Casares foi expulso, mas a conta continuou no São Paulo

Conselho pune Casares por 223 votos a cinco, mas salários atrasados e caixa travado cobram de Harry Massis algo além da faxina política.

10 de setembro de 2026

Casares foi expulso, mas a conta continuou no São Paulo

O placar foi de goleada, mas não houve festa. Por 223 votos a cinco, o Conselho do São Paulo expulsou Julio Casares e encerrou, ao menos no plano político, uma passagem que terminou soterrada por suspeitas, extratos bancários, cartões corporativos sob escrutínio e um rombo de R$ 7 milhões. Não foi uma divisão interna. Foi uma demolição.

Duzentos e vinte e três a cinco é o tipo de resultado que faria até árbitro de várzea encerrar a partida antes do fim por falta de competitividade. Casares perdeu o clube muito antes da votação. Na reunião, perdeu o que ainda lhe restava dentro dele.

O São Paulo expulsou Casares. Ainda não expulsou a crise.

Essa é a diferença que Harry Massis precisa compreender imediatamente. A faxina política produz fotografia, discurso firme e aplauso de conselheiro. Recuperar o caixa exige algo bem menos glamouroso: abrir números, estabelecer prioridades, cortar privilégios e explicar por que uma instituição que movimenta tanto dinheiro chegou ao ponto de conviver com salários atrasados e pagamentos travados.

Casares foi expulso, mas a conta continuou no São Paulo

O voto do Conselho tem enorme peso institucional. Também era necessário. Um clube do tamanho do São Paulo não pode tratar suspeitas graves como desavença de corredor social, daquelas resolvidas com café, tapinha nas costas e uma ata escrita em idioma diplomático. A decisão rompe com essa tradição de empurrar constrangimentos para debaixo do tapete — embora, convenhamos, o tapete tricolor já estivesse ficando tão grande que em breve precisaria de matrícula própria no Morumbi.

Mas 223 votos não pagam folha. Cinco votos contrários também não alteram vencimento bancário. O veredito elimina a sustentação política de Casares; não desbloqueia receita, não renegocia dívida e muito menos devolve automaticamente a confiança de funcionários e fornecedores.

Massis recebeu um clube no qual a urgência administrativa disputa espaço com o calendário esportivo. E o futebol, cruel como sempre, não espera a tesouraria terminar uma planilha. O time vinha de vitórias sobre RB Bragantino, por 2 a 1, e Atlético-MG, por 2 a 0, mas perdeu por 1 a 0 para o Boca Juniors na Sul-Americana. Antes, já havia alternado um bom 3 a 1 sobre o Bolívar com a derrota por 1 a 0 para a Chapecoense no Brasileiro.

O campo ainda entrega competitividade. O problema é por quanto tempo o vestiário consegue funcionar como se nada estivesse acontecendo do outro lado da porta.

Salário atrasado não é detalhe contábil. Corrói confiança, alimenta ruído e transforma qualquer sequência ruim em princípio de incêndio. Jogador pode evitar entrevista, treinador pode blindar elenco e dirigente pode repetir que “o ambiente está preservado”. O boleto, esse veterano indisciplinado, jamais respeita pacto de silêncio.

Vestiário não vive de nota oficial; vive de compromisso cumprido.

Por isso, o primeiro dever de Massis não é anunciar que a página foi virada. Página nenhuma vira enquanto os números continuarem ilegíveis. Ele precisa apresentar ao Conselho e ao torcedor uma fotografia financeira compreensível: quanto está atrasado, com quem, quais receitas estão comprometidas, que despesas podem ser cortadas e qual é o cronograma realista para normalizar a operação.

Sem eufemismo. Sem aquela contabilidade criativa em que a dívida muda de coluna e reaparece fantasiada de solução. O São Paulo já teve relações públicas demais e prestação de contas de menos.

Também será indispensável separar responsabilidade política de apuração técnica. A expulsão de Casares é um julgamento interno devastador, mas não pode servir de ponto final para o rastreamento do dinheiro. Extratos, gastos em cartões corporativos, contratos e autorizações precisam ser examinados com independência. Se houve irregularidade, deve haver responsabilização. Se determinada acusação não se sustentar, isso também precisa ser dito. Transparência não é escolher apenas o documento que favorece a nova gestão.

Esse é o maior risco do momento: transformar Casares no personagem único de uma estrutura que certamente passou por mais mãos, assinaturas e silêncios. É confortável atribuir todos os males ao dirigente expulso. Confortável demais.

Quando 223 pessoas descobrem o problema ao mesmo tempo, vale perguntar quantas delas passaram anos fingindo que não sentiam o cheiro de fumaça.

A votação foi quase unânime, mas a vigilância também deve alcançar quem agora posa como agente da reconstrução. Onde estavam os mecanismos de controle? Quem aprovou despesas? Quem recebeu relatórios? Quem questionou? Quem preferiu não questionar? Conselho não pode funcionar apenas como bombeiro de luxo depois que a cozinha já virou carvão.

Casares foi expulso, mas a conta continuou no São Paulo

Harry Massis tem, portanto, uma missão menos elegante do que a palavra “pacificação” costuma sugerir. Terá de contrariar grupos, interromper hábitos e escolher o pagamento de obrigações essenciais antes de qualquer projeto de vaidade. Nada de contratação para ganhar manchete enquanto funcionário espera salário. Nada de reforma cenográfica enquanto o fluxo de caixa permanece amarrado. Nada de comemorar faxina com a sujeira apenas transferida para outra sala.

No futebol, dirigentes adoram falar em legado. Quase sempre é sinal de que pretendem inaugurar alguma coisa com placa e fotografia. O legado necessário agora é mais modesto — e muito mais valioso: salário em dia, contas auditáveis, regras para gastos corporativos e um Conselho que fiscalize antes do escândalo, não depois dele.

A vitória por 2 a 0 sobre o Atlético-MG mostrou que o São Paulo ainda pode responder dentro de campo mesmo cercado por turbulência.

Não se deve usar isso como álibi. O futebol costuma mascarar desordem por algumas semanas, às vezes por alguns meses. Uma bola parada entra, o atacante vive boa fase, o goleiro salva, e a arquibancada respira. Só que nenhuma defesa segura para sempre um clube que chuta contra o próprio patrimônio.

Casares saiu pela porta mais estreita possível, esmagado por um placar que não deixa margem para interpretação política. A partir de agora, porém, cada atraso pertence à gestão de Harry Massis. Cada número escondido também. Ele não criou toda a conta, mas aceitou a caneta — e caneta de presidente não serve apenas para assinar exoneração.

A expulsão foi o gesto fácil, ainda que necessário. Difícil será fazer o São Paulo voltar a pagar, confiar e planejar.

A verdadeira mudança começará no dia em que o clube não precisar de uma crise para descobrir quanto dinheiro tem.