Ziyech olhou para os gramados do Brasil — e a piada era nossa
A chegada de Ziyech pode elevar o Botafogo. O medo que quase travou o acordo, porém, expõe um futebol milionário ainda jogado em terrenos indignos.
7 de setembro de 2026

Hakim Ziyech não teve medo do marcador, da pressão da torcida nem do calendário brasileiro, essa invenção que obriga jogador a disputar três competições enquanto procura um aeroporto aberto de madrugada. O receio que ameaçou esfriar sua chegada ao Botafogo foi mais elementar: o chão.
Sim, o gramado.
Um jogador acostumado à elite europeia olhou para alguns campos do futebol brasileiro e quis saber onde, exatamente, deveria apoiar o tornozelo. A pergunta pode soar arrogante até o primeiro quique da bola numa área em que convivem areia, lama, tinta verde e uma espécie vegetal ainda não catalogada pelo Ibama.
Ziyech não desconfiou do futebol brasileiro. Desconfiou do terreno onde ele é jogado.
Eis a parte constrangedora: ele tem razão.

O Brasil vende um campeonato milionário, contrata nomes internacionais, fecha acordos globais, ergue arenas modernas e produz transmissões com câmera até para registrar a conversa do gandula. Depois abre a cortina e oferece, em certos estádios, um gramado que parece ter recebido um rodeio, dois festivais sertanejos e uma convenção de tratores na mesma semana.
É como anunciar uma Ferrari e entregar a chave avisando que a estrada termina num brejo.
O desconforto de Ziyech não deveria ofender ninguém. Deveria envergonhar quem manda. Gramado ruim não é folclore, não é “dificuldade do futebol sul-americano” e muito menos prova de virilidade. É incompetência administrativa com uniforme de tradição. Prejudica o espetáculo, derruba o nível técnico e coloca o patrimônio dos clubes — os jogadores — em risco.
Há quem responda que craque precisa atuar em qualquer campo. Bonita frase. Serve para mesa-redonda, postagem de tio e discurso de dirigente que não pisaria de sapato social no mesmo gramado que oferece a um atleta. O futebol pode até exigir adaptação; não precisa exigir sobrevivência.
No caso do Botafogo, a discussão ganha urgência porque Ziyech não chegaria para fazer número. Chegaria para mudar o tipo de jogo que a equipe consegue propor.
A sequência recente explica por quê. Antes do empate sem gols com o Palmeiras, em 6 de setembro, o Botafogo havia levado 3 a 0 do Flamengo, perdido por 3 a 2 para o Athletico-PR e sido derrotado por 1 a 0 pelo Vitória. No meio disso, venceu o Cienciano por 1 a 0 pela Sul-Americana.
São cinco partidas, uma vitória, um empate e três derrotas. Apenas três gols marcados. Resultado não conta a história inteira, claro, mas também não é decoração de planilha. O time precisa de repertório, último passe e alguém capaz de tratar a bola como ferramenta de criação, não como encomenda urgente a ser despachada para a área.
Ziyech oferece justamente isso quando está inteiro e envolvido. Canhoto de passe vertical, visão para inverter o jogo e qualidade na bola parada, ele pode atuar aberto pela direita, flutuar por dentro e acelerar ataques que hoje correm o risco de ficar previsíveis. Não é apenas um ponta de drible. É um jogador que enxerga a jogada antes de ela pedir licença.
O Botafogo não precisa de uma celebridade. Precisa da canhota de Ziyech.
Também seria irresponsável vendê-lo como solução mágica. O marroquino terá de responder fisicamente, encontrar ritmo e compreender um campeonato de contato forte, viagens longas e pouco tempo para treino. Nome famoso não recompõe sozinho, não ganha segunda bola por decreto e não transforma calendário insano em spa. Esperar que ele resolva tudo seria como contratar um chef francês e pedir que também conserte o fogão, sirva as mesas e estacione os carros.
Mas há uma diferença entre não idealizar o reforço e minimizar seu potencial. Se estiver saudável, Ziyech eleva o teto técnico do Botafogo. Num futebol em que defesas baixas fecham o corredor central e partidas travadas são frequentes, um jogador capaz de decidir com um cruzamento, uma cobrança de falta ou um passe entre linhas vale mais do que a soma fria de seus números.
A derrota por 3 a 0 para o Flamengo, por exemplo, não deve ser tratada como acidente isolado dentro de uma sequência já desconfortável. O placar expôs a distância que aparece quando um rival consegue impor seu jogo e o Botafogo não encontra resposta suficiente.
É aí que a chegada de Ziyech faz sentido esportivo. Não como peça de marketing — embora naturalmente seja —, mas como tentativa de devolver invenção a um time que precisa sair do roteiro. Quando a jogada ensaiada falha e o adversário já entendeu a saída de bola, alguém tem de cometer uma pequena insolência. Um passe que não estava no manual. Uma finalização antes do bloqueio. Uma bola parada que provoque silêncio no estádio rival.
Craques, mesmo os que já não vivem o auge, servem para bagunçar certezas.
Só que o episódio do gramado deixa um aviso maior do que a contratação. O futebol brasileiro adora exigir respeito internacional enquanto tolera estruturas que seriam motivo de interdição em mercados muito menos ricos. Quer importar talento, mas às vezes oferece condições de exportação de banana no século passado.

Clubes, federações e administradores de estádios precisam parar de tratar o campo como detalhe cenográfico. O gramado é parte central do produto. Não existe jogo veloz sem piso regular. Não existe proteção ao atleta num terreno que solta placas. Não existe campeonato de elite quando cada rodada inclui uma loteria para descobrir se a bola vai rolar, quicar ou pedir um Uber.
Gramado ruim não nivela o jogo. Rebaixa todo mundo.
Se o temor de Ziyech quase travou o acordo, que ao menos produza algum constrangimento útil. A resposta correta do futebol brasileiro não é chamá-lo de fresco. É olhar para dentro, admitir o vexame e cuidar do próprio quintal.
O Botafogo pode ganhar um jogador raro para os padrões do campeonato. Ziyech, por sua vez, talvez descubra a intensidade, a paixão e a riqueza tática de um futebol muito melhor do que certos campos fazem parecer.
Antes disso, porém, alguém precisa garantir que a bola chegue até a canhota dele sem desaparecer num buraco.
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