Leitão tinha uma cobrança legítima — até rebaixá-la ao nível da arquibancada

O Grêmio tem razão ao exigir clareza sobre o impedimento semiautomático. Ao insultar o Botafogo, Alexandre Leitão sabotou a denúncia e expôs o clube.

17 de setembro de 2026

Dirigente examina uma linha de impedimento enquanto palavras saem de um megafone e são recolhidas por advogados.

Alexandre Leitão jogou fora uma cobrança legítima no instante em que chamou o Botafogo de “time de picaretas”. O Grêmio tinha — e continua tendo — motivos concretos para exigir explicações da CBF sobre o impedimento semiautomático que anulou o gol de Carlos Vinícius aos 45 minutos do segundo tempo. A imagem da transmissão, traçada a partir da região inferior da axila do atacante, foi visualmente pouco conclusiva. PC Oliveira considerou a marcação correta, mas fez a ressalva essencial: em um lance tão apertado, uma câmera adicional ajudaria a identificar com maior precisão o instante do toque na bola. Pronto. Havia ali uma discussão séria sobre tecnologia, protocolo e transparência. Leitão, porém, preferiu cobrar perícia com a delicadeza de quem entra numa relojoaria empunhando uma marreta. Ao publicar “Futebol é muito cruel. Ser roubado e perder para um time de picaretas. Muito difícil”, trocou a lupa pelo rojão.

Transparência não é favor da arbitragem; é parte da credibilidade do campeonato.

O problema não está na revolta. Depois de perder por 3 a 2 no Nilton Santos, com um possível empate anulado no fim, o dirigente tinha obrigação de defender o clube. Danilo abriu o placar, Jovane Cabral empatou, Montoro recolocou o Botafogo à frente, Danilo ampliou e Gustavo Martins descontou antes do lance de Carlos Vinícius. Foi uma derrota dolorosa, dessas que deixam qualquer vestiário com gosto de ferrugem. E existe um antecedente que impede a CBF de tratar a desconfiança gremista como chilique: a própria Ouvidoria da entidade reconheceu o erro na anulação do gol de Braithwaite contra o Bragantino. Naquele lance, a falta marcada antes da conclusão não existiu, e o árbitro deveria ter permitido a jogada para posterior análise do VAR. Rafael Lima acertou ao classificar a imagem contra o Botafogo como “no mínimo” inconclusiva. A cobrança deveria permanecer exatamente aí: qual câmera definiu o momento do passe? Como o sistema determinou o ponto corporal? Por que o público não recebe material capaz de dissipar a dúvida?

O insulto foi o melhor zagueiro que a falta de transparência poderia escalar.

Dirigente desvia uma bola que representa a denúncia enquanto Botafogo segura uma intimação e a CBF cobre o monitor do VAR.

Ao atacar o Botafogo, Leitão desviou a bola para fora. O clube carioca anunciou processo na Justiça comum e representação no STJD; Eduardo Iglesias afirmou que o dirigente terá de justificar judicialmente “cada palavra dita”. É difícil culpá-lo. “Picaretas” não descreve um problema técnico, não aponta falha de protocolo e não prova prejuízo algum. Apenas ofende. Pior: permite que a CBF assista à briga de camarote enquanto a pergunta importante desaparece atrás da cortina. CEO não é perfil de torcedor escondido atrás de avatar. Sua palavra compromete a instituição, cria risco jurídico e precisa carregar mais responsabilidade justamente quando a temperatura sobe.

CEO pode falar duro. O que não pode é falar pequeno.

Também há uma conveniência perigosa nessa explosão. O Grêmio terminou a rodada em 16º, com 28 pontos em 27 jogos, à frente do Vasco somente pelo saldo de gols — e o rival ainda tinha uma partida a menos. Somou apenas três dos últimos 18 pontos do Brasileirão, vencendo a lanterna Chapecoense e perdendo as outras cinco partidas do recorte. Depois do revés, a probabilidade de permanência calculada pelo Gato Mestre caiu de 46,13% para 34,76%. A arbitragem merece fiscalização; ela não pode virar biombo para uma campanha que flerta seriamente com a Série B. E o próximo compromisso é contra o vice-líder Palmeiras, às 11h de 20 de setembro, na Arena do Grêmio.

A tabela não aceita recurso por grosseria.