Abel pediu desculpas, mas deixou quatro trocas no bolso — e o Palmeiras na corda bamba
O Palmeiras criou 11 chances, fez apenas 1 a 0 na LDU e viu Abel trocar só por cãibra. Em Quito, o banco decorativo pode apresentar uma conta bem salgada.
10 de setembro de 2026

Abel Ferreira pediu desculpas. Fez bem. Só faltou explicar por que, diante de uma LDU acuada, com o Palmeiras empilhando oportunidades e o relógio oferecendo tempo de sobra para buscar o segundo gol, preferiu terminar a partida com quatro substituições intactas.
O pedido de desculpas reconhece o óbvio: o 1 a 0 ficou pequeno. Não pelo nome do adversário, muito menos por alguma obrigação arrogante de golear em Libertadores, mas pelo desenho do jogo. Foram 11 chances criadas e apenas uma convertida. A equipe brasileira teve a oportunidade de construir uma vantagem realmente confortável antes da viagem a Quito e saiu de campo carregando uma margem que cabe no bolso — curiosamente, ao lado das placas de substituição que Abel não usou.
Desculpa é gesto. Substituição é ferramenta.
Há noites em que o treinador olha para o banco e não encontra solução. Acontece. Nem todo reserva entra para mudar jogo; alguns entram e mudam apenas o nível de irritação da torcida. Mas não foi essa a questão. Abel simplesmente não tentou. A única troca veio por causa de cãibra, isto é, por imposição física, não por leitura técnica.
E aí mora o incômodo.
O Palmeiras já tinha feito a parte mais difícil: marcou, controlou o confronto e colocou a LDU numa posição desconfortável. Faltava aproveitar o momento. Uma perna descansada, um atacante atacando espaço, alguém com coragem para acelerar contra uma defesa que começava a dar sinais de desgaste. Não era necessário desmontar a equipe nem transformar a área técnica em balcão de rodoviária, com gente entrando e saindo a cada dois minutos. Bastava intervir.
Abel escolheu assistir.
O medo de mexer custou uma vantagem maior
Existe uma mania no futebol brasileiro de tratar substituição como sinônimo automático de ousadia. Não é. Às vezes, mexer significa fechar a casinha. Em outras, significa apenas trocar seis por meia dúzia com chuteira diferente. Ainda assim, quando um time cria 11 chances e converte uma, o banco precisa participar da solução.
O ataque precisava de energia. O jogo pedia uma mudança de característica. Até a manutenção da pressão poderia ser facilitada com jogadores mais frescos. Abel tinha quatro movimentos disponíveis e preferiu guardá-los como quem economiza ficha de fliperama depois que a máquina já foi desligada.
O maior erro do Palmeiras não foi perder gols. Foi aceitar que um gol bastava.
É possível entender o receio do treinador. A LDU tem tradição continental, sabe sobreviver em partidas ruins e adora encontrar um gol perdido no meio da bagunça. Ao se lançar demais, o Palmeiras poderia oferecer o empate. Só que uma coisa é administrar riscos; outra é administrar a própria ambição.
O time não precisava se atirar de maneira irresponsável. Precisava continuar jogando para ampliar.
Essa diferença parece pequena no discurso, mas costuma ser enorme no mata-mata. O 2 a 0 obrigaria a LDU a escalar uma montanha antes mesmo de lidar com a montanha de verdade. O 1 a 0 mantém tudo vivo, respirando e perigosamente confortável para quem decidirá em Quito.

A defesa sustenta, mas o ataque anda econômico demais
O recorte recente ajuda a entender por que o desperdício preocupa. Depois dos 3 a 0 sobre o Santos pela Copa do Brasil, o Palmeiras empatou por 1 a 1 com o Mirassol, ficou no 0 a 0 novamente diante do Santos e repetiu o placar sem gols contra o Botafogo. A vitória sobre a LDU encerrou a sequência de empates, mas não afastou a sensação de que o ataque está cobrando caro por cada comemoração.
Nos quatro jogos seguintes à vitória por 3 a 0, foram apenas dois gols marcados. Em compensação, a defesa sofreu só um nos últimos cinco compromissos. É um Palmeiras duro, organizado e difícil de derrubar — qualidades indispensáveis em qualquer campanha continental. Mas também é um time que vem transformando partidas controladas em testes cardíacos desnecessários.
Não há crise. Seria desonesto vender esse pacote. O Palmeiras está invicto nessa sequência, venceu o jogo de ida e não sofreu gol da LDU. O problema é outro: desempenho suficiente não pode ser confundido com desempenho bem aproveitado.
Mata-mata não distribui pontos por superioridade moral. A bola na trave, a chance clara e a pressão de dez minutos valem exatamente nada quando o avião pousa para o jogo de volta. O que viaja é o placar.
Em Libertadores, oportunidade desperdiçada também entra na súmula — só aparece mais tarde, na forma de arrependimento.
Quito não perdoa vantagem de enfeite
Levar um gol de vantagem para Quito não é uma tragédia. É vantagem, afinal, e merece ser tratada como tal. O Palmeiras tem equipe, repertório defensivo e experiência para administrar o confronto. Mas a altitude muda o esforço, o ritmo e até a percepção do relógio. Uma vantagem mínima, nessas condições, pode começar a derreter antes de o torcedor terminar de ajeitar a almofada no sofá.
A LDU saiu derrotada, porém saiu viva. Esse é o presente que o Palmeiras ofereceu ao adversário.

Na volta, Abel provavelmente precisará recorrer ao banco com bem mais frequência. Não porque quatro substituições possam ser transferidas de uma partida para outra — seria conveniente, quase um programa de milhas do treinador —, mas porque jogar em Quito exige resposta física e leitura rápida. Esperar a cãibra dar a ordem novamente seria uma irresponsabilidade.
O pedido de desculpas tem valor porque Abel raramente foge do debate. Ele sabe que errou e colocou a cara. Isso o diferencia de técnicos que culpam gramado, calendário, arbitragem, fase da lua e, se houver tempo, o alinhamento de Saturno. Só que assumir o erro não diminui o tamanho dele.
O Palmeiras teve o confronto nas mãos e decidiu não apertá-las.
Agora irá a Quito com um resultado favorável, mas sem gordura, sem sossego e sem o direito de repetir a passividade. Se a classificação virar sofrimento, ninguém poderá dizer que faltou aviso. Faltou troca.
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