As Brabas entram no mata-mata com três taças penduradas no boleto do Corinthians
Corinthians quitou só um mês de direitos de imagem e ainda deve premiações por três campanhas. Homenagear as Brabas sem pagar o combinado é exploração.
31 de agosto de 2026

A conta chegou antes do mata-mata. E, ao contrário das Brabas, ela não perde prazo, não sente pressão e não aceita aplauso como entrada.
O Corinthians entra na fase decisiva do Brasileiro devendo direitos de imagem e premiações ao elenco feminino. Até aqui, apenas um mês dos valores de imagem foi quitado. Também continuam pendentes os bônus por três campanhas — três, não uma distração contábil perdida no fundo de uma gaveta.
É uma situação indefensável. O clube que se acostumou a erguer taças com as Brabas agora parece querer pagar parte da fatura em homenagens, vídeos emocionados e postagens cheias de coração preto e branco. Bonito para o engajamento. Inútil para quem tem boleto vencendo.
Homenagem sem pagamento não é reconhecimento. É exploração com filtro de rede social.

A mística não faz Pix
O Corinthians transformou seu futebol feminino em patrimônio institucional. “As Brabas” deixou de ser apenas um apelido e virou marca, identidade, motivo de orgulho e uma espécie de certificado permanente de modernidade para o clube. Quando elas ganham, a diretoria corre para a fotografia. Quando chega a hora de cumprir o combinado, a velocidade já não é exatamente a mesma.
Não se trata de mimo, favor ou prêmio distribuído por generosidade presidencial. Direitos de imagem fazem parte do acordo firmado com as atletas. Premiação é compromisso assumido por campanha. Se o clube prometeu, deve pagar. Ponto.
Tentar separar a cobrança financeira do ambiente esportivo também é uma conveniência. Ninguém precisa afirmar que cada passe errado nasce de uma parcela atrasada — futebol não funciona com essa simplicidade infantil. Mas exigir concentração absoluta de uma profissional enquanto o empregador relativiza a própria obrigação é uma incoerência do tamanho da Neo Química Arena.
Seria como cobrar marcação alta de quem está sendo paga em confete. No primeiro vento, some tudo.
A camisa pesa. O boleto também.
E o momento esportivo pede cabeça limpa. O Corinthians chega ao mata-mata depois de uma sequência que começou com autoridade e terminou com um alerta barulhento. Venceu o Vitória por 4 a 0, bateu o Flamengo por 1 a 0 e goleou o Santos por 4 a 1. Depois, empatou por 1 a 1 com o Bahia e perdeu por 3 a 1 para o Internacional.
A derrota para o Inter não apaga o que esse elenco construiu, mas retira qualquer espaço para piloto automático. Mata-mata não respeita currículo, escudo ou sala de troféus. Aliás, se respeitasse sala de troféus, as Brabas já teriam crédito ilimitado dentro do Parque São Jorge.
Do outro lado, um Cruzeiro irregular — e perigoso
O Cruzeiro também chega oscilando. Empatou sem gols com o Palmeiras em seu compromisso mais recente, depois de vencer o Mixto por 2 a 1. Antes disso, perdeu para o Grêmio por 2 a 0, goleou o Botafogo por 4 a 0 e foi derrotado pelo São Paulo por 2 a 1.
Ou seja: não é um adversário vivendo uma arrancada irresistível, mas tampouco é um convite para passeio. No Independência, a tendência é de confronto físico, pouco espaço e cobrança imediata sobre qualquer desatenção. O Corinthians tem mais experiência nesse tipo de ambiente. Justamente por isso, a diretoria deveria facilitar o trabalho — não acrescentar uma mochila de contas vencidas às costas do elenco.

Há um vício particularmente irritante no futebol brasileiro: tratar a capacidade das atletas de competir em meio ao caos como autorização para manter o caos. Como elas já ganharam com calendário apertado, pressão e estrutura desigual, surge a ideia de que aguentarão mais uma. E depois outra. E mais três premiações atrasadas, quem sabe.
Não. Resiliência não pode virar rubrica orçamentária.
O sucesso das Brabas não absolve a gestão; torna a dívida ainda mais vergonhosa.
A responsabilidade aqui é da diretoria corintiana. Não das jogadoras, que seguem entrando em campo. Não da comissão técnica, obrigada a preparar um mata-mata enquanto o assunto financeiro circula no entorno. E muito menos da torcida, que abraçou essa equipe e ajudou a dar ao futebol feminino do clube uma dimensão rara no país.
O maior erro seria esperar uma nova taça para então encontrar dinheiro, fazer cerimônia e anunciar a quitação como gesto de grandeza. Pagar dívida não é grandeza. É obrigação básica. Grandeza seria evitar que a cobrança precisasse existir.
As Brabas vão ao mata-mata carregando a camisa, a pressão e a expectativa de sempre. As três taças penduradas no boleto, porém, pertencem à diretoria.
A próxima homenagem deve vir com comprovante.
Matérias relacionadas

Stabile prometeu pagar as Brabas — e atrasou até a própria palavra
Presidente prometeu uma parcela até 4 de setembro, mas o dinheiro não caiu. Com dívida de R$ 1,5 milhão, o Corinthians agora deve também a própria palavra.

A Adidas obrigou o Santos a pôr preço no próprio tamanho
Com seis anos e presença em cerca de 120 lojas, a proposta expõe o ponto central: a Umbro só cobre a oferta se igualar também a distribuição global.

Maracanã rebaixa o futebol a inquilino e espera a NFL para salvar o gramado
A NFL não criou o pasto do Maracanã: apenas expôs a gestão Fla-Flu, que empurrou a troca do gramado para uma janela curta e imprudente.