A Seleção virou excursão: CBF troca reconstrução por escala em Bangladesh

Austrália, Índia e talvez Bangladesh: após o fracasso na Copa, a CBF oferece a Ancelotti uma excursão comercial quando o Brasil precisa de testes sérios.

30 de agosto de 2026

A Seleção virou excursão: CBF troca reconstrução por escala em Bangladesh

As malas da Copa mal esfriaram, e a CBF já encontrou sua prioridade: escolher o destino do próximo passeio.

Austrália, Índia e, quem sabe, Bangladesh aparecem no horizonte da Seleção para uma excursão pela Ásia. Há dinheiro envolvido, mercados enormes, arquibancadas potencialmente lotadas e aquela conversa corporativa sobre “fortalecimento global da marca”. Tudo muito bonito na apresentação de PowerPoint. O problema é que Carlo Ancelotti não foi contratado para inaugurar loja, apertar mão de patrocinador ou posar ao lado de autoridade local. Foi chamado para reconstruir uma seleção que fracassou onde realmente importava.

E reconstrução exige adversário, contexto e desconforto. Não escala comercial.

A Seleção não precisa conhecer novos mercados. Precisa voltar a conhecer a si mesma.

A Austrália, convém separar, oferece algum valor esportivo. É uma seleção competitiva, fisicamente forte, acostumada a Copas e capaz de transformar amistoso em partida indigesta. Pode testar saída sob pressão, disputa aérea, segunda bola e paciência contra um bloco organizado. Não é a França, mas também não é figurante contratado para sorrir na foto.

Índia e Bangladesh são outra conversa. Ambos têm públicos apaixonados e merecem respeito — o futebol não pertence a meia dúzia de potências europeias. A crítica não é aos anfitriões, muito menos aos torcedores que raramente têm a chance de ver jogadores brasileiros de perto. A crítica é à CBF, que insiste em tratar a amarelinha como companhia itinerante de entretenimento justamente quando o departamento de futebol deveria assumir o volante.

A Seleção virou excursão: CBF troca reconstrução por escala em Bangladesh

Depois de uma Copa frustrante, cada Data Fifa deveria funcionar como laboratório para 2030. Ancelotti precisa descobrir quem suporta jogo grande, quais jovens merecem espaço, como o meio-campo reage quando o rival não entrega a bola e de que maneira a defesa se comporta diante de atacantes capazes de cobrar qualquer cochilo. Isso não se aprende em amistoso montado para produzir aplauso, selfie e vídeo promocional.

É como preparar um piloto para Interlagos dando três voltas no estacionamento do shopping. O carro até anda. Só não fica pronto para corrida nenhuma.

O cheque não pode escalar a Seleção

Existe uma lógica financeira evidente. O Brasil continua sendo atração mundial, mesmo depois de tantos tropeços. A camisa carrega Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho. Em muitos lugares, ver a Seleção ao vivo é acontecimento de uma geração. Empresários sabem disso; federações sabem disso; a CBF, evidentemente, sabe melhor do que ninguém.

Monetizar esse interesse não é pecado. Federação também paga conta. O erro está em permitir que o cheque determine o planejamento técnico.

Se a excursão vier acompanhada de compromissos comerciais, ótimo. Se os compromissos comerciais forem o motivo principal da excursão, péssimo. A ordem dos fatores, nesse caso, altera completamente o produto — e o produto pode ser mais uma seleção mal preparada quando chegar a hora de enfrentar quem não pede camisa depois do jogo.

Amistoso fácil infla estatística e esvazia diagnóstico.

Ancelotti deveria receber uma sequência que misturasse estilos e problemas reais: uma potência europeia capaz de pressionar alto; uma seleção africana intensa e vertical; um adversário sul-americano disposto a transformar cada dividida em questão de honra; um time asiático de elite, organizado e veloz. Coreia do Sul e Japão, por exemplo, fariam sentido esportivo dentro de uma passagem pela região. A Austrália também.

O ponto não é exigir cinco finais de Copa por semestre. Ninguém monta calendário assim. Mas há uma diferença enorme entre variar adversários e organizar uma apresentação dos Globetrotters de chuteira, com embaixadinha, patrocinador na primeira fila e dirigente contando nota no camarote.

