A Ponte não contratou Kleina — chamou uma testemunha para o desabamento

Na sexta passagem de Gilson Kleina, a Ponte tenta trocar o foco: o problema não é a escalação, mas a gestão que atrasou salários e empurrou o elenco à greve.

28 de agosto de 2026

A Ponte não contratou Kleina — chamou uma testemunha para o desabamento

Gilson Kleina não foi contratado para salvar a Ponte Preta. Foi chamado para reconhecer o corpo.

A sexta passagem do treinador por Campinas tem menos cara de projeto esportivo e mais de depoimento em cartório. Kleina conhece o Majestoso, conhece o peso da camisa, conhece os corredores e provavelmente já sabe até qual porta emperra no vestiário. Se aparecer uma goteira nova, será uma das poucas novidades reservadas a ele.

A escolha é tão previsível que chega a ser confortável para quem manda. Quando tudo está pegando fogo, chama-se um rosto conhecido, entrega-se uma prancheta e torce-se para que a arquibancada discuta o 4-4-2. Assim, por algumas horas, ninguém pergunta pelo salário atrasado, pela greve dos jogadores ou pela administração que empurrou a Ponte até a beira de um abismo esportivo.

A sexta passagem de Kleina não é sinal de convicção. É sinal de que a Ponte ficou sem ideias antes de ficar sem pontos.

A tabela não mente — e nem precisa exagerar

A sequência recente é um prontuário. A Ponte empatou por 1 a 1 com o Athletic Club, perdeu por 2 a 0 para o Ceará, ficou no 1 a 1 com o Náutico, levou 6 a 0 do Vila Nova e depois caiu por 2 a 0 diante do Avaí.

Cinco jogos, dois pontos conquistados, dois gols marcados e 12 sofridos. Há números ruins e há números que entram na sala, puxam a cadeira e pedem uma conversa séria com a família.

O 6 a 0 para o Vila Nova foi a humilhação mais barulhenta, claro. Uma goleada dessas não cabe no bolso nem aceita desculpa protocolar. Ela expõe fragilidade técnica, emocional e coletiva. Mas tratá-la como um raio caído num céu azul seria desonestidade. O céu da Ponte já vinha preto havia muito tempo — sem trocadilho, embora o clube pareça empenhado em produzir todos eles.

A derrota para o Avaí, logo depois, serviu para tirar qualquer dúvida: não havia reação escondida atrás do constrangimento. O time voltou a não marcar, voltou a perder e seguiu preso a uma campanha que soma dez pontos em 24 rodadas. Isso não é apenas zona de rebaixamento. É um endereço fixo no desespero.

Só que existe uma diferença fundamental entre diagnosticar o desempenho e apontar a origem da doença. O time joga mal? Joga. O elenco tem limitações? Evidentemente. O treinador terá responsabilidade pelas escolhas daqui em diante? Sem dúvida.

Mas salário atrasado não se corrige com substituição aos 30 do segundo tempo.

A greve é o fato; Kleina é a cortina

Jogador também tem boleto, família e limite. A romantização do profissional que deve entrar em campo “pela camisa” enquanto o clube não cumpre sua obrigação é uma das espertezas mais antigas do futebol brasileiro. Curiosamente, nunca se pede ao dirigente que trabalhe de graça pelo escudo. O sacrifício costuma ser terceirizado para quem sua, corre e vira alvo atrás do alambrado.

A greve do elenco não nasceu de uma derrota específica nem de uma escalação mal montada. Nasceu do atraso. Nasceu da quebra de confiança. E confiança, no futebol, é como zagueiro lento em campo aberto: quando vai embora, dificilmente alguém alcança.

A principal crise da Ponte não está no vestiário. Ela apenas chegou ao vestiário depois de sair dos gabinetes.

A Ponte não contratou Kleina — chamou uma testemunha para o desabamento

É por isso que a contratação de Kleina funciona tão bem como nuvem de fumaça. A discussão pública rapidamente muda de assunto. Quem será o centroavante? Vai jogar com três volantes? O treinador está ultrapassado? Conhece a Série B? Tem o elenco na mão?

Tudo isso pode render debate, mesa-redonda e indignação de microfone. Mas nada disso paga salário.

A diretoria encontrou um para-raios com CPF conhecido pelo torcedor. Se a Ponte reagir, os responsáveis posarão para a fotografia da reconstrução. Se afundar, haverá um treinador à beira do campo para receber vaia, cobrança e demissão. É um mecanismo tão velho que já deveria entrar em campo com camisa retrô.

Não significa que Kleina seja uma vítima ingênua. Aos 57 anos e na sexta passagem pelo clube, ele sabe perfeitamente onde está entrando. Aceitou o risco e será cobrado pelo que estiver sob seu controle. Deve organizar o time, recuperar o mínimo de competitividade e impedir que cada ataque adversário pareça uma excursão sem guia pela área ponte-pretana.

O ponto é outro: seu alcance é curto. Uma prancheta não renegocia dívida, não recompõe credibilidade e não faz depósito bancário. Esperar que o treinador resolva sozinho esse desastre é como entregar um balde de praia a alguém diante de uma enchente e reclamar que ele não trouxe boia.

O perigo vai além da Série B

O rebaixamento, neste momento, deixou de ser ameaça abstrata. Com dez pontos em 24 rodadas e uma sequência que mistura impotência ofensiva com descontrole defensivo, a Ponte caminha para algo ainda mais grave: o risco de ficar sem divisão nacional.

Para um clube centenário, de torcida enorme e identidade popular tão forte, isso não pode ser tratado como acidente de percurso. Seria consequência direta de uma gestão que permitiu à crise financeira contaminar o futebol até tornar o ambiente impraticável.

A Ponte não contratou Kleina — chamou uma testemunha para o desabamento

A camisa da Ponte já sobreviveu a jejuns, quedas, finais perdidas e a uma coleção de sofrimentos capaz de fazer qualquer torcedor pedir adicional de insalubridade. Há orgulho nisso. Há também um perigo: transformar resistência histórica em desculpa para incompetência presente.

O ponte-pretano aguenta muito. Não é obrigado a aceitar tudo.

Camisa pesada ajuda a disputar jogo; não serve para esconder conta vencida.

Kleina pode melhorar encaixes, fechar espaços, simplificar a saída de bola e devolver algum senso de dignidade competitiva. Talvez consiga arrancar uma reação improvável — futebol também vive dessas teimosias. Mas o maior erro seria permitir que uma eventual vitória limpasse a ficha de quem produziu o caos.

A cobrança precisa seguir o caminho inverso da fumaça: sair do banco de reservas e subir até a sala da direção. Quem atrasou salários, desgastou o elenco e deixou a Ponte chegar a esse ponto não pode se proteger atrás do sexto técnico conhecido da casa.

Kleina está ali para tentar impedir o desabamento. Os responsáveis, porém, são aqueles que passaram anos retirando os parafusos.