Marcão não curou o Fluminense — só abriu a porta da cela
A virada por 3 a 2 sobre o líder Palmeiras não pede a efetivação de Marcão. Expõe quanto o Fluminense de Zubeldía havia desaprendido a competir.
15 de agosto de 2026

O Fluminense não virou o Palmeiras por 3 a 2 porque Marcão descobriu um novo jeito de jogar futebol. Virou porque, depois de semanas andando pelo campo com a resignação de quem espera atendimento em repartição pública, o time voltou a disputar uma partida como se o resultado tivesse consequências.
E tinha. Muitas.
Derrubar o líder do Campeonato Brasileiro, ainda por cima de virada, é daquelas noites que reorganizam o humor de um clube. O que não pode reorganizar é o planejamento. Marcão merece todos os abraços, os gritos no vestiário e o reconhecimento pela resposta imediata. Efetivação, não.
Marcão não construiu outro Fluminense. Apenas lembrou ao elenco que a porta estava destrancada.
A vitória escancara, antes de qualquer coisa, o tamanho do estrago deixado pelo trabalho de Luis Zubeldía. O Fluminense vinha de quatro jogos sem vencer: empate por 0 a 0 com o Vasco, derrota por 3 a 1 no reencontro pela Copa do Brasil, 1 a 1 no clássico com o Botafogo e outro 0 a 0, desta vez diante do Independiente Rivadavia, pela Libertadores.
Não era apenas uma sequência ruim. Sequências ruins acontecem até com times bem treinados. O problema estava no comportamento. O Fluminense havia perdido a capacidade de transformar incômodo em reação. Sofria e aceitava. Errava e encolhia. Entrava em partidas grandes com a energia emocional de quem já havia lido o próprio obituário.
Nos quatro jogos anteriores, marcou apenas dois gols. Contra o Palmeiras, fez três. Não houve tempo para Marcão promover uma revolução científica, instalar um sistema operacional novo ou revelar um tratado tático escondido numa gaveta das Laranjeiras. Houve tempo para remover peso, cobrar atitude e devolver alguma confiança.
Isso não é pouco. Mas também não é milagre.

A contribuição de Marcão foi justamente não tentar ser o protagonista da história. Ele conhece o clube, entende a temperatura da arquibancada e sabe que, em momentos assim, o jogador não precisa ouvir uma palestra com 84 slides sobre ocupação de espaço. Precisa saber onde está, por que está ali e o que não pode mais tolerar.
O Fluminense voltou a competir. A palavra parece banal, dessas usadas em entrevista coletiva quando ninguém quer explicar nada, mas aqui ela tem peso. Competir é permanecer dentro do jogo quando o roteiro ameaça desandar. É não confundir desvantagem com sentença. É fazer o adversário perceber que cada metro terá cobrança, contato e resposta.
A virada mais importante não foi a do placar. Foi a do estado de espírito.
Também convém olhar para o outro lado. O Palmeiras chegou ao Maracanã como líder, mas não exatamente em sua versão mais intimidante. Vinha de três partidas sem vitória: perdeu por 3 a 2 para o Fortaleza na Copa do Brasil, ficou no 0 a 0 com o Internacional e empatou por 1 a 1 com o Cerro Porteño pela Libertadores.
Isso reduz o feito tricolor? Nem um pouco. Líder cambaleando continua sendo líder — e cobra caro de quem oferece o pescoço. O mérito do Fluminense foi farejar a hesitação alviverde e não tratá-la com a delicadeza de um anfitrião. Em outros momentos, o time de Zubeldía talvez tivesse confundido respeito com medo. Desta vez, partiu para cima da oportunidade.
Há uma armadilha clássica rondando as Laranjeiras, porém. Ela aparece sempre que um interino querido vence uma partida grande: a emoção começa a redigir contrato. A diretoria ouve a torcida, vê o ambiente leve, calcula a economia e conclui que o provisório pode virar projeto. É uma tentação compreensível — e um erro conhecido.
Marcão já prestou serviços demais ao Fluminense para ser transformado novamente em solução improvisada de uma gestão sem convicção. Ele é o homem que atende quando o alarme dispara. Isso não significa que deva ser nomeado síndico, engenheiro e arquiteto do prédio.
Efetivar Marcão agora seria premiar a emergência e adiar o planejamento.
A vitória sobre o Palmeiras deve servir como diagnóstico, não como processo seletivo. Se em poucos dias foi possível recuperar agressividade emocional, então o elenco não estava morto, limitado ou incapaz. Estava bloqueado. Zubeldía não perdeu o emprego apenas pelos resultados; perdeu porque o time deixou de acreditar no que fazia — e, pior, parecia ter desaprendido a reagir.
Esse é o verdadeiro recado dos 3 a 2. O Fluminense possui mais futebol do que vinha mostrando. Tem elenco para se impor, para incomodar adversários fortes e para não atravessar clássicos e mata-matas como figurante de luxo. O desempenho sob o antigo treinador havia rebaixado a ambição coletiva a um nível inaceitável.
A conta é de Zubeldía. O crédito da resposta é de Marcão. E a responsabilidade pelo próximo passo pertence à diretoria.
Não se trata de diminuir o interino. Pelo contrário. A melhor maneira de respeitá-lo é não usar uma noite heroica como desculpa para abandonar a busca por um treinador capaz de dar continuidade, repertório e estabilidade ao time. Marcão abriu a porta da cela. Agora o Fluminense precisa sair dela sem entregar ao chaveiro a missão de construir a cidade inteira.
Porque o maior erro, depois de reencontrar a liberdade, seria confundir o homem que retirou o cadeado com o dono do caminho.
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