Infantino tentou vender um pedaço da Copa — e a CBF precisa dizer de que lado está
O plano de vender 20% do braço comercial das Copas por US$ 4,2 bilhões põe a FIFA sob suspeita — e cobra da CBF uma resposta que já tarda.
28 de agosto de 2026

Gianni Infantino colocou na mesa uma ideia que deveria acionar todas as sirenes do futebol: vender 20% do braço comercial ligado às Copas do Mundo por US$ 4,2 bilhões. Não estamos falando de trocar o patrocinador da placa de publicidade ou licenciar mais um álbum de figurinhas. É uma fatia do negócio mais valioso que a FIFA administra — e que só existe porque seleções, jogadores, torcedores e 211 associações nacionais sustentam a Copa.
A UEFA percebeu o tamanho da encrenca e reagiu. Diante das dúvidas jurídicas sobre a operação, ameaçou recorrer à Justiça. A CBF, até agora, escolheu o método diplomático preferido de quem não quer desagradar ao chefe: silêncio, olhar para o teto e um assobio casual.
Só que as fichas brasileiras também estão nessa mesa.
A Copa do Mundo não é uma startup de Infantino em busca de rodada de investimento.
A conta, à primeira vista, impressiona. Se 20% valem US$ 4,2 bilhões, o ativo inteiro estaria avaliado em US$ 21 bilhões. Uma montanha de dinheiro. O tipo de número que faz dirigente abrir um sorriso mais rápido do que atacante quando vê o goleiro escorregar.
Mas uma avaliação vistosa não encerra discussão nenhuma. Ao contrário: começa várias.
Por quanto tempo o investidor teria direito às receitas? Quais competições entrariam no pacote? Haveria participação nas decisões comerciais? Acesso a contratos, projeções e dados estratégicos? Que garantias seriam dadas? E, sobretudo, quem autorizou Infantino a negociar um quinto de uma estrutura construída sobre um patrimônio coletivo?
Essas perguntas não são preciosismo de advogado. São o coração do assunto.

Dinheiro agora, receita comprometida depois
A defesa de uma operação assim é fácil de imaginar. A FIFA receberia uma bolada imediata, ganharia fôlego para investir, distribuir recursos às federações e expandir seus torneios. No PowerPoint, naturalmente, tudo deve aparecer com setinhas verdes apontando para cima. PowerPoint de dirigente nunca conhece rebaixamento.
O problema está no preço escondido da antecipação.
Ao vender participação em um braço comercial, a FIFA não recebe apenas capital. Ela também abre mão de parte dos ganhos futuros. Se a Copa continuar valorizando — e tudo indica que continuará —, o comprador poderá embolsar durante anos uma receita criada por um evento que pertence institucionalmente às associações filiadas.
É a velha tentação de transformar patrimônio recorrente em cheque imediato. Parece ótimo no dia da assinatura. Depois, quando chegam as próximas Copas e uma parcela do dinheiro toma outro caminho, ninguém encontra o responsável. O dirigente já mudou de cargo, o mandato terminou, a fotografia oficial amarelou e a conta ficou para quem veio depois.
Vender receita futura para engordar o caixa presente é uma jogada que merece VAR, auditoria e replay em câmera lenta.
Não significa que qualquer parceria com capital privado seja automaticamente ruim. Esse seria um argumento preguiçoso. Há operações legítimas, úteis e bem estruturadas no esporte. Mas elas exigem transparência, concorrência, avaliação independente e regras claras de governança.
No caso da FIFA, a exigência deve ser ainda maior. A entidade não é propriedade pessoal de seu presidente. Infantino foi eleito para administrá-la, não para agir como corretor exclusivo da Copa do Mundo.
A ameaça de reação judicial da UEFA mostra que a controvérsia ultrapassou o terreno político. Se existe dúvida sobre a competência para fechar o negócio, sobre a necessidade de aprovação das associações ou sobre o alcance dos direitos oferecidos, avançar sem esclarecimentos seria irresponsável. Primeiro se define quem pode vender. Depois se discute preço.
E a CBF vai continuar fingindo que não é com ela?
O Brasil não ocupa uma cadeira decorativa no futebol mundial. A CBF representa a seleção mais campeã da Copa, uma das maiores audiências do planeta e um mercado central para patrocinadores e emissoras. Quando a FIFA mexe no modelo econômico de seu principal torneio, a confederação brasileira tem obrigação de se manifestar.
Não basta acompanhar “com atenção”, aquela expressão oficial que serve para tudo e não compromete ninguém. A CBF precisa dizer se foi consultada, quais documentos recebeu, se apoia a venda e quais salvaguardas considera indispensáveis.
Mais: deve defender que os termos sejam apresentados às 211 associações antes de qualquer compromisso vinculante. Avaliação financeira, duração da parceria, direitos do investidor, critérios de distribuição dos US$ 4,2 bilhões e eventuais conflitos de interesse precisam sair da gaveta.
Quem representa o futebol brasileiro não pode terceirizar a própria opinião quando o patrimônio da Copa está em jogo.
A proximidade política entre dirigentes nacionais e a presidência da FIFA não pode valer mais do que o dever institucional. Apoiar Infantino em eleição é uma escolha. Entregar-lhe um cheque em branco é outra bem diferente.
Também seria conveniente ouvir os clubes, os atletas e as demais partes que alimentam esse ecossistema. A FIFA costuma falar em “família do futebol”, mas, na hora das decisões bilionárias, a reunião familiar parece acontecer numa sala fechada, com poucos parentes e uma senha na porta.
A CBF não precisa comprar uma guerra automática com Zurique. Precisa apenas fazer o que se espera de uma entidade minimamente séria: pedir informações, exigir votação adequada e tornar pública sua posição. Se considera a operação boa, que explique por quê. Se tem reservas, que as apresente. Se não conhece os detalhes, que admita — e cobre acesso a eles.
O que não cabe é permanecer sobre o muro enquanto outros discutem a propriedade econômica do maior espetáculo do futebol.
O verdadeiro risco não está apenas no preço
US$ 4,2 bilhões podem parecer uma proposta irrecusável. Não são. Todo preço pode ser recusado quando não se sabe exatamente o que está sendo vendido, por quanto tempo e com quais consequências.
Existe ainda uma questão política maior. Um investidor que compre 20% do braço comercial das Copas não será um patrocinador qualquer. Terá interesse direto em calendário, formato, mercados prioritários e crescimento de receitas. Mesmo que não receba poder formal sobre decisões esportivas, sua presença mudará a pressão em torno delas.
Mais jogos? Mais seleções? Novas competições? Horários adaptados a determinados mercados? A fronteira entre interesse comercial e decisão esportiva já é fina. Com um sócio privado sentado à mesa, pode ficar transparente.
E é justamente aí que a posição brasileira importa. A CBF deve defender que nenhuma operação reduza o controle coletivo das associações sobre a Copa nem transforme decisões esportivas em acessórios de uma planilha de retorno financeiro.
Infantino pode argumentar que está valorizando o produto. A UEFA pode levar o debate aos tribunais. Investidores podem calcular margens e projetar receitas. Tudo isso faz parte do jogo.
A CBF, porém, precisa escolher de que lado está: do patrimônio coletivo do futebol ou da conveniência política de não contrariar a FIFA.
Porque silêncio, neste caso, não é neutralidade. É consentimento sem assinatura.
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