Não é crise: derrota expõe o único defeito capaz de tirar o acesso direto do Criciúma
Líder e dono da melhor defesa, o Criciúma ainda marca como time de meio de tabela. A derrota para o Athletic acende o alerta antes que seja tarde.
10 de agosto de 2026

Não, o Criciúma não entrou em crise. Crise é palavra grande demais para um líder que havia somado dez dos 12 pontos anteriores e continua sustentado pela melhor defesa da Série B. Mas o 2 a 0 para o Athletic fez o favor — desagradável, porém necessário — de iluminar o problema que a tabela vinha escondendo: este time protege a própria área como candidato ao título e ataca como quem ainda procura vaga no meio da classificação.
A derrota em São João del-Rei não derruba o projeto, tampouco apaga o excelente trabalho até aqui. Ela apenas retira o papel de presente que envolvia uma deficiência antiga. O Criciúma marca pouco. E, numa competição em que o acesso direto premia quem consegue transformar equilíbrio em vitória, isso pode custar muito mais do que três pontos.
A melhor defesa da Série B mantém o Criciúma no topo. O ataque é que pode tirá-lo de lá.
O resultado ruim não veio sozinho
Antes de perder para o Athletic, o Tigre atravessava uma sequência que, vista de longe, parecia quase irretocável: venceu a Ponte Preta por 2 a 1, bateu o Vila Nova por 2 a 0, ganhou do Novorizontino por 1 a 0 e empatou sem gols com o Náutico. Foram dez pontos em quatro partidas, com apenas um gol sofrido.
Ninguém joga uma Série B inteira de cartola e bengala. Vencer por 1 a 0 fora de casa, fechar a casinha e administrar vantagem faz parte do currículo de qualquer candidato ao acesso. O problema aparece quando a margem mínima deixa de ser uma arma e vira dependência.
Nos cinco jogos mais recentes, incluindo a derrota para o Athletic, o Criciúma marcou cinco gols. Ficou sem balançar a rede em duas partidas consecutivas e, quando a defesa finalmente teve uma tarde menos segura, não encontrou resposta do outro lado do campo. Era o risco anunciado.
Contra o Náutico, o 0 a 0 ainda pôde ser tratado como tropeço administrável. Contra o Athletic, já não houve onde esconder a falta de contundência. Tomar um gol não deveria significar entrar num labirinto. Tomar dois, então, não pode equivaler a receber ordem de despejo.
Para o Criciúma, sair atrás no placar está virando uma emergência tática.
É esse o defeito capaz de empurrar o líder para fora das vagas diretas. Não a defesa. Não a organização. Muito menos uma suposta perda de comando. O perigo é precisar que o sistema defensivo jogue no limite todas as semanas porque o ataque oferece pouca gordura.

