Bet não é oxigênio: os clubes decretaram o apocalipse cedo demais

O manifesto acerta ao cobrar transição e fiscalização, mas chamar restrições às bets de “fim do futebol” expõe uma dependência que os clubes precisam corrigir.

17 de setembro de 2026

Dirigente abraça cilindro escrito Bet enquanto o futebol brasileiro aponta para outras fontes de receita.

Se tirar a marca da bet da camisa, o futebol brasileiro para de respirar?

É a pergunta incômoda que já apareceu em mesa de bar, arquibancada e grupo de WhatsApp — normalmente entre uma reclamação sobre o lateral e outra sobre o preço do ingresso. A resposta deveria ser óbvia. Não, não para. Mas o manifesto divulgado por clubes e federações em 17 de setembro de 2026 resolveu tratar uma possível restrição às apostas como se alguém estivesse entrando na UTI para desligar os aparelhos.

O título escolhido foi “O fim do futebol brasileiro”. Nada modesto. O documento termina ainda mais carregado: “Se acabar com o mercado regulado, as apostas não acabam. O futebol é quem acaba.”

Calma, doutor. O paciente está sentado na maca e pedindo a escalação do próximo jogo.

Na véspera do manifesto, o Botafogo havia vencido o Grêmio por 3 a 2. Na mesma semana, o Vasco batera o Santa Fe por 2 a 0, enquanto o Flamengo vinha de vitória por 2 a 1 sobre o Corinthians. O Fluminense, apesar da derrota por 2 a 1 para o Platense, também seguia jogando sua temporada. O futebol não tinha acabado. Mal tinha tido tempo de tomar banho.

Bet é receita. Oxigênio é outra coisa.

A articulação reuniu as federações de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, além de clubes desses estados. No Rio, representantes de casas de apostas encontraram dirigentes de Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo no mesmo 17 de setembro. Luiz Eduardo Baptista, presidente rubro-negro, e Mattheus Montenegro, presidente tricolor, participaram presencialmente.

É legítimo que os clubes se mobilizem. Aliás, seria irresponsável não fazê-lo. Segundo levantamento publicado pelo UOL, 13 dos 20 integrantes da Série A têm casas de apostas como patrocinadoras máster. Os dirigentes calculam em aproximadamente R$ 1 bilhão o impacto sobre esses contratos caso essa fonte de receita seja integralmente proibida.

Contrato não evapora sem deixar boleto. Clube pequeno não encontra um patrocinador novo sacudindo a camisa na janela. Funcionários, fornecedores e planejamento esportivo não podem ser jogados no liquidificador de uma decisão abrupta. Exigir prazo, segurança jurídica e regras claras é obrigação de qualquer dirigente minimamente sério.

O problema começa quando uma reivindicação econômica razoável veste a fantasia do apocalipse.

Dois diagnósticos enfiados no mesmo prontuário

A discussão tem duas frentes diferentes — e tratá-las como uma coisa só ajuda o discurso de pânico, não o debate.

A Reuters informou em 17 de setembro que a versão da medida provisória discutida no governo mirava a proibição dos cassinos on-line e, a princípio, não incluía apostas esportivas nem patrocínios de clubes e competições. O texto final ainda não havia sido aprovado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva quando a reportagem foi publicada.

Existe, sim, um efeito indireto relevante. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, entre 50% e 70% da receita de algumas operadoras autorizadas vem dos jogos de cassino on-line. Se essa torneira for fechada, sobra menos dinheiro para publicidade e patrocínio esportivo. É uma preocupação concreta, não uma invenção de cartola acuado.

Mas existe também o PL 2.470/2026, aprovado em 2 de setembro pela Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado. Esse texto proíbe publicidade de apostas em uniformes, transmissões, mídias e outros espaços, atingindo diretamente o patrocínio de clubes, federações, ligas, competições e transmissões. Ao contrário de uma tesourada imediata, prevê 24 meses para adaptação ou encerramento dos contratos existentes. O requerimento de urgência para análise no plenário foi aprovado.

Uma medida mira cassinos on-line. A outra mira publicidade e patrocínio. Misturar as duas é como chamar ambulância porque trocaram a senha do Wi-Fi: produz sirene, correria e pouca clareza sobre o problema real.

Dirigente tenta unir pastas sobre a medida provisória e o projeto de publicidade de apostas.

