Abel chutou o microfone — e a conta caiu no colo do Palmeiras
O recurso permitiu a Abel enfrentar o Botafogo, mas a pena subiu para três jogos. No Choque-Rei, o Palmeiras pagará pela indisciplina do treinador.
11 de setembro de 2026

Abel Ferreira conseguiu estar à beira do campo contra o Botafogo. O Palmeiras conseguiu o efeito suspensivo. O departamento jurídico fez o serviço que se esperava dele. E, ainda assim, a história terminou pior: no julgamento do recurso, a punição pelo chute no microfone subiu para três partidas.
É o tipo de vitória jurídica que chega embrulhada para presente e, quando se abre a caixa, traz um boleto.

Não há como colocar essa conta no colo do tribunal, do calendário ou de alguma conspiração criada nas profundezas das redes sociais. O responsável é Abel. Foi ele quem perdeu a cabeça, foi ele quem transformou um objeto de transmissão em alvo e é ele quem deixará o time sem seu comandante em jogos importantes — entre eles, o Choque-Rei.
O Palmeiras recorreu para ganhar um treinador por uma noite e acabou perdendo-o por três jogos.
O recurso fazia sentido. Qualquer clube minimamente organizado tentaria garantir a presença de seu técnico enquanto o caso ainda estivesse em discussão. O Palmeiras não errou ao recorrer; errou quem produziu a imagem, o gesto e a punição. Confundir as duas coisas seria como culpar o garçom porque o freguês resolveu chutar a mesa.
Abel enfrentou o Botafogo no empate por 0 a 0, uma partida dura, travada e sem o lampejo ofensivo necessário para desfazer o nó. Sua presença no banco não entregou a vitória, claro, mas esse nem é o ponto. Treinador não é controle remoto. Ele não aperta um botão e faz a bola entrar. Ainda assim, interfere nos ajustes, na leitura emocional do jogo e na velocidade das decisões.
Agora, justamente quando o Palmeiras precisará administrar uma sequência de enorme pressão, o técnico estará fora. E o Choque-Rei é o retrato perfeito do prejuízo. Clássico não costuma respeitar roteiro, momento ou favoritismo. Um lateral mal cobrado vira contra-ataque; uma reclamação esquenta o estádio; uma substituição cinco minutos atrasada muda tudo. É nessas partidas que o banco também joga.
Abel sabe disso melhor do que ninguém.
A cadeira vazia não é detalhe
Há uma mania conveniente no futebol de tratar suspensão de treinador como algo quase decorativo. “Ele prepara o time durante a semana”, dizem. Sim, prepara. Mas quem já viu um jogo do Palmeiras de Abel sabe que sua atuação não termina na porta do vestiário.
Ele orienta encaixes, cobra intensidade, conversa com auxiliares, pressiona a arbitragem — às vezes muito além da medida — e participa do ambiente como personagem central. Retirá-lo do banco não desmonta a equipe, mas elimina uma de suas principais referências no momento de maior temperatura.
No Choque-Rei, o auxiliar poderá cumprir o plano, realizar as trocas e manter comunicação com a comissão dentro das regras permitidas. Não será, porém, a mesma coisa. Não por falta de competência. Simplesmente porque autoridade não se transfere como uma braçadeira esquecida no armário.

Quem exige cabeça fria dos jogadores não pode oferecer um chute como exemplo.
Esse é o ponto que precisa incomodar internamente. Abel construiu no Palmeiras uma era vencedora baseada em competitividade, organização e controle dos detalhes. Exatamente por isso, seus excessos não podem ser tratados como parte folclórica do pacote, uma espécie de imposto inevitável sobre o sucesso.
Não são.
Paixão ajuda a ganhar jogo. Descontrole ajuda o adversário.
A imagem do técnico chutando um microfone pode até alimentar a caricatura do português explosivo, daquele que vive cada lateral como se fosse o último lance de uma final continental. Só que o folclore acaba quando a punição mexe no banco de reservas. Aí sobra a consequência esportiva, sem filtro e sem música dramática.
O momento torna a ausência mais cara
O Palmeiras vem de uma sequência defensivamente sólida, mas nem sempre inspirada com a bola. Goleou o Santos por 3 a 0 na Copa do Brasil, depois empatou por 1 a 1 com o Mirassol e acumulou dois 0 a 0, contra Santos e Botafogo. Na sequência, venceu a LDU de Quito por 1 a 0 pela Libertadores.
São cinco partidas sem derrota e apenas um gol sofrido. O recorte mostra consistência. Também revela que, depois da goleada sobre o Santos, o ataque encontrou dificuldades para transformar controle em placares mais confortáveis.
É aí que a suspensão pesa ainda mais. Quando o time atravessa partidas apertadas, decididas no detalhe, a leitura do treinador durante os 90 minutos ganha valor. Uma troca de posicionamento, a entrada de um jogador mais agressivo entre as linhas, uma alteração de pressão: qualquer ajuste pode separar o 0 a 0 burocrático do 1 a 0 que salva a semana.
O Palmeiras tem estrutura para sobreviver sem Abel no banco. Tem comissão permanente, elenco experiente e um modelo de jogo consolidado. Não cabe vender a suspensão como tragédia grega — até porque ninguém precisa ver um microfone amassado interpretando Hamlet no Allianz Parque.
Mas sobreviver não significa sair ileso.
A grandeza de Abel não diminui sua culpa; torna o erro ainda menos aceitável.
O clube deve protegê-lo de injustiças, não das consequências de seus próprios atos. Essa diferença parece óbvia, porém costuma desaparecer quando entra em campo a lógica tribal do futebol. Se o personagem é “nosso”, tudo vira perseguição. Se é rival, pede-se prisão perpétua por uma reclamação no quarto árbitro.
O julgamento pode ser discutido nos aspectos técnicos, e o Palmeiras tem todo o direito de discordar da dosimetria. O que não dá é fingir que o problema nasceu na sala do tribunal. Nasceu antes, no instante em que Abel deixou a irritação comandar o gesto.
E agora o Choque-Rei receberá a fatura.
Na cadeira reservada ao treinador, não estará apenas uma ausência. Estará o lembrete de que competitividade sem freio cobra juros — e, no futebol, o vencimento quase sempre cai no pior domingo possível.
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