Kike Olivera virou um ativo que ninguém consegue usar
O Bahia tem razão ao exigir compensação, mas isolar Kike só prolonga o prejuízo. É hora de cobrar a conta e encerrar um empréstimo que já morreu.
4 de agosto de 2026

O empréstimo de Kike Olivera ao Bahia já acabou no único lugar que realmente importa: o campo. Falta apenas alguém avisar ao contrato.
O atacante pertence ao Grêmio, está cedido ao Bahia e entrou no radar do Nacional, do Uruguai. A equação parece simples até os departamentos jurídicos se sentarem à mesa. O clube baiano não pretende abrir mão de graça de um jogador pelo qual assumiu compromisso esportivo e financeiro. O Nacional quer levá-lo. O Grêmio, dono dos direitos, precisa destravar o negócio. E Kike, enquanto isso, fica à margem.
Cada parte apresenta um argumento defensável. O problema é que, somados, esses argumentos produziram a pior solução possível para todos.
O Bahia está certo em cobrar. Está errado em deixar o prejuízo treinando sozinho.
A razão do Bahia — e o limite dela
Não existe obrigação moral de rasgar um empréstimo só porque apareceu outro interessado. O Bahia planejou elenco, reservou espaço, assumiu custos e recebeu garantias. Se o Nacional deseja interromper esse vínculo, deve existir compensação. Caso contrário, cria-se o precedente de que contrato de empréstimo vale até o primeiro telefonema mais sedutor.
Nesse ponto, a diretoria baiana tem razão.
Mas compensação é instrumento de negociação, não troféu para colocar na sala do presidente. Quando o jogador já não participa do projeto e passa a trabalhar separado, a postura firme começa a escorregar para a teimosia. A partir daí, o Bahia não protege um ativo: apenas administra sua desvalorização.

Kike virou uma espécie de carro de luxo sobre cavaletes. O documento está com o Grêmio, a chave ficou no Bahia, o Nacional tenta rebocá-lo — e o taxímetro segue rodando como se alguém estivesse a caminho do aeroporto.
O mais curioso é que o Bahia atravessa uma sequência competitiva no Campeonato Brasileiro. Depois de vencer a Chapecoense por 2 a 0, empatou com Atlético-MG e Corinthians por 1 a 1 e ficou no 0 a 0 diante do Fluminense. São quatro partidas sem derrota, embora os três empates consecutivos mostrem um time que tem encontrado mais controle do que contundência.
Serie A · 30 de jul. de 2026
Match Finished
Não se trata, portanto, de dizer que Kike resolveria sozinho o ataque. Esperar isso seria como pedir ao bandeirinha que conserte o VAR com uma chave de fenda. A questão é outra: se ele ainda está sob controle esportivo do Bahia, deve ser utilizado; se não está mais nos planos, o clube precisa transformar sua saída em dinheiro e encerrar o assunto.
O meio-termo atual não entrega gol, não entrega compensação e não preserva valor de mercado.
Jogador parado não é patrimônio protegido. É patrimônio vencendo no sol.
O Grêmio não pode assistir de camarote
O Grêmio é o dono dos direitos de Kike. Logo, não pode se comportar como um vizinho curioso acompanhando a discussão pela janela. É responsabilidade do clube gaúcho liderar uma solução que satisfaça minimamente o Bahia e permita ao jogador seguir a carreira.
Ainda mais porque o próprio Grêmio vive um momento em que deveria tratar cada ativo com cuidado. Nos cinco compromissos recentes listados, não venceu: perdeu para o Mirassol no Brasileiro, sofreu duas derrotas diante do Bolívar pela Sul-Americana, empatou com o Fluminense e voltou a ficar no 1 a 1 com o Mirassol, desta vez pela Copa do Brasil.
Copa Do Brasil · 2 de ago. de 2026
Match Finished
Isso não significa que Kike precise voltar imediatamente para vestir a camisa e ser anunciado como salvação. Futebol brasileiro já produziu messias de aeroporto suficientes para abastecer várias igrejas. Significa apenas que o Grêmio deve agir como proprietário do jogador, e não como espectador de uma queda de braço entre Bahia e Nacional.
Há espaço para uma composição objetiva. O Nacional pode compensar o Bahia pela interrupção. O Grêmio pode assumir parte desse custo para liberar um patrimônio que hoje não joga. A negociação também pode combinar valor fixo, economia salarial e metas esportivas. Não falta engenharia. Falta vontade de assinar a planta.
O que não dá é para cada clube defender apenas o próprio centímetro da mesa enquanto o jogador perde ritmo, exposição e valor.
E a responsabilidade de Kike?
Kike também não deve ser tratado como passageiro inocente de uma confusão criada exclusivamente pelos dirigentes. Contrato exige profissionalismo, e o desejo de mudar de clube não apaga obrigações. Se o atacante manifestou preferência pelo Nacional, cabe a ele e a seus representantes ajudar a construir uma saída, não apenas esperar que Bahia e Grêmio resolvam tudo.
Só que clube profissional não pode administrar patrimônio com ressentimento. Mesmo que o jogador tenha forçado o movimento, isolá-lo por tempo indeterminado é uma resposta emocional vestida de decisão administrativa. Dá sensação de autoridade por alguns dias e produz prejuízo por meses.
Punição que reduz o valor do próprio jogador é vingança paga em parcelas pelo clube.
O Bahia deve estabelecer um preço realista para abrir mão do restante do empréstimo e dar prazo curto para Nacional e Grêmio responderem. Se houver pagamento, encerra-se o vínculo. Se não houver, Kike precisa ser reintegrado e tratado como atleta do elenco enquanto o contrato estiver de pé. A pior alternativa é justamente a atual: nem negócio, nem futebol.
Não é necessário que os três clubes saiam comemorando. Negociação boa, muitas vezes, termina com todo mundo um pouco contrariado. O Bahia recebe pelo que está cedendo, o Grêmio recupera o controle sobre seu ativo, o Nacional fica com o jogador desejado e Kike volta a fazer aquilo que dá sentido a toda essa papelada: jogar bola.
O maior erro agora seria transformar uma cobrança legítima em concurso de resistência. O contrato pode até dar ao Bahia o direito de esperar. A lógica esportiva manda parar.
A conta precisa ser paga. O prejuízo não precisa continuar treinando todos os dias.
Matérias relacionadas

Minda salva a vaga, mas não absolve o ataque do Atlético
O gol aos 49 premiou a insistência e evitou os pênaltis, mas 179 minutos de seca contra o Juventude deixam um alerta que a classificação não apaga.

Fortaleza vendeu o mando — e talvez a própria chance de reagir
Por R$ 2,2 milhões, o Fortaleza levou a decisão contra o Palmeiras para Cuiabá. Após o 3 a 0, o caixa falou mais alto que a pressão do Castelão.

Santos passa de fase, mas os R$ 7 milhões já nasceram com nome de boleto
Neymar e Rony decidiram no Mangueirão, mas a premiação das copas servirá para cobrir atrasos. O Santos ganhou oxigênio — saúde financeira, não.