O futebol deve combater uma proibição atabalhoada com precisão, não com fumaça. Se há contratos vigentes, que se cobre transição. Se há risco de migração para operadores ilegais, que se fortaleça a fiscalização. Se a regra ameaça destruir receitas de uma hora para outra, que se negocie um cronograma responsável. Tudo isso cabe numa manifestação firme sem anunciar o enterro do esporte nacional.

A dependência que ninguém quer admitir

O manifesto reconhece os impactos sociais das apostas sobre pessoas vulneráveis e defende fiscalização, prevenção, educação e mecanismos de proteção, em vez do encerramento do mercado regulado. Nesse ponto, acerta. Proibir sem fiscalizar pode apenas empurrar apostadores para o mercado clandestino, onde proteção ao consumidor costuma ser tão confiável quanto zagueiro prometendo “só cercar” dentro da área.

O Brasil possui 188 bets autorizadas a operar, conforme os dados citados pela Reuters. Em 2025, outorgas e impostos do setor renderam quase R$ 10 bilhões ao governo federal, segundo números do Tesouro mencionados pela agência. Não estamos falando de uma atividade escondida no fundo de uma garagem.

Também não estamos falando de dinheiro inofensivo. O Ministério da Fazenda calcula que as famílias brasileiras gastam aproximadamente R$ 60 bilhões por ano em apostas. Lula declarou que sua “disposição pessoal é acabar com as bets”, embora tenha acrescentado que precisa agir “com muita responsabilidade”. A segunda parte da frase é justamente a que deveria orientar governo, Congresso, clubes e operadoras.

Responsabilidade não significa fingir que nada está acontecendo porque o patrocínio paga bem. Tampouco significa decretar uma proibição no susto e deixar contratos, competições e instituições procurando dinheiro debaixo do sofá.

O futebol não pode denunciar a dependência do apostador enquanto celebra a própria dependência financeira.

Eis a contradição que o manifesto tenta driblar, mas deixa a bola escapar. Se a retirada de um único segmento comercial é capaz de representar “o fim do futebol brasileiro”, então o problema não começou no projeto de lei. Começou quando clubes passaram a tratar uma receita conjuntural como elemento vital do organismo.

O futebol brasileiro tem mais de cem anos de história. Sobreviveu a crises administrativas, estádios vazios, moedas diferentes, dirigentes folclóricos e planejamentos que duravam menos que técnico em má fase. Fingir que essa trajetória começou quando o “tigrinho” apareceu na camisa é uma confissão de fragilidade, não uma defesa institucional.

Tirar o respirador exige tratamento, não teatro

Há um caminho adulto. Preservar contratos dentro de um período de adaptação. Criar regras objetivas para publicidade. Impedir mensagens agressivas ou direcionadas a públicos vulneráveis. Cobrar mecanismos de controle das operadoras. Reforçar o combate ao mercado clandestino. E, sobretudo, usar a transição para diversificar receitas.

Porque os clubes também precisam fazer a parte que sempre adiam. Patrocínio de aposta pode ser importante, mas não pode sustentar sozinho a estrutura. Direitos comerciais, programas de sócio, bilheteria, licenciamento e outras parcerias precisam formar um sistema menos vulnerável. Não se troca uma escora por um discurso inflamado.

Sede de clube apoiada em escora de patrocínio bet enquanto dirigentes ignoram outras formas de sustentação.

A preocupação com os clubes menores merece atenção especial. Para eles, uma ruptura tende a ser mais dolorosa e a capacidade de negociação é menor. Justamente por isso, os 24 meses previstos no projeto não deveriam servir para uma contagem regressiva preguiçosa, e sim para reorganização. Transição sem planejamento vira apenas adiamento do susto.

Quem chama patrocinador de oxigênio acaba entregando a ele a chave do respirador.

Os clubes têm razão ao pedir fiscalização, prevenção, educação, proteção e segurança jurídica. Têm razão ao alertar que o mercado ilegal não desaparece por decreto. Têm razão, ainda, ao lembrar que decisões públicas produzem consequências econômicas.

Perdem a razão quando transformam tudo isso em chantagem retórica.

O maior erro agora seria o governo agir por impulso e o futebol responder com melodrama. Há dinheiro, empregos, contratos e pessoas vulneráveis em jogo. O tema pede bisturi. Brasília ameaça usar machado; os cartolas aparecem com sino de fim do mundo.

O futebol brasileiro precisa de patrocinadores — de dono da tomada, não.