dos outros.
O Z-4 começa muito antes da linha vermelha: começa quando o clube se recusa a reconhecer o futebol de rebaixado.

A reação precisa começar pela honestidade. Nada de vender classificação continental como prova de que o trabalho está no caminho certo. Nada de usar um bom resultado de mata-mata para relativizar dez rodadas de fracasso doméstico. E nada de esperar que a camisa resolva sozinha, como se o escudo pudesse entrar no segundo tempo para cobrar escanteio.
O São Paulo precisa jogar o Brasileiro como quem entendeu o perigo: com urgência, concentração e menos vaidade. Cada rodada exige uma equipe disposta a disputar ponto, não a defender reputação. O primeiro objetivo deixou de ser sonhar com Libertadores. É voltar a vencer. Depois, afastar-se de vez do Z-4. Só então haverá espaço para ambições mais elegantes.
Porque, neste momento, falar em Libertadores é escolher a maquiagem enquanto a casa perde o reboco.
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