Mensagens sobre Vorcaro e Pixbet põem fiscalização de bets e SAFs contra a parede

Mensagens levantam suspeita sobre o controle da Pixbet e exigem respostas de Atlético-MG, Flamengo, Corinthians e Fazenda sobre diligência e fiscalização.

12 de setembro de 2026

Duas catracas quebradas de patrocínio e SAF deixam passar uma maleta marcada com um ponto de interrogação sobre o beneficiário final.

R$ 300 milhões.

Foi quanto Daniel Vorcaro investiu entre 2023 e 2024 para adquirir oficialmente 20,2% da SAF do Atlético-MG por meio do Galo Forte FIP. Não é dinheiro que passa despercebido nem quando o futebol brasileiro decide brincar de banco imobiliário com dinheiro de verdade. Agora, porém, a cifra ganhou outra moldura — e bem menos confortável.

Segundo reportagem do UOL, mensagens encontradas pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero indicam que Vorcaro, dono do extinto Banco Master, seria o proprietário de fato da Pixbet. Na conversa de 3 de outubro de 2024, o ex-escrivão da PF Marilson Roseno da Silva escreveu a um contato salvo como “Pk Caiava”: “É o Daniel Vorcaro, pô, que comprou 25% lá. É a SAF”. O percentual citado não bate com os 20,2% oficiais, mas a referência é inequívoca.

Há uma ressalva indispensável: essa propriedade ainda não foi confirmada judicialmente. Ernildo Júnior sempre foi apresentado formalmente como dono da Pixbet. A defesa de Vorcaro não comentou o caso, e o UOL não conseguiu contato com a assessoria da empresa. Presunção não é prova. Silêncio, entretanto, também não é explicação. O mérito de pôr a contradição na mesa é da PF e da reportagem do UOL; a culpa pelo escuro é de quem fiscalizou ou negociou sem provar que enxergou além do papel.

A suspeita não condena Vorcaro, mas coloca a fiscalização inteira no banco dos réus.

O artigo 7º da Lei nº 14.790/2023 proíbe o sócio ou acionista controlador de uma operadora de apostas de manter participação direta ou indireta em uma SAF ou organização esportiva profissional. Se Vorcaro realmente controlava a Pixbet enquanto integrava a estrutura atleticana, não estaríamos diante de fofoca de corredor: haveria uma possível colisão frontal com a Lei das Bets.

A Pixbet Soluções Tecnológicas aparece na lista do Ministério da Fazenda atualizada em 8 de setembro de 2026, responsável também por GanheiBet e Bet da Sorte, com autorização concedida pela Portaria SPA/MF nº 806, de abril de 2025. A Fazenda precisa dizer quais documentos examinou, como identificou o controlador e se investigou o beneficiário final. Em 2 de setembro, a Justiça da Paraíba havia determinado o bloqueio nacional das três plataformas e cobrado R$ 4,7 milhões por descumprimento de ordem ligada à proteção de crianças e adolescentes.

Funcionário carimba uma ficha da Pixbet enquanto um cadeado envolve placas da Pixbet, GanheiBet e Bet da Sorte.

O Atlético-MG também deve abrir a caixa-preta de sua diligência. Em maio de 2026, um aporte de R$ 530 milhões diluiu a fatia ligada a Vorcaro; os Menin chegaram a 83,5%, enquanto Galo Forte FIP, Ricardo Guimarães e FIGA ficaram com 6,5% somados. Isso alterou a fotografia societária, mas não apaga a pergunta sobre o filme: o que o clube verificou quando recebeu o investimento?

Flamengo e Corinthians não escapam. O conselho rubro-negro aprovou, por 136 votos a dois, uma ampliação contratual que poderia render cerca de R$ 470 milhões até 2027. A parceria terminou antecipadamente em agosto de 2025, após atrasos de parcelas, segundo o ge. Já o Corinthians foi patrocinado pela Pixbet até janeiro de 2024 e firmou acordo para pagar R$ 40,1 milhões à empresa, além de R$ 4 milhões em honorários, depois da ruptura.

Os dois clubes devem revelar quais verificações fizeram sobre quem estava por trás da patrocinadora nos respectivos períodos. Não são delegacias, claro. Mas quem associa sua camisa a uma casa de apostas e movimenta contratos desse tamanho tem obrigação de saber com quem negocia.

Dirigentes de Atlético-MG, Flamengo e Corinthians passam uma lupa ao redor de uma mesa com cartas sobre controle e diligência.

Uma diligência que para no nome da fachada é como VAR sem câmera: ocupa espaço, custa caro e não esclarece nada.

A camisa e a SAF não podem funcionar como duas catracas quebradas para o mesmo dinheiro entrar sem revista.