A primeira lista pós-Noruega precisa enterrar a Seleção por currículo
Depois do pior Mundial desde 1990, Ancelotti precisa romper hierarquias: separar quem aponta para 2030 de quem ainda vive do peso do sobrenome.
8 de setembro de 2026

A derrota para a Noruega não pode virar apenas mais uma cicatriz escondida debaixo da camisa amarela. Foi o pior Mundial do Brasil desde 1990 — e, quando o fracasso atinge esse tamanho, trocar dois reservas, mudar o discurso e divulgar um vídeo com música épica não resolve absolutamente nada.
A primeira convocação de Carlo Ancelotti depois do tombo precisa ser uma ruptura. Não uma vingança, muito menos uma caça às bruxas. Ruptura de verdade: fim das cadeiras cativas, das convocações por serviços prestados e daquela velha mania brasileira de confundir nome conhecido com jogador indispensável.
A camisa da Seleção não pode funcionar como plano de aposentadoria para currículo ilustre.
O ponto de partida é simples. Todo convocado deve responder a uma pergunta desconfortável: ele pode ajudar o Brasil a ganhar a Copa de 2030? Se a resposta for não, sua presença só se justifica por desempenho excepcional no presente e por uma função muito clara dentro do grupo. Experiência, sozinha, não basta. Liderança sem futebol é palestra. História sem rendimento é documentário.
Ancelotti sabe disso melhor do que ninguém. Passou a carreira administrando vestiários estrelados, egos com quilômetros rodados e jogadores que chegam ao treino acompanhados por uma pequena corte renascentista. Sua maior qualidade sempre foi fazer os grandes comprarem uma ideia coletiva. Mas agora o desafio é outro: dizer a alguns deles que o tempo acabou.
E dizer olhando nos olhos.
Gratidão não é critério de convocação
Existe uma diferença enorme entre respeitar uma trajetória e permitir que ela controle o futuro. O Brasil costuma tropeçar justamente aí. Mantém veteranos por medo de perder “casca”, cerca os mais famosos de privilégios invisíveis e adia a renovação até perceber que a Copa já está batendo à porta.
Foi assim em diferentes ciclos. O nome pesa, o passado faz barulho e o treinador pensa duas vezes antes de cortar. Enquanto isso, o garoto em grande fase precisa derrubar a porta; o medalhão só gira a maçaneta.

A lista pós-Noruega deve inverter essa lógica. Quem aponta para 2030 precisa receber minutos, responsabilidade e espaço para errar agora. Não adianta convocar jovens para carregar colete, completar treino e aparecer sorrindo na foto oficial. Renovação cenográfica serve apenas para preencher postagem de rede social.
Estêvão, Endrick, Savinho e outros nomes da nova geração não podem ser tratados como enfeites de futuro enquanto a Seleção insiste em reproduzir hierarquias que fracassaram no presente. Isso não significa entregar vaga por certidão de nascimento. Jovem também precisa jogar bola. A diferença é que, entre dois atletas de rendimento semelhante, a escolha deve favorecer quem ainda estará no auge em 2030 — não quem leva para a concentração uma mala cheia de convocações antigas.
Renovar não é trocar idade; é trocar o dono da responsabilidade.
Também seria preguiçoso jogar toda a culpa nos veteranos. Vinicius Junior e Rodrygo, por exemplo, chegariam a 2030 ainda em faixa competitiva e têm obrigação de participar da reconstrução. Mas o sobrenome — ou, neste caso, o tamanho alcançado no futebol europeu — não concede imunidade. A Seleção precisa parar de tratar protagonista de clube como protagonista automático de Copa. São funções diferentes, ambientes diferentes, pressões diferentes.
Quem fica deve ficar porque joga. E quem joga precisa assumir o fracasso, não se esconder atrás de entrevista protocolar sobre “levantar a cabeça”. A cabeça brasileira já foi levantada tantas vezes depois de eliminações que deve estar com torcicolo.
Os veteranos não podem ser todos colocados no mesmo saco
Há uma tentação compreensível de pedir terra arrasada. Sai todo mundo acima de determinada idade, chama a garotada e começa de novo. Fica bonito na mesa-redonda. Na prática, costuma produzir um time ingênuo, sem voz e vulnerável quando a partida aperta.
Ancelotti não deve abolir os veteranos. Deve abolir os veteranos automáticos.
Um goleiro experiente ainda pode atravessar o ciclo se mantiver nível alto. Um zagueiro rodado pode ajudar na transição se continuar rápido o bastante para defender longe da área. Um meio-campista acima dos 30 pode ser útil se o corpo acompanhar o que a cabeça enxerga. O que não cabe é convocar alguém para “passar experiência” quando o futebol já não passa nem do marcador.
A régua precisa ser individual. Alisson, Marquinhos, Casemiro e qualquer outro nome associado aos ciclos anteriores não podem ser julgados pelo tamanho da carreira, mas pelo que ainda conseguem entregar. Alguns talvez tenham utilidade. Outros provavelmente chegaram ao fim. O erro seria decidir isso pelo afeto — favorável ou contrário — em vez de olhar para campo, condição física e encaixe.
No caso dos atletas que estariam perto dos 36, 37 ou 38 anos em 2030, a exigência deve ser brutal. Só faz sentido mantê-los se forem muito superiores aos concorrentes e se ajudarem a construir o próximo time, não a bloquear sua formação. A exceção precisa parecer exceção. Quando metade da lista vira exceção, alguém está tentando furar a fila.

