Abel chutou outro microfone — e a desculpa da perseguição já não cola

A nova denúncia no STJD não faz de Abel um mártir. Reincidente, o técnico transforma descontrole em prejuízo para o Palmeiras na briga pelo título.

1 de setembro de 2026

Abel chutou outro microfone — e a desculpa da perseguição já não cola

O microfone não marcou ninguém, não apitou falta e tampouco perdeu um gol na pequena área. Ainda assim, terminou novamente no caminho de Abel Ferreira — ou, mais precisamente, do pé dele.

A nova denúncia contra o treinador do Palmeiras no Superior Tribunal de Justiça Desportiva não comprova, por si só, culpa. Denúncia não é condenação, e convém respeitar essa diferença antes que o tribunal das redes sociais monte a forca, venda ingresso e ainda reclame do VAR. Mas o episódio tampouco pode ser tratado como mais um capítulo da suposta cruzada nacional contra Abel.

Quando a exceção vira rotina, já não existe perseguição capaz de explicar tudo.

Abel não é vítima do próprio temperamento. É responsável por ele.

O português tem méritos gigantescos, talvez suficientes para colocá-lo entre os treinadores mais importantes da história do ::team{id=121}. Deu ao clube organização, competitividade, títulos e uma casca internacional que não se compra em loja. Também construiu um ambiente no qual perder passou a ser quase uma ofensa pessoal. Isso ajuda a entender o campeão. Não absolve o reincidente.

O escudo da perseguição está furado

Toda vez que Abel se descontrola, surge a tropa encarregada de explicar que ele é provocado, visado, mal interpretado ou julgado de maneira diferente. Às vezes, há fundamento. O treinador já recebeu críticas desproporcionais, inclusive com um componente xenófobo que não pode ser varrido para baixo do tapete. Arbitragem brasileira também oferece material para indignação em escala industrial. Até um monge tibetano pediria cartão para alguém depois de certas atuações.

Só que nenhuma dessas verdades transforma chute em argumento.

Abel chutou outro microfone — e a desculpa da perseguição já não cola

O problema da tese da perseguição é simples: ela tenta discutir o ambiente para não discutir o comportamento. Abel pode estar certo ao reclamar de um lance e completamente errado na maneira como reage. Uma coisa não cancela a outra. É perfeitamente possível haver erro do árbitro e erro do treinador na mesma noite — o futebol brasileiro, aliás, possui talento raro para produzir os dois simultaneamente.

A reincidência muda o peso do caso. Não estamos diante de um novato que perdeu a cabeça uma vez, pediu desculpas e aprendeu. Estamos falando de um profissional experiente, conhecedor dos regulamentos e plenamente consciente de que cada gesto seu vira imagem, denúncia, julgamento e possível punição.

Chutar outro microfone, nesse contexto, é como bater o carro pela segunda vez no mesmo poste e processar a prefeitura porque o poste continua ali.

Perseguição não pode virar salvo-conduto para descontrole.

O prejuízo não fica na súmula

Há quem reduza o assunto a uma cena lateral: um objeto chutado, alguns segundos de irritação, fim de papo. Seria confortável se funcionasse assim. Não funciona.

Uma denúncia no STJD abre a possibilidade de punição e, portanto, de ausência justamente quando o Palmeiras disputa pontos que podem decidir o campeonato. Mesmo antes de qualquer julgamento, a comissão técnica precisa gastar energia administrando uma crise desnecessária. A diretoria prepara defesa. O departamento jurídico entra em campo. O elenco passa a responder sobre o temperamento do chefe em vez de falar de futebol.

Tudo isso porque um microfone teve o azar de aparecer no CEP errado.

O momento esportivo torna a irresponsabilidade ainda mais difícil de engolir. O Palmeiras vinha de uma sequência forte: venceu o Cerro Porteño por 1 a 0 na Libertadores, atropelou o Vasco por 4 a 1 no Brasileiro e bateu o Santos por 3 a 0 na Copa do Brasil. Antes disso, porém, havia perdido por 3 a 2 para o Fluminense. Já o empate por 1 a 1 com o Mirassol interrompeu o embalo no campeonato e lembrou que, na corrida pelo título, ponto deixado pelo caminho não aceita explicação emocional.

O time está vivo em diferentes frentes e tem futebol para competir por todas elas. Justamente por isso, seu treinador não pode se transformar em risco disciplinar recorrente. Uma equipe candidata a campeã já precisa lidar com lesões, desgaste, arbitragem, calendário e adversários. Acrescentar o próprio comandante à lista de ameaças é capricho demais.

Na briga pelo título, autocontrole também vale ponto.

Abel costuma exigir maturidade dos jogadores. Cobra concentração, respeito ao plano e cabeça fria nos momentos de pressão. Está correto. Um zagueiro que entra de sola sem necessidade prejudica o grupo. Um atacante que reclama até ser expulso também. Por qual motivo o padrão seria diferente para quem ocupa a área técnica?

Liderança não é apenas pedir disciplina. É praticá-la quando o sangue ferve.

O Palmeiras precisa parar de passar pano

A diretoria palmeirense deve defender Abel de injustiças, exageros e ataques pessoais. Esse é seu dever institucional. O maior erro, porém, seria confundir defesa jurídica com absolvição moral automática.

Se o clube responder a cada novo episódio repetindo que há uma campanha contra o técnico, estará prestando um desserviço ao próprio treinador. Passar pano pode parecer lealdade no curto prazo, mas vira incentivo à repetição. E a conta, cedo ou tarde, chega em forma de suspensão, turbulência ou desfalque no banco.

Abel chutou outro microfone — e a desculpa da perseguição já não cola

É preciso uma cobrança interna séria, sem espetáculo público e sem nota oficial escrita com espuma na boca. Abel deve entender que seu tamanho no Palmeiras aumenta sua responsabilidade; não a diminui. Quanto mais importante é o técnico, maior o dano causado quando ele perde o controle.

O clube também não pode aceitar a chantagem emocional de que qualquer crítica ao português representa ingratidão por tudo o que ele ganhou. Gratidão não exige silêncio. Pelo contrário: quem reconhece a grandeza do trabalho sabe que episódios assim apequenam uma trajetória monumental.

Defender Abel de injustiças é obrigação; defendê-lo de Abel é impossível.

O STJD deverá analisar a denúncia, ouvir a defesa e decidir conforme as provas e o regulamento. Sem antecipar sentença, o Palmeiras precisa tratar o episódio pelo que ele já é: uma falha grave de comportamento e um risco esportivo criado pelo próprio treinador.

Abel não precisa ficar manso, virar personagem de comercial de margarina ou assistir a uma arbitragem confusa com sorriso de apresentador infantil. Sua intensidade faz parte do pacote e ajudou a moldar um time feroz. Mas intensidade sem limite ganha outro nome. E o Palmeiras não pode esperar o próximo microfone descobrir isso da pior maneira.