A defesa não pode trabalhar por dois
O Criciúma construiu sua liderança com uma virtude muito clara: concede pouco, compete em qualquer estádio e raramente se desmonta. Esse tipo de regularidade vale ouro na Série B, torneio em que uma bola parada costuma ter mais influência do que uma tarde inteira de posse bonita.
Só que há um ponto em que a eficiência defensiva vira álibi. Não dá para exigir que zagueiros, laterais, volantes e goleiro produzam uma atuação perfeita a cada rodada. Esperar isso é como contratar um chaveiro para vigiar a casa, consertar o telhado e ainda preparar o jantar. Uma hora a sopa queima.
A conta recente ajuda a explicar. Nas vitórias sobre Vila Nova e Novorizontino, o Tigre não sofreu gols. O ataque precisou fazer dois numa noite e apenas um na outra. Tudo bem. Contra a Ponte, os dois gols foram suficientes apesar do vazamento defensivo. Mas, nos dois compromissos seguintes, a produção ofensiva desapareceu: 0 a 0 com o Náutico e 0 a 2 diante do Athletic.
Não se trata de defender futebol irresponsável ou pedir que o time abandone o modelo que o levou à liderança. Seria uma bobagem. O maior erro agora seria confundir correção com revolução. O Criciúma não precisa desmontar a própria identidade; precisa acrescentar repertório a ela.
Mais presença na área, melhor ocupação do último terço, agressividade depois da recuperação da bola e alternativas quando o adversário fecha o corredor preferencial. Sobretudo, precisa parar de tratar cada gol como item de colecionador.
O Athletic mostrou por que o alerta é real
Também seria preguiçoso analisar o 2 a 0 como se o Criciúma tivesse perdido para um adversário em frangalhos. O Athletic chegou ao confronto invicto nos quatro jogos anteriores: empates com Ceará e Atlético-GO, vitória por 2 a 1 sobre o São Bernardo e empate por 1 a 1 com a Ponte Preta. Com o triunfo sobre o líder, ampliou a série sem derrota para cinco partidas.
É uma equipe que já vinha demonstrando capacidade para travar jogos, sobreviver a momentos de pressão e punir quem oferece espaço. O Criciúma encontrou, portanto, um adversário organizado e confiante. A questão incômoda é justamente essa: na briga pelo acesso, quase todo mundo que importa será organizado e confiante.
Não haverá sempre uma defesa vulnerável esperando o líder chegar. Não haverá sempre um gol cedo para permitir controle. E não haverá promoção automática por serviços prestados em julho.
A Série B não pune apenas quem joga mal; pune quem demora a corrigir o defeito que todo mundo já percebeu.
O Athletic não revelou um segredo guardado em cofre. Apenas colocou o problema em letras garrafais. Se o Criciúma não marca, o adversário sabe que basta sobreviver, alongar o jogo e esperar a ansiedade vestir a camisa amarela.
Eduardo Baptista precisa mexer — sem inventar moda
A responsabilidade agora cai sobre Eduardo Baptista. Com mérito. Foi o treinador quem deu ao Criciúma solidez, competitividade e a melhor defesa do campeonato. Justamente por isso, cabe a ele impedir que essas virtudes se transformem numa zona de conforto.
O ajuste deve ser ofensivo, mas não necessariamente nominal. A resposta fácil seria pedir contratação, trocar o centroavante ou empilhar atacantes. Pode até haver necessidade de reforço, claro, mas quantidade não garante presença. Às vezes, colocar mais um homem de frente só aumenta o número de pessoas assistindo à jogada de perto.
O time precisa criar mecanismos para chegar melhor, não apenas chegar mais. Aproximar os meias do atacante, acelerar a circulação quando recupera a posse e colocar mais gente atacando a segunda bola são caminhos mais úteis do que simplesmente cruzar até a área pedir música no Fantástico.
Também é hora de observar como a equipe reage emocionalmente quando o roteiro foge do previsto. Um líder não pode parecer confortável apenas enquanto o placar está zerado. O acesso direto será decidido, em boa parte, nas tardes em que a defesa falhar, o gramado atrapalhar e o adversário fizer o primeiro. É aí que se separa um time sólido de um time realmente pronto.

Ainda há margem. A liderança continua sendo patrimônio valioso, e dez pontos conquistados nos cinco jogos recentes estão longe de representar desmoronamento. Mas vantagem em Série B escorre depressa. Dois empates com cara de oportunidade perdida, uma derrota fora, e de repente o terceiro lugar deixa de ser ameaça abstrata para virar companhia de elevador.
O Criciúma já provou que sabe impedir o adversário de jogar. Agora precisa provar que consegue impor o próprio jogo quando a defesa, por um raro momento, não resolve tudo.
Quem quer subir direto não pode depender de vencer sempre sem sofrer gols.
A derrota para o Athletic não pede sirene, reunião emergencial nem caça às bruxas. Pede lucidez. O Tigre tem estrutura de acesso, pontuação de acesso e defesa de acesso. Falta um ataque que pare de viver de mesada e comece a pagar as próprias contas.
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