Stabile prometeu pagar as Brabas — e atrasou até a própria palavra
Presidente prometeu uma parcela até 4 de setembro, mas o dinheiro não caiu. Com dívida de R$ 1,5 milhão, o Corinthians agora deve também a própria palavra.
5 de setembro de 2026

A bola entrou. O dinheiro, não.
O Corinthians feminino voltou de Minas Gerais com uma vitória por 1 a 0 sobre o Cruzeiro, em 31 de agosto, pelo Brasileiro. Três dias depois, deveria receber uma parcela da dívida acumulada pelo clube. Osmar Stabile havia prometido o pagamento até 4 de setembro. O prazo venceu, a conta continuou vazia e a promessa presidencial ganhou o mesmo destino de tantas outras no Parque São Jorge: a gaveta das desculpas.
Não estamos falando de um ruído bancário, de um PIX extraviado no espaço sideral ou de uma transferência feita depois do expediente. A pendência com as Brabas está na casa de R$ 1,5 milhão. O presidente marcou uma data e não cumpriu. É simples — e justamente por isso é tão grave.
Quem escolhe o prazo não pode culpar o relógio.
Stabile não herdou apenas boletos. Herdou a obrigação de recuperar a credibilidade de uma instituição que passou tempo demais tratando compromissos como sugestões. Ao prometer uma parcela até 4 de setembro, colocou a própria assinatura política em cima da dívida. Quando o dinheiro não caiu, o Corinthians passou a dever duas vezes: às atletas e à própria palavra.
Há atrasos que revelam dificuldade financeira. Há promessas quebradas que revelam desorganização de comando. Neste caso, uma coisa já se misturou à outra de tal maneira que tentar separá-las seria como procurar marcação por encaixe em pelada de condomínio: sempre aparece alguém apontando para o companheiro e dizendo que “aquele ali não era meu”.

A diretoria pode apresentar planilhas, cronogramas e discursos sobre fluxo de caixa. Nenhum desses documentos altera o essencial. Se não havia segurança para pagar, Stabile não deveria ter cravado a data. Se havia, precisa explicar por que a ordem não foi executada. O pior caminho é o silêncio burocrático, aquele truque antigo de esperar a próxima partida para ver se um gol empurra a crise para baixo do tapete.
Com as Brabas, esse expediente chega a ser ofensivo. O time continua entregando resultado em meio à instabilidade. Antes de vencer o Cruzeiro fora de casa, o Corinthians havia passado pelo Flamengo por 1 a 0 no Rio, goleado o Santos por 4 a 1, empatado com o Bahia por 1 a 1 e perdido para o Internacional por 3 a 1.
Não foi uma sequência perfeita. Foi uma sequência competitiva — e construída por profissionais que não deveriam precisar conferir o aplicativo do banco depois de cada treino.
As Brabas não podem ser tratadas como credoras de luxo de um clube que adora exibir as taças delas.
Esse é o ponto que mais incomoda. O Corinthians utiliza o futebol feminino como patrimônio esportivo, símbolo institucional e prova de grandeza. Faz muito bem: a equipe conquistou esse lugar dentro de campo. Mas prestígio não pode existir apenas na foto do título, no vídeo motivacional e no discurso de cerimônia. Respeito também aparece no extrato.
Quando vence, o futebol feminino é “orgulho da Fiel”. Quando cobra, não pode virar item incômodo do contas a pagar.
A conta moral é ainda mais pesada porque as atletas seguem carregando a responsabilidade esportiva. Em campo, qualquer erro custa uma eliminação, um gol, uma derrota. No andar de cima, aparentemente, errar uma data produz apenas uma nova conversa e talvez outra promessa. É uma desigualdade de cobrança que o Corinthians precisa parar de naturalizar.

O maior erro de Stabile agora seria anunciar outro prazo sem antes garantir cada centavo. Nova promessa não é solução; é aumento de dívida emocional. A providência correta exige menos microfone e mais tesouraria: pagar a parcela, apresentar um calendário real para quitar os R$ 1,5 milhão e explicar às atletas, diretamente, por que o compromisso anterior foi descumprido.
Não como favor. Não como gesto de boa vontade. Como obrigação.
Camisa pesada não torna boleto mais leve.
O Corinthians vive uma crise financeira ampla, conhecida e sufocante. Isso ajuda a explicar o problema, mas não absolve o presidente. Clube endividado precisa ser ainda mais rigoroso com aquilo que promete, porque sua palavra é um dos poucos ativos que não dependem de venda, patrocínio ou premiação. Quando até ela perde valor, negociar qualquer saída fica mais difícil.
As Brabas já fizeram a parte delas muitas vezes — talvez mais vezes do que a instituição merecesse. Jogaram, ganharam, colecionaram troféus e transformaram o escudo em referência continental. Não cabe a elas financiar a desordem corintiana enquanto continuam sendo cobradas como se tudo estivesse em dia.
Stabile deve pagar. E, antes de voltar a fazer discurso sobre respeito ao futebol feminino, convém lembrar uma regra elementar de vestiário: palavra dada não precisa de coletiva, precisa ser cumprida.
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