Ancelotti achou o buraco no meio — depois de ajudar a cavá-lo

O diagnóstico de Ancelotti está certo: faltam meias de elite. Mas levar só cinco à Copa e empilhar atacantes também cobrou seu preço contra a Noruega.

4 de agosto de 2026

Ancelotti achou o buraco no meio — depois de ajudar a cavá-lo

Carlo Ancelotti viu o buraco. O problema é que chegou à beirada segurando uma pá.

O diagnóstico feito depois do duelo com a Noruega é correto: o Brasil tem produzido atacantes em escala industrial e poucos meias de elite, daqueles capazes de receber pressionados, girar o jogo, controlar o relógio da partida e encontrar um passe que não esteja piscando em neon. Esse desequilíbrio existe. Não nasceu na concentração da Seleção e tampouco será resolvido com uma convocação inspirada.

Só que há uma diferença importante entre identificar uma carência estrutural e montar um elenco que a escancara. Ancelotti levou apenas cinco jogadores para o meio-campo na Copa. Em compensação, empilhou atacantes como quem faz compras com fome: pega tudo o que parece bonito na prateleira e só percebe o exagero quando chega ao caixa.

Contra a Noruega, a conta apareceu.

Não adianta reclamar da falta de meias depois de tratar o meio-campo como bagagem de mão.

A Seleção ficou com poucas alternativas para mudar a natureza do jogo. Havia gente para correr, atacar profundidade, abrir o campo e buscar o duelo individual. Faltava quem desse pausa, aproximação e clareza. Quando a partida exigiu menos aceleração e mais cérebro, o banco brasileiro ofereceu novas versões da mesma ideia.

É um velho vício nacional com roupa nova. Como o país revela pontas talentosos aos montes, surge a tentação de levar todos. Um corta para dentro, outro vai à linha de fundo, outro flutua, outro pressiona, outro tem números extraordinários no clube. Sempre existe uma justificativa individual. O problema aparece quando se olha o conjunto: quantos jogadores precisam da bola no último terço e quantos conseguem levá-la até lá com qualidade?

A Noruega não precisou descobrir a pólvora. Bastou fechar caminhos por dentro, incomodar a primeira construção brasileira e transformar cada posse da Seleção em uma corrida contra o próprio nervosismo. Sem superioridade no centro, a bola ia para os lados. Das laterais, voltava para trás. Quando finalmente chegava aos atacantes, chegava quadrada, atrasada ou cercada.

Ponta nenhum faz milagre recebendo a bola parado, de costas e com dois adversários no cangote. Nem os melhores.

O Brasil tinha atacantes para arrombar a porta, mas quase ninguém para encontrar a chave.

Ancelotti conhece melhor do que quase todos o valor de um grande meio-campo. Seus melhores times nunca foram apenas coleções de estrelas ofensivas. Eram equipes comandadas por jogadores capazes de ordenar o caos: gente que sabia quando acelerar, quando respirar e quando esconder a bola até o adversário perder a paciência. O italiano construiu parte da carreira administrando esse tipo de inteligência.

Por isso, a escolha brasileira causa ainda mais estranheza. Não se esperava que ele tirasse um novo Modric da cartola — até porque cartola de treinador não é categoria de base —, mas era razoável esperar uma proteção maior ao setor mais vulnerável do elenco. Se há poucos meias de elite, cada vaga destinada a um deles fica ainda mais valiosa. A escassez deveria produzir cautela. Produziu aposta.

Ancelotti achou o buraco no meio — depois de ajudar a cavá-lo

E aqui convém separar duas discussões que foram misturadas depois do jogo.

A primeira é de formação. O futebol brasileiro realmente diminuiu o espaço dado ao meia que pensa o jogo. Nas categorias de base, velocidade, força e capacidade de repetição passaram a ser premiadas cedo. O garoto que prende um pouco mais a bola para observar pode ser chamado de lento antes mesmo de aprender a controlar o ritmo. O camisa 10 virou ponta. O segundo volante virou carregador. O organizador, quando aparece, muitas vezes precisa provar que também consegue correr como um lateral e marcar como um zagueiro.

