Na nova Série B, o terceiro lugar ganhou uma casca de banana
Só campeão e vice sobem direto; do terceiro ao sexto, 38 rodadas cabem em 180 minutos. O playoff vende emoção, mas cobra caro da justiça esportiva.
9 de agosto de 2026

A Série B resolveu trocar a calculadora pela roleta.
No novo formato, campeão e vice continuam recebendo o acesso que construíram ao longo de 38 rodadas. Até aí, nenhum susto. A casca de banana aparece logo atrás: terceiro, quarto, quinto e sexto colocados disputarão as outras duas vagas na Série A em playoffs.
Traduzindo para o idioma da arquibancada: você pode passar meses viajando pelo país, sobreviver a gramados ruins, desfalques, suspensões, troca de treinador, terça-feira chuvosa e atacante que desaprende a finalizar — e, no fim, colocar tudo em risco em dois jogos.
É emocionante? Claro que é.
Também é injusto.
O playoff não premia necessariamente o melhor time. Premia quem atravessa melhor uma tempestade de 180 minutos.
A defesa do modelo virá acompanhada de palavras bonitas. “Produto”. “Engajamento”. “Audiência”. “Decisão”. Não há pecado nisso. Futebol profissional precisa vender, gerar interesse e manter o campeonato vivo. O problema começa quando o interesse comercial passa a valer mais do que a própria competição.
Durante anos, o G-4 da Série B estabeleceu uma lógica cristalina: os quatro clubes mais regulares sobem. Não os mais famosos, não os que chegam mais embalados em novembro, não os que têm o atacante mais iluminado durante uma semana. Os quatro melhores ao longo do campeonato.
Com o playoff, o terceiro colocado poderá abrir uma diferença considerável para o sexto e, ainda assim, entrar no confronto sem vantagem proporcional ao que fez. Uma expulsão cedo, um pênalti duvidoso, uma bola desviada no zagueiro — pronto. A campanha inteira vira papel de embrulhar peixe.

E não, isso não significa que mata-mata seja uma aberração. Longe disso. Mata-mata é uma das grandes delícias do futebol. Ele cria heróis improváveis, vilões instantâneos e jogos que envelhecem melhor do que muito campeão por pontos corridos. O erro está em misturar critérios que medem coisas diferentes e fingir que o resultado continuará igualmente justo.
Pontos corridos medem regularidade. Playoffs medem sobrevivência.
São virtudes legítimas, mas não são a mesma virtude.
O terceiro lugar passa a ser quase uma derrota
A mudança também altera a psicologia do campeonato. Antes, terminar em terceiro significava festa, invasão de campo autorizada pela emoção e planejamento imediato para a Série A. Agora, o terceiro cruzará a linha de chegada ofegante apenas para ouvir que ainda precisa correr mais duas voltas.
Pior: dependendo da diferença construída durante a competição, a sensação poderá ser de punição. Imagine um terceiro colocado que passe praticamente todo o campeonato no G-4, faça campanha sólida e chegue à reta final com larga margem sobre o sexto. Seu adversário, por outro lado, pode entrar no playoff depois de uma arrancada tardia, beneficiado por uma troca de técnico ou por reforços que demoraram a encaixar.
Quando a bola rolar, os meses anteriores valerão pouco. O sexto não precisará recuperar no campo a distância acumulada na tabela. Bastará ganhar o duelo.
É como estudar o ano inteiro e descobrir, na porta da escola, que a aprovação será decidida num par ou ímpar com o colega que faltou às aulas.
Quem termina em terceiro depois de 38 rodadas não deveria pedir licença ao sexto para provar que merece subir.
Há quem diga que o novo sistema valorizará ainda mais as duas primeiras posições. Isso é verdade. A briga pelo acesso direto tende a ficar feroz, talvez até mais interessante do que era. Ninguém vai querer levar a temporada para esse corredor estreito, onde um detalhe tático ou uma noite ruim pode custar milhões.
Mas valorizar o primeiro e o segundo não exige desvalorizar o terceiro. O campeonato poderia oferecer vantagens esportivas reais a quem terminasse acima: benefício em caso de igualdade, mando decisivo, diferença mínima de pontos transformada em proteção competitiva. Algum mecanismo capaz de dizer que 38 rodadas aconteceram de verdade — e não foram apenas um trailer comprido para o filme que interessa à televisão.
Sem isso, a tabela corre o risco de virar decoração.
A Série B já é caótica sem ajuda
Também convém lembrar onde esse experimento será realizado. A Série B brasileira não é um laboratório esterilizado. É um campeonato de viagens continentais, pressão financeira, elencos curtos e calendários apertados. Há clubes convivendo com salários atrasados, departamentos médicos lotados e gramados que fazem a bola quicar como se tivesse recebido uma ligação urgente.
Nesse ambiente, uma lesão no momento errado tem peso gigantesco. Um clube pode montar o melhor sistema defensivo do torneio, sustentar desempenho por meses e chegar ao playoff sem seu principal zagueiro. O adversário, irregular durante boa parte do ano, aparece completo e embalado. Mérito de quem se preparou melhor para a decisão? Sim. Mas justiça em relação à campanha? Nem tanto.
A graça do mata-mata está justamente na sua crueldade. Só que crueldade funciona melhor em torneios concebidos para ela desde o início. Na Copa do Brasil, ninguém entra enganado. O objetivo é eliminar o rival. Na Série B, a essência sempre foi outra: somar pontos, sobreviver à maratona e terminar entre os melhores.
Mudar a recompensa no trecho final é colocar uma máquina de caça-níquel na saída de uma prova de resistência.