A mesa de 26 cadeiras não é um museu de cera. Não existe trono hereditário na Seleção, embora alguns tenham se sentado por tanto tempo que já pareciam querer trocar a placa do vestiário pelo próprio nome.
A primeira lista vale mais pelo recado do que pelos escolhidos
Convocação também é linguagem. Um corte inesperado diz ao grupo inteiro que o rendimento voltou a importar. A permanência injustificada de um medalhão comunica o oposto: podem jogar mal, podem fracassar, podem atravessar meses medianos — no fim, o crachá continua funcionando.
Por isso, a primeira lista após a Noruega não deveria buscar conforto. Ela precisa causar algum incômodo. Se os mesmos nomes aparecerem nas mesmas posições, com a mesma hierarquia e as mesmas explicações, Ancelotti terá desperdiçado a melhor oportunidade de mudar a temperatura do ambiente.
Não é necessário banir dez jogadores de uma vez só para posar de revolucionário. Basta que as decisões tenham coerência. Quem perdeu espaço no clube não pode ganhar abrigo na Seleção. Quem vive grande fase não deve ficar fora porque ainda não aprendeu os códigos políticos da concentração. E quem entrar precisa saber que a vaga seguinte não vem no pacote.
O maior erro depois de um desastre é reconstruir a casa usando os móveis que bloquearam a saída.
Há ainda uma questão de identidade. A Seleção passou tempo demais procurando uma formação ideal sem definir que futebol queria jogar. Em 2030, o Brasil não pode chegar novamente dependendo de uma inspiração individual para resolver partidas travadas. O novo ciclo deve escolher jogadores capazes de pressionar, correr, pensar sob pressão e variar soluções. Talento continua obrigatório; improviso como único plano, não.
Essa mudança exige coragem porque mexe com popularidade. Cortar um nome consagrado sempre produz barulho, vídeos de melhores momentos e indignação seletiva. Cada passe bonito de três anos atrás reaparece como prova de que o treinador enlouqueceu. Faz parte. Técnico da Seleção não foi contratado para vencer enquete.
Ancelotti terá crédito se agir agora. Se adiar, será engolido pela velha máquina de empurrar decisões difíceis para depois. Primeiro vem a Data Fifa “de observação”. Depois, a necessidade de dar confiança aos veteranos. Em seguida, faltará pouco para a Copa. Quando alguém perceber, o Brasil estará novamente pedindo renovação com o avião já na pista.
A derrota para a Noruega fechou um ciclo da maneira mais dolorosa possível. Ótimo — não pela derrota, evidentemente, mas porque ela retirou qualquer desculpa para conservar a ordem anterior. O choque já aconteceu. Fingir normalidade seria transformar fracasso em método.
A lista seguinte precisa ter portas abertas, mas nenhuma cadeira reservada. Quem mira 2030 entra pelo campo. Quem vive do nome fica do lado de fora, por mais pesada que seja a bagagem.
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