Enquanto isso, a Europa segue oferecendo contexto, minutos e educação tática para jogadores de meio. Não por acaso, muitos brasileiros só ganham repertório depois de sair do país. Aprendem novos ângulos de passe, melhoram a leitura sem bola e descobrem que intensidade não significa viver a 200 quilômetros por hora. Às vezes, tocar para o lado é covardia. Às vezes, é exatamente o passe que desmonta a pressão seguinte.

Essa transformação não depende de Ancelotti. Depende dos clubes, dos treinadores de base, dos critérios de captação e de uma cultura que ainda se encanta mais facilmente com o drible do que com o passe anterior ao drible. É uma obra longa, talvez até 2030 e além.

A segunda discussão, porém, é imediata. E essa pertence ao técnico.

A Copa não é laboratório de formação. Ancelotti não foi contratado para fabricar meias durante o torneio, mas para montar a melhor equipe possível com o material disponível. Se sabia que a oferta era limitada, deveria ter levado mais perfis complementares: um jogador capaz de organizar por baixo, outro de carregar sob pressão, um meio-campista mais associativo para partidas travadas. Não precisavam ser gênios. Precisavam oferecer saídas diferentes.

Convocação não é concurso dos melhores nomes isolados. É construção de elenco. O sexto atacante pode ser mais talentoso do que o sexto meio-campista e, ainda assim, ser menos necessário. Essa é justamente a parte do trabalho que separa uma lista de destaques de um grupo preparado para enfrentar problemas variados.

Em Copa do Mundo, redundância ofensiva também é desperdício.

O excesso na frente ainda cria outro efeito: empurra jogadores para funções que não dominam. Para colocar mais talento ofensivo no time, recua-se um atacante, improvisa-se um ponta por dentro ou se pede a alguém acostumado ao último passe que participe da saída. No papel, parece ousadia. No campo, muitas vezes vira engarrafamento. Três jogadores ocupam o mesmo corredor, o lateral não sabe se passa, o volante recebe sem linha de apoio e a defesa começa a rifar a bola com a elegância de quem joga uma geladeira pela janela.

Foi esse tipo de desordem que a Noruega explorou. Não necessariamente por ter mais talento, mas por entender melhor onde a partida seria decidida. Um adversário organizado não precisa dominar todas as zonas; basta controlar aquela que conecta as demais. Sem o centro, o Brasil virou duas metades: defensores tentando iniciar e atacantes esperando algo acontecer.

Ancelotti merece crédito por não maquiar o problema. Há treinadores que, depois de uma atuação ruim, culpam o gramado, o calendário, o vento, Mercúrio retrógrado e, se houver tempo, o bandeirinha. Admitir uma deficiência técnica do país é mais honesto. Também abre uma conversa necessária sobre o jogador que estamos formando.

Mas honestidade no diagnóstico não concede imunidade às decisões. Pelo contrário: se o treinador sabia da doença, tinha obrigação de levar mais remédio.

Ancelotti está certo sobre o futebol brasileiro e errado sobre a própria convocação.

A correção agora não passa por abandonar os pontas nem transformar a Seleção num culto à posse estéril. O Brasil precisa de seus atacantes desequilibrantes. Precisa do drible, da agressividade e da velocidade que continuam assustando qualquer defesa. Só não pode confundir abundância com equilíbrio.

O passo seguinte é reduzir a repetição de perfis e devolver peso ao meio. Escolher jogadores pela função que podem cumprir, não apenas pelo brilho que carregam do clube. Aceitar, inclusive, que um nome menos badalado pode ser mais útil do que outro atacante de grife destinado a assistir ao jogo ou entrar para fazer exatamente o que já estava sendo feito.

Porque a questão deixada pela Noruega não é filosófica. É brutalmente prática: quando o plano de atacar pelos lados emperrar, quem manda no jogo por dentro?

Se a resposta continuar sendo “ninguém”, não haverá ponta suficiente para esconder o buraco.