Líder, sim. Em crise, também: o Palmeiras perdeu o mapa antes do Paraguai
Abel tenta baixar a cobrança, mas quatro jogos sem vencer e outro apagão no fim expõem a verdade: liderança não vacina o Palmeiras contra a má fase.
15 de agosto de 2026

A tabela diz que o Palmeiras é líder. O campo, há quatro partidas, responde com uma gargalhada inconveniente.
A derrota por 3 a 2 para o Fluminense não pode ser tratada como um tropeço qualquer de quem ainda olha todo mundo pelo retrovisor. O time esteve à frente, recuperou a vantagem e, outra vez, deixou a partida escapar no fim. Saiu com as mãos vazias e uma pergunta pesada na bagagem para o Paraguai: em que momento o Palmeiras perdeu o controle que costumava ser sua marca registrada?
Abel Ferreira tenta usar a liderança para baixar a temperatura externa e proteger o elenco. Faz parte do trabalho. Técnico também é para-raios, sobretudo quando percebe que a cobrança ameaça entrar no vestiário antes dele. Mas tabela nenhuma revoga o que acontece dentro das quatro linhas.
A liderança é um retrato. A crise é o filme.
E o filme recente é ruim: derrota por 3 a 2 para o Fortaleza, empate sem gols com o Internacional, empate por 1 a 1 com o Cerro Porteño e agora novo 3 a 2, desta vez diante do Fluminense. Quatro jogos sem vitória, seis gols sofridos e uma alarmante dificuldade para encerrar partidas que pareciam encaminhadas.
Não é terra arrasada. É má fase — e das evidentes. Fingir que não existe porque o time continua na ponta seria como abrir um guarda-chuva de papel no meio de um temporal e reclamar da qualidade da chuva.

O problema não foi perder. Foi perder daquele jeito
Há derrotas que cabem no calendário. Uma viagem desgastante, um adversário inspirado, uma bola vadia, um goleiro em noite de santo. Acontece. O que não cabe é a repetição do descontrole.
Contra o Fluminense, o Palmeiras teve duas oportunidades de transformar vantagem no placar em autoridade. Não conseguiu. O time que durante anos fez o adversário sentir que um gol palmeirense pesava como dois agora transmite uma estranha vulnerabilidade. Faz o gol, mas não domina o ambiente. Passa à frente, porém continua oferecendo esperança.
E esperança, no futebol, é combustível de adversário.
Quem não mata o jogo acaba convidando o rival para o próprio velório.
O apagão final não nasceu apenas no lance do gol decisivo. Ele foi sendo construído antes, na perda de controle territorial, na incapacidade de esfriar a partida e na ansiedade que tomou conta de um time acostumado a administrar caos. O Palmeiras não soube escolher quando acelerar, quando prender a bola e quando simplesmente tornar o jogo feio. Sim, feio. Campeão também precisa saber colocar a partida no bolso e sentar em cima dela.
Desta vez, cada vantagem pareceu uma boia furada. O Palmeiras subia à superfície, respirava por alguns minutos e voltava a engolir água.

A fala de Abel protege, mas não explica
É compreensível que Abel rejeite o clima de desespero. Depois de tudo o que construiu, ele sabe como poucos que um campeonato longo não se decide por uma sequência de quatro partidas. Também conhece o apetite ao redor do Palmeiras: dois empates já viram turbulência; duas derrotas fazem alguém procurar o botão de ejeção.
Só que, desta vez, diminuir a cobrança não basta. O treinador precisa reconhecer internamente que a equipe perdeu referências importantes. Não necessariamente nomes — referências de comportamento. Falta serenidade para sustentar vantagens, agressividade para aproveitar o adversário exposto e lucidez para perceber quando o jogo mudou de lado.
O maior erro seria transformar a liderança em álibi.
Estar em primeiro não dá imunidade contra jogar mal.
A classificação mede o trabalho acumulado. O momento mede a saúde da equipe. É perfeitamente possível liderar e estar em crise técnica; uma coisa não cancela a outra. Aliás, os grandes times costumam perder títulos justamente quando confundem patrimônio com garantia.
O Palmeiras tem crédito, elenco competitivo e um treinador que já atravessou tempestades muito piores. Nenhum desses fatores, porém, entra em campo sozinho. Taça passada não marca lateral, currículo não fecha a entrada da área e confiança histórica não ganha dividida.
O Paraguai não aceita terapia em grupo
O empate por 1 a 1 com o Cerro Porteño, em casa, já havia deixado a eliminatória mais desconfortável do que precisava. Agora o Palmeiras terá de jogar no Paraguai carregando não apenas a obrigação continental, mas o peso de uma sequência que começou a mexer com a cabeça do time.
A Libertadores tem uma crueldade particular: ela percebe insegurança de longe. Um passe recuado com medo, uma bola parada mal defendida, cinco minutos de pressão da arquibancada — pronto, o estádio vira uma panela e o jogo começa a parecer maior do que realmente é.
Abel não precisa inventar uma revolução. Precisa devolver clareza ao Palmeiras. Compactar o time, reduzir o espaço entre os setores e, principalmente, recuperar a velha competência para entender os momentos da partida. Se abrir o placar, não pode recuar por reflexo. Se sofrer pressão, não pode responder com chutão e oração. E, se tiver a chance de liquidar, que liquide. A Libertadores não distribui prêmio por delicadeza.
O contraste com a vitória por 3 a 0 sobre o Fortaleza, antes do início da série negativa, é revelador. Naquele jogo, o Palmeiras foi contundente e resolveu o confronto. Poucos dias depois, perdeu por 3 a 2 para o mesmo adversário. Desde então, não venceu mais.
Não parece falta de capacidade. Parece perda de eixo. E isso torna a situação ao mesmo tempo mais corrigível e mais perigosa: corrigível porque o bom time ainda está ali; perigosa porque a sensação de que “uma hora volta ao normal” costuma prolongar crises que poderiam ser cortadas cedo.
No Paraguai, o Palmeiras não jogará apenas por uma vaga ou por tranquilidade. Jogará para reencontrar a própria identidade antes que a liderança do Brasileirão deixe de ser argumento e passe a ser lembrança.
O Palmeiras ainda ocupa o topo. O problema é que, nas últimas semanas, deixou de parecer dono dele.
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