Ganso saiu — e o Fluminense perdeu junto o controle remoto

O 2 a 0 sobre o Platense encaminhou a vaga, mas deixou um alerta para Marcão: sem Ganso, o Fluminense perdeu o comando e passou a jogar contra o relógio.

9 de setembro de 2026

Ganso saiu — e o Fluminense perdeu junto o controle remoto

Dois a zero. Placar limpo, vantagem valiosa e um pé considerável na próxima fase da Libertadores. Seria uma noite sem ressalvas para o Fluminense, não fosse um detalhe do tamanho de Paulo Henrique Ganso: quando ele saiu, o time também pareceu deixar o campo.

Até ali, o Fluminense tinha dono para a bola. Ganso dava o ritmo, escolhia o lado, diminuía a pressa e organizava os companheiros. Não precisava transformar cada toque em lance de almanaque. Seu melhor futebol apareceu justamente no que muita gente não vê: a pausa antes do passe, o corpo orientado para escapar da pressão, a capacidade de decidir quando o jogo deveria correr e quando precisava respirar.

Depois da saída do camisa 10, o controle virou disputa. A bola, antes tratada com alguma cerimônia, começou a queimar nos pés. O Platense ganhou metros, o relógio ficou mais lento e o Fluminense passou a defender não apenas a vantagem, mas também a própria falta de comando.

Ganso não é apenas o homem do último passe. É o sujeito que impede o Fluminense de jogar como se estivesse atrasado para o ônibus.

O problema não foi tirar Ganso

Convém separar as coisas. Marcão não errou simplesmente por substituir Ganso. Em uma temporada apertada, exigir que o meia seja espremido até a última gota em todas as partidas seria como pedir ao maestro para reger a orquestra, carregar os instrumentos e ainda vender pipoca no intervalo.

O erro foi outro: o Fluminense não mostrou saber o que fazer quando o seu organizador foi descansar.

Ganso saiu — e o Fluminense perdeu junto o controle remoto

Todo time dependente de um jogador especial sofre alguma perda quando ele deixa o campo. Isso é inevitável. O Barcelona sem Messi não ficava igual, o Santos sem Pelé tampouco — e ninguém esperava que o substituto tirasse um chapéu da cartola. O que não pode acontecer é a equipe perder ao mesmo tempo o cérebro, o freio e o relógio de pulso.

Sem Ganso, faltou alguém para receber por dentro e dar sequência à jogada sem transformar cada posse em um pequeno incêndio. O Fluminense ficou mais direto, mais partido e, sobretudo, mais previsível. Em vez de obrigar o Platense a correr atrás da bola, aceitou correr atrás do adversário.

É aí que Marcão precisa agir. Não procurando um “novo Ganso” no banco — esse jogador não existe —, mas criando uma alternativa coletiva. Pode ser uma saída com mais gente próxima, um volante adiantando a condução, um atacante recuando para conectar os setores. A solução tática admite variações. O vazio, não.

Substituir Ganso é normal. Substituir também a ideia de jogo é que não pode virar rotina.

O placar foi excelente. A sensação, nem tanto

Há um perigo curioso em vitórias como essa: o resultado pode funcionar como um ótimo esconderijo. O 2 a 0 sobre o Platense encaminhou a classificação e confirmou a boa fase recente do Fluminense. Desde o empate por 1 a 1 com o Independiente Rivadavia, a equipe venceu Remo, Vasco e Platense, além de ter buscado um movimentado 3 a 3 contra o Athletico Paranaense.

São cinco partidas sem derrota, com três vitórias. Em casa, nesse recorte, o Tricolor bateu Remo por 2 a 1, Vasco por 1 a 0 e agora o Platense por 2 a 0. Há consistência nos resultados e mérito evidente na competitividade.

Mas mata-mata continental tem memória longa e senso de humor duvidoso. A vantagem construída no Rio será importante na volta, porém o desconforto dos minutos sem Ganso serve de aviso. Fora de casa, diante de um adversário empurrado pela urgência, devolver a bola a todo instante é uma forma bastante criativa de procurar problema.

O Fluminense já ofereceu sinais recentes dessa oscilação. No empate por 3 a 3 com o Athletico Paranaense, ficou claro como uma partida pode escapar do roteiro quando o controle emocional e territorial vai embora. Libertadores costuma cobrar ainda mais caro. Ela não manda boleto; aparece com juros, pressão da arquibancada e um atacante adversário se jogando em toda bola parada.

Não se trata de desvalorizar a vitória. Pelo contrário. O 2 a 0 foi grande justamente porque permite ao Fluminense corrigir o defeito sem carregar o desespero de quem precisa reverter o placar. Marcão tem margem para trabalhar. O que não tem é desculpa para ignorar o alerta.

Ganso é solução — e também diagnóstico

A atuação do meia expôs sua importância, mas também revelou a dependência do time. Quando está em campo, Ganso organiza até o caos. Ele aponta, aproxima, segura e dá sentido ao posicionamento dos demais. Há jogadores que participam da jogada; ele participa do ambiente da partida.

Isso explica por que sua saída parece tão brusca. Não some apenas um passador. Some a referência que diz aos companheiros onde a jogada vai acontecer. O Fluminense continua com onze jogadores, mas passa alguns minutos procurando o manual de instruções no porta-luvas.

A maior vantagem do Fluminense é o 2 a 0. O maior risco é acreditar que ele joga sozinho.

Ganso saiu — e o Fluminense perdeu junto o controle remoto

Na volta, a tentação será recuar cedo demais, empilhar gente atrás da linha da bola e transformar a vantagem em contagem regressiva. Esse seria o maior erro. O Fluminense precisa usar o placar para jogar, não para fugir do jogo. Ter dois gols de frente não obriga ninguém a passar a noite dentro da própria área.

Ganso será fundamental enquanto tiver pernas e espaço para comandar. Depois, o time precisa conservar ao menos os princípios que ele representa: posse com propósito, aproximação e coragem para respirar com a bola. Se o camisa 10 sair e todos começarem a rifar, o problema não estará no banco, na idade do meia ou no cansaço. Estará na preparação.

Marcão saiu do Maracanã com uma vantagem confortável e uma tarefa inadiável. Antes da viagem, precisa abrir o tal Plano B — de preferência sem descobrir, já em Buenos Aires, que ele ainda está lacrado.