Calleri foi capitão por 90 minutos — e esqueceu que havia jogo de volta

O São Paulo sobreviveu à Bombonera, mas Calleri perdeu gol, acertou Belmonte e virou desfalque; com Luciano em dúvida, faltará um 9 na decisão.

9 de setembro de 2026

Calleri foi capitão por 90 minutos — e esqueceu que havia jogo de volta

A Bombonera fez o que costuma fazer: apertou, rugiu, transformou cada dividida numa pequena guerra civil. O São Paulo, mesmo longe de jogar bem, resistiu o suficiente para voltar ao Morumbis com a eliminatória viva. Perdeu por 1 a 0 para o Boca Juniors, um resultado incômodo, mas plenamente reversível.

O problema é que Jonathan Calleri resolveu deixar parte do prejuízo para a próxima semana.

Capitão do time, referência ofensiva e argentino acostumado ao cenário, ele tinha tudo para ser o rosto da resistência tricolor. Acabou sendo o personagem da noite pelos dois motivos que um centroavante mais detesta: desperdiçou a chance que apareceu e, depois, acertou Belmonte num lance irresponsável que o tirou da partida decisiva.

A faixa de capitão não transforma descontrole em demonstração de raça.

Esse é o ponto que precisa ser dito sem maquiagem. Calleri não pode ser tratado como vilão profissional — sua identificação com o São Paulo é verdadeira, sua entrega jamais esteve em discussão —, mas foi o principal culpado por tornar uma missão difícil ainda mais indigesta. Capitão não é apenas quem posa para a foto, escolhe o lado da moeda e conversa com o árbitro. É quem percebe que existe um jogo de volta.

Na Bombonera, ele esqueceu.

O gol que um camisa 9 não pode perder

Em confrontos desse tamanho, a bola costuma visitar a área sem avisar e sair antes que alguém consiga oferecer café. Quando a oportunidade aparece, o centroavante precisa resolver. Calleri não resolveu.

O desperdício pesa ainda mais porque o São Paulo passou boa parte da noite administrando a pressão, com dificuldade para sustentar a posse e pouca presença ofensiva. Não era uma partida de cinco chances claras. Era uma partida de uma. Talvez duas, com generosidade estatística. A que caiu para o argentino precisava virar gol — ou, no mínimo, obrigar o Boca a sentir que o visitante estava vivo também no ataque, não apenas no placar agregado.

Em mata-mata, perder um gol é um erro; perder a cabeça é oferecer o recibo.

Calleri conhece esse roteiro melhor do que quase todos no elenco. Conhece o adversário, conhece o estádio, conhece o peso da camisa que vestia. Justamente por isso, sua atitude contra Belmonte é tão indefensável. Não houve ingenuidade de garoto promovido às pressas, tampouco surpresa diante da provocação argentina. Se existe um lugar no continente onde a provocação vem incluída no ingresso, esse lugar é a Bombonera.

Cair nela foi como levar guarda-chuva para a arquibancada e reclamar que alguém abriu um sinalizador.

Calleri foi capitão por 90 minutos — e esqueceu que havia jogo de volta

Pode haver discussão sobre o contexto do lance, sobre o que aconteceu antes ou sobre a intensidade do contato. Faz parte do folclore. O que não muda é a consequência: o São Paulo ficará sem seu principal camisa 9 justamente quando precisará buscar o resultado.

E aí a irresponsabilidade deixa de ser individual. Ela invade a escalação de Dorival.

O banco ficou curto antes mesmo de a bola rolar

Luciano está em dúvida. Calleri virou desfalque. A cadeira do centroavante, portanto, pode estar vazia na partida mais importante desta sequência. O São Paulo terá de encontrar gols sem saber se poderá contar com os dois atacantes mais habituados a decidir esse tipo de noite.

Dorival poderá improvisar mobilidade, povoar o meio, atacar sem uma referência fixa. Há soluções táticas. Nenhuma delas apaga o fato de que o técnico foi obrigado a abrir a caixa de ferramentas porque o dono da camisa 9 chutou a própria tomada.

Calleri foi capitão por 90 minutos — e esqueceu que havia jogo de volta

O cenário é particularmente frustrante porque o time vinha dando sinais de recuperação. Antes da viagem, venceu o Atlético-MG por 2 a 0 e o Red Bull Bragantino por 2 a 1. Também havia batido o Bolívar por 3 a 1 pela Sul-Americana, com apenas a derrota por 1 a 0 para a Chapecoense interrompendo a sequência positiva.

Não era um São Paulo chegando à Argentina em frangalhos. Era uma equipe ganhando confiança, encontrando resultados e começando a construir a sensação de que poderia atravessar uma noite hostil sem se desmontar. Em boa medida, atravessou. A defesa manteve o confronto aberto, o time suportou o ambiente e o 1 a 0 não é sentença.

Mas sobreviver não significa sair ileso.

O São Paulo voltou da Bombonera com esperança no placar e um buraco no comando do ataque.

É tentador transformar tudo em épica: a pressão do Boca, a atmosfera, o capitão que joga no limite, a catimba sul-americana. Só que o futebol também exige frieza. E foi justamente a frieza que faltou a quem deveria transmiti-la ao restante do time.

Identificação não compra absolvição

Calleri merece respeito pela história que construiu no clube. O torcedor reconhece quem corre, briga, joga machucado e trata o escudo com afeto. Essa relação não desaparece por causa de uma noite ruim. Também não pode servir como salvo-conduto.

Aliás, quanto maior a liderança, maior a cobrança. Se fosse um garoto do banco cometendo o mesmo erro, ouviria que precisa amadurecer. Com Calleri, não cabe discurso paternalista. Ele sabe exatamente o que fez — e sabe o tamanho da ausência que deixou.

O São Paulo agora precisa vencer a volta sem depender do homem que deveria liderar a reação. Pode conseguir. O Boca não apresentou uma superioridade capaz de encerrar a discussão, e o Morumbis terá peso. Só que a margem para erro ficou menor, a escalação ficou mais pobre e o plano ofensivo terá de ser redesenhado às pressas.

Dorival não pode gastar energia lamentando. Precisa montar um time agressivo sem virar presa fácil, encontrar presença de área sem Calleri e decidir até onde vale correr riscos caso Luciano não reúna condições. É uma daquelas noites em que o treinador terá de equilibrar urgência e lucidez enquanto a arquibancada pede ataque aos berros.

Calleri, por sua vez, assistirá. E essa talvez seja a punição mais amarga: ver de fora o jogo para o qual carregava a faixa, a responsabilidade e a obrigação de estar presente.

Capitão de verdade não é quem promete morrer pelo time. É quem permanece em campo para ajudá-lo a viver.