Allan vai ao City: o Palmeiras ganhou no caixa e entregou o problema a Abel

Por €40 milhões, a venda é excelente. Difícil é explicar por que o Palmeiras tira de Abel, em agosto, uma peça presente em 42 dos 48 jogos do ano.

24 de agosto de 2026

Allan vai ao City: o Palmeiras ganhou no caixa e entregou o problema a Abel

A venda é irrecusável. O timing, indefensável.

Por € 40 milhões, o Palmeiras fez um negócio espetacular. Não há malabarismo retórico capaz de transformar essa quantia em troco de padaria. É dinheiro de jogador pronto, consolidado na elite europeia, pago por um atleta que ainda carregava consigo uma boa dose de projeção. O Manchester City compra talento, juventude e teto. O Palmeiras vende muito bem aquilo que formou e valorizou.

Até aí, aplausos para a diretoria.

O problema começa quando alguém olha o calendário, percebe que estamos em agosto e pergunta quem vai explicar a operação a Abel Ferreira. Allan esteve em 42 dos 48 jogos do clube no ano — 87,5% das partidas. Pode-se discutir quantas vezes começou, em quais funções foi mais útil ou se já era dono absoluto de uma posição. O que não dá é tratá-lo como figurante. Figurante não aparece em 42 capítulos de uma temporada com 48 episódios.

Disponibilidade também é talento — e Allan estava quase sempre disponível para Abel.

Allan vai ao City: o Palmeiras ganhou no caixa e entregou o problema a Abel

O extrato bancário não entra em campo

O Palmeiras vem de uma goleada por 4 a 1 sobre o Vasco, resultado que aliviou o ambiente e devolveu ao ataque uma contundência desaparecida em parte de agosto.

Mas a sequência anterior explica por que perder uma peça tão utilizada incomoda. Houve empate sem gols com o Internacional, 1 a 1 diante do Cerro Porteño, derrota por 3 a 2 para o Fluminense e, enfim, a vitória por 1 a 0 no Paraguai que garantiu a resposta necessária na Libertadores.

É um recorte de oscilação, desgaste e decisões apertadas. Exatamente o tipo de cenário em que treinador gosta de ter alternativas, não discursos sobre sustentabilidade financeira. Abel não escala euros, não coloca planilha para pressionar a saída de bola e tampouco chama uma cláusula contratual aos 35 minutos do segundo tempo.

Esperar que ele sorria apenas porque o balanço ficou bonito é como vender o extintor durante um incêndio e comemorar o desconto na conta de água.

Isso não significa que o Palmeiras deveria rejeitar € 40 milhões. Seria irresponsável. A quantia premia o trabalho da base, fortalece o clube e mantém o modelo que transformou jovens em patrimônio esportivo e financeiro. Allan também tem o direito de abraçar uma oportunidade rara. O City não bate à porta toda terça-feira oferecendo uma fortuna.

Só que aceitar a proposta era a parte fácil. A obrigação da diretoria era preparar o dia seguinte.

Reposição não pode ser palavra de coletiva

O maior erro agora seria apresentar qualquer jogador do elenco como substituto automático apenas porque ocupa uma faixa parecida do campo. Futebol não funciona por recorte e cola. Abel perde uma peça que conhecia os movimentos da equipe, entendia as cobranças do treinador e podia ser acionada em diferentes contextos. Um garoto promovido ou um reserva reaproveitado pode até responder bem, mas não deve receber de presente uma responsabilidade que a diretoria decidiu criar.

Quem vende uma solução em agosto não pode entregar uma promessa como reposição.

Há ainda um detalhe importante: 42 participações em 48 jogos não acontecem por acaso. Esse número revela confiança, utilidade e encaixe. Mesmo quando não era protagonista, Allan fazia parte da engrenagem. E peças assim costumam ser mais sentidas depois que saem — quando o titular cansa, quando surge uma suspensão, quando o jogo trava e o banco oferece apenas opções previsíveis.

O Palmeiras conhece esse risco. O clube construiu sua era vencedora não apenas com estrelas, mas com profundidade de elenco. As taças vieram porque Abel quase sempre encontrou uma segunda resposta quando a primeira falhou. Encurtar o grupo no momento em que o calendário cobra juros é brincar com uma das maiores virtudes desse ciclo.

A conta política ficou para Abel

Existe também uma esperteza silenciosa nessa história. Quando a venda rende € 40 milhões, o mérito é institucional: diretoria, base, gestão, negociação. Se a equipe sentir a ausência e perder rendimento, a cobrança costuma aterrissar no banco de reservas. Aí surgem as perguntas sobre escalação, substituições e “falta de repertório”. Conveniente, não?

Abel tem seus defeitos e frequentemente merece cobrança. Mas, neste caso, o problema foi colocado no colo dele. O treinador não escolheu abrir mão de um jogador presente em praticamente nove de cada dez partidas do ano. Recebeu a notícia e agora terá de recalcular minutos, funções e rotações enquanto as competições continuam andando.

O caixa ganhou um reforço de € 40 milhões; o elenco perdeu um jogador de 42 partidas.

A venda de Allan é excelente para o Palmeiras e excelente para Allan. Para o time, por enquanto, é uma perda pura e simples. Não há contradição nisso. Clube grande precisa saber negociar, mas precisa saber competir com a mesma competência — especialmente quando decide negociar no meio da corrida.

A diretoria merece parabéns pelo valor. E deve ser cobrada, sem desconto, pela reposição. Se ela não vier, não adianta apontar para Manchester quando a bola queimar em São Paulo. O dinheiro estará seguro no cofre. O problema estará bem vivo na área técnica.