Tite até 2028: o Botafogo contratou um técnico, não um projeto

Tite é um acerto para frear a queda, mas a SAF ainda troca de mãos. Após dez técnicos desde 2022, a reconstrução precisa vir do clube — não do banco.

16 de setembro de 2026

Tite conserta um vazamento em um barco do Botafogo enquanto dirigentes negociam o leme e papéis da SAF.

O painel continua aceso: Botafogo 1, Red Bull Bragantino 1. O jogo acabou, mas a sensação não. Fica aquele gosto de ponto que não alimenta e de atuação que tampouco acalma. Uma semana antes, o time havia empatado sem gols com o Palmeiras. Antes disso, perdera por 3 a 0 para o Flamengo e por 3 a 2 para o Athletico-PR.

Antes da partida atrasada contra o Grêmio, o Botafogo aparecia em 14º lugar no Brasileirão, quatro pontos acima do Z-4 e sem vencer havia seis rodadas. A tabela ainda não gritava desespero, mas já pigarreava de maneira bastante inconveniente.

A queda não cabe apenas nos resultados. Nos 11 jogos anteriores à pausa da Copa do Mundo, foram 20 gols e 54,6% de aproveitamento. Nos 11 seguintes, nove gols e 39,4% dos pontos. As finalizações sofridas saltaram de 134 para 165. O Botafogo passou a atacar menos, pontuar menos e permitir mais. É a receita clássica para transformar qualquer reta final em consulta ao cardiologista.


Na tela do celular, o comunicado oficial escolhe uma expressão ambiciosa: “união de forças em prol da reconstrução do Botafogo”. Logo acima dela está o nome de Adenor Leonardo Bachi.

Tite foi anunciado em 16 de setembro, com contrato até o fim de 2028. Começa a trabalhar no dia 17, acompanhado do auxiliar Matheus Bachi e do preparador físico Fábio Mahseredjian. O interino Rodrigo Bellão será incorporado à comissão permanente.

O primeiro compromisso disponível é contra o Mirassol, no dia 19, às 17h, no Maião, pela 28ª rodada. Até lá, Tite terá pouco mais do que tempo para dizer bom-dia, decorar alguns nomes e descobrir onde fica a máquina de café.


Em outra mesa — uma que não tem prancheta, chuteira ou cone — advogados discutem drag along, aumento de capital e uma nova versão do acordo de acionistas.

A transferência do controle da SAF para a GDA Luma ainda não foi concluída. Em 9 de setembro, o Botafogo associativo mantinha 51% das ações, enquanto a Eagle Bidco permanecia com 49%. A proposta da GDA envolve US$ 105 milhões e a assunção de uma dívida estimada em quase R$ 3 bilhões. Gabriel de Alba já havia aportado cerca de US$ 50 milhões até setembro.

São cifras gigantes, mecanismos complexos e uma pergunta muito simples: afinal, quem está efetivamente conduzindo o clube?


As três cenas falam da mesma coisa. O empate que não resolve, o treinador apresentado como símbolo de reconstrução e a disputa jurídica pelo controle da SAF são pedaços da mesma instabilidade. Tite chega para comandar o time. O perigo está em o Botafogo esperar que ele também organize a instituição.

Treinador apaga incêndio; não regulariza escritura.

Contratar Tite é um acerto. Neste momento, talvez fosse até irresponsável buscar uma aposta de laboratório, dessas que chegam acompanhadas por um PowerPoint de 80 páginas e saem antes de aprender o caminho do Nilton Santos. O Botafogo precisa estancar a queda, recuperar competitividade e atravessar o restante do Brasileiro sem transformar a proximidade do Z-4 em convivência diária.

E Tite tem currículo para assumir a emergência. Comandou a Seleção Brasileira de 2016 a 2022, venceu a Copa América de 2019 e conquistou Mundial de Clubes, Libertadores e dois Brasileiros pelo Corinthians. Não chega como promessa. Chega com tamanho, experiência e autoridade para entrar num vestiário pressionado sem pedir licença às paredes.

Mas nem esse currículo autoriza o clube a cometer o velho truque de terceirizar sua própria responsabilidade.

Tite é o terceiro treinador efetivo do Botafogo apenas em 2026, depois de Martín Anselmi e Franclim Carvalho. É o décimo comandante desde o início da era SAF, em março de 2022. Dez. A cadeira técnica gira com tanta frequência que já poderia pedir registro no parque de diversões.

Tite aparece em um carrossel com dez cadeiras de treinador enquanto dirigentes seguram uma planta de reconstrução invertida.

Não existe “reconstrução” séria quando o projeto muda de sotaque, método e prioridade a cada troca no banco. Se cada novo técnico recebe a chave da obra, escolhe o piso e derruba a parede levantada pelo antecessor, o problema não está no pedreiro. Está na planta — ou na ausência dela.

Contrato longo não transforma improviso em projeto.

O vínculo até 2028 é um gesto importante porque oferece horizonte. Só que horizonte no papel não garante continuidade na prática. O próprio histórico recente do clube desmente qualquer leitura romântica. Dez treinadores em pouco mais de quatro anos dizem muito mais sobre a capacidade institucional de sustentar decisões do que a data impressa no anúncio.

Também convém olhar para o trabalho anterior de Tite sem maquiagem. Ele deixou o Cruzeiro em 15 de março de 2026, depois do empate por 3 a 3 com o Vasco e de uma sequência de seis partidas sem vitória no início do Brasileirão. Uma semana antes, havia sido campeão mineiro ao vencer o Atlético-MG por 1 a 0 na final.

O contraste é brutal e instrutivo. No futebol brasileiro, uma taça pode durar menos do que o leite aberto na geladeira. Nem Tite, com toda a biografia, está protegido de ambientes que mudam de temperatura a cada rodada.

É justamente por isso que o anúncio exige sobriedade. A palavra “reconstrução” não pode servir como moldura bonita para a fotografia de apresentação. Reconstruir significa definir quem decide, quem responde pelo futebol, qual lógica orienta o elenco e por que um treinador será sustentado quando vierem três atuações ruins — porque elas virão. Acontecem com todos.

O calendário, ao menos, retirou as distrações. Eliminado da Libertadores, da Copa Sul-Americana e da Copa do Brasil, o Botafogo tem apenas o Campeonato Brasileiro no calendário principal. Não há mais outra competição para esconder a queda de desempenho nem outro torneio para vender como prioridade. O diagnóstico está diante do clube, sem filtro.

Tite pode reorganizar a equipe, devolver confiança e interromper a sangria. É para isso que foi contratado e é nisso que deve ser cobrado. Exigir que ele, sozinho, represente a refundação do Botafogo seria como entregar um tijolo ao engenheiro enquanto dois grupos discutem quem é o dono do terreno.

Tite coloca um tijolo em uma obra da SAF do Botafogo enquanto dirigentes disputam a escritura do prédio.

A responsabilidade maior está acima do banco. O associativo, a Eagle Bidco, a GDA Luma e quem vier a exercer o controle precisam produzir uma estrutura que sobreviva ao treinador. Um clube sólido não muda de identidade cada vez que o quarto árbitro levanta a placa.

O projeto precisa explicar Tite; Tite não pode ser obrigado a explicar o projeto.

Se a SAF fizer a parte dela, ele poderá ser o técnico até 2028. Se não fizer, 2028 será apenas a data impressa na cadeira número dez.