A Seleção virou excursão: CBF troca reconstrução por escala em Bangladesh

Ancelotti não precisa de aplauso; precisa de respostas

A reconstrução brasileira não será resolvida por uma formação desenhada no quadro. O buraco é mais embaixo. A Seleção perdeu referências, desperdiçou ciclos, trocou treinadores sem convicção e confundiu abundância de atacantes com existência de um time. Sobrou talento individual. Faltou uma ideia que resistisse ao primeiro soco do adversário.

Ancelotti tem currículo e serenidade para organizar a casa, mas nem ele fabrica competitividade no laboratório. Precisa observar jogadores sob pressão de verdade. Precisa ver quem pede a bola depois de errar, quem protege a área quando o jogo fica partido, quem mantém a cabeça no lugar quando o estádio se volta contra o Brasil.

Contra adversários muito inferiores, quase todo lateral parece Cafu, qualquer meia encontra corredor e zagueiro raramente é obrigado a correr para trás. A comissão técnica volta com um pendrive cheio de gols e poucas respostas. O torcedor se anima por 48 horas. Depois chega uma seleção grande, fecha os espaços e reaparece o velho espanto nacional: “Ué, por que não funcionou?”

Porque o ensaio era de festa junina e a estreia foi na Broadway.

Quem escolhe apenas provas fáceis acaba reprovado no exame que vale.

Também existe um risco político. Excursões desse tipo permitem à direção vender normalidade. Vitória, estádio festivo, crianças com camisas amarelas, dirigentes sorrindo, postagem sobre “aproximar a Seleção de sua torcida global”. A derrota na Copa vai sendo embrulhada em conteúdo institucional até parecer um pequeno contratempo de viagem.

Não foi. Fracassar outra vez significou confirmar que o problema brasileiro deixou de ser acidente. Virou método.

Por isso, o planejamento seguinte precisava começar com uma pergunta esportiva: o que o Brasil ainda não sabe fazer? A partir daí se escolhem adversários, locais e condições. A CBF parece preferir a pergunta inversa: onde estão dispostos a pagar mais para ver o Brasil? Depois alguém encaixa cones e coletes na bagagem.

Respeitar Bangladesh é não usar Bangladesh como álibi

Há ainda uma ironia incômoda. Levar a Seleção a países fora do circuito tradicional poderia ter valor cultural enorme. Bangladesh vive o futebol com intensidade impressionante, especialmente durante Copas. A Índia tem dimensão continental e trabalha para ampliar seu espaço no esporte. Uma visita brasileira poderia inspirar crianças, fortalecer intercâmbios e gerar memória afetiva.

Mas, para isso, a CBF precisaria tratar a viagem como projeto de desenvolvimento, não como balcão de negócios. Clínicas com treinadores locais, iniciativas de formação, cooperação técnica e ações duradouras dariam substância ao discurso. Chegar, jogar, faturar e partir é turismo corporativo com chuteiras.

O torcedor de Bangladesh merece ver o Brasil. O Brasil é que não pode fingir que essa partida, isoladamente, prepara uma seleção para conquistar o mundo.

Transformar a amarelinha em atração de excursão é fácil; fazê-la voltar a ser temida dá trabalho.

A decisão correta é simples: se houver espaço na agenda, a CBF pode realizar a viagem, atender parceiros e aproveitar o alcance mundial da camisa. Mas os principais amistosos do ciclo precisam ser reservados a rivais que exponham defeitos, não a eventos que escondam rachaduras atrás de arquibancadas festivas.

Ancelotti não necessita de uma turnê para confirmar que o Brasil sabe trocar passes quando ninguém aperta. Precisa de noites ruins, jogos travados, rivais hostis e problemas que não desapareçam com três dribles e um gol bonito. É assim que se constrói uma equipe campeã: descobrindo cedo onde ela quebra.

Se a CBF entregar ao treinador um calendário guiado pelo departamento comercial, não poderá alegar surpresa depois. O mapa para 2030 não passa pela loja de souvenires. E a Seleção já perdeu tempo demais esperando o ônibus da reconstrução enquanto os dirigentes discutem o preço do pacote.