Para emissoras, patrocinadores e organizadores, o pacote é irresistível. Jogos decisivos, estádios cheios, narrativa pronta, tensão em alta. O sexto colocado vira uma espécie de azarão cinematográfico. O terceiro, mesmo superior durante o ano, assume o papel ingrato do sujeito que tem tudo a perder.
E o torcedor? Vai assistir. Evidentemente vai. Vai sofrer, xingar, fazer promessa, cancelar a promessa no intervalo e talvez comemorar um acesso inesquecível. O público consumir o espetáculo, porém, não prova que o regulamento seja bom. Torcedor também olha acidente na estrada; nem por isso alguém propõe colocar uma carreta atravessada na rodovia para melhorar a audiência.
Audiência mede interesse. Tabela mede mérito. Confundir as duas coisas é o atalho preferido de quem vende emoção em pacote premium.
Nem toda emoção precisa ser fabricada
A Série B nunca precisou de maquiagem para produzir drama. A disputa pelo acesso costuma chegar às rodadas finais com clubes tradicionais sob pressão, surpresas brigando acima do orçamento e uma coleção de contas sendo feitas em tempo real. Um gol em outro estádio muda posições, derruba treinador, salva planejamento e transforma rádio de pilha em equipamento médico.
Esse campeonato já tem suspense orgânico. Não é necessário apertar o botão do caos.
O maior erro do playoff é tratar a regularidade como uma etapa burocrática. Não é. Regularidade é a habilidade central de um campeonato longo. Saber pontuar fora, recuperar-se de derrota, administrar desgaste e vencer quando o futebol não aparece faz parte da grandeza de uma campanha.
O terceiro colocado não é um quase classificado. É um dos melhores times da competição.
Se a intenção é abrir espaço para decisões especiais, que o regulamento compense de maneira forte quem terminou acima. Melhor ainda seria preservar o acesso direto para os quatro primeiros e buscar emoção sem rifar a justiça esportiva. Há diversas maneiras de melhorar calendário, transmissão e experiência nos estádios sem transformar meses de trabalho em moeda lançada para o alto.
Porque é isso que acontecerá quando terceiro e sexto entrarem em campo sob condições quase equivalentes: não haverá apenas uma disputa por acesso, mas uma revisão apressada de toda a temporada.
O sexto terá a chance dos sonhos. O terceiro carregará o medo de uma injustiça anunciada.
Futebol adora uma zebra; o regulamento não precisa alimentá-la com ração especial.
No dia em que um clube fizer uma campanha brilhante, terminar confortavelmente em terceiro e perder o acesso após uma falha de arbitragem ou um chute desviado, os mesmos que venderam o playoff como modernidade chamarão o episódio de “drama do futebol”. Será drama, sem dúvida.
Mas não terá sido obra do acaso. Terá sido projeto.
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