O Fortaleza arrancou a máscara do líder — agora o G-2 virou obrigação

O 2 a 0 no Heriberto Hülse expôs a queda do Criciúma e mudou a régua do Fortaleza: com o G-2 a quatro pontos, mirar os playoffs virou ambição pequena.

24 de agosto de 2026

O Fortaleza arrancou a máscara do líder — agora o G-2 virou obrigação

O placar diz 2 a 0. O estrago, porém, foi bem maior.

No Heriberto Hülse, o Fortaleza não apenas venceu o Criciúma: desmontou a pose de autoridade do líder, mostrou que a distância para os primeiros colocados é perfeitamente atacável e, de quebra, mudou o tamanho da própria ambição nesta Série B. Se antes o discurso cauteloso sobre “estar no grupo de acesso” ainda encontrava algum abrigo, agora virou conversa pequena.

O G-2 está a quatro pontos. Quatro. Não é um oceano, não exige telescópio, tampouco depende de uma combinação digna de loteria esportiva. É uma diferença que se busca com desempenho, coragem e uma sequência minimamente competente.

Quem vence o líder na casa dele perde o direito de pensar pequeno.

O líder estava de coroa, mas sem majestade

O Criciúma entrou na rodada carregando a posição de líder, mas seu futebol recente já vinha emitindo sinais bem menos nobres. Nos cinco jogos listados desde o fim de julho, somou apenas cinco pontos em 15 possíveis: empatou sem gols com o Náutico, perdeu por 2 a 0 para o Athletic Club, bateu o Goiás por 1 a 0, ficou no 1 a 1 com o Botafogo-SP e caiu diante do Fortaleza.

É pouco para quem pretende mandar no campeonato. Mais do que isso: é uma sequência que transforma liderança em fotografia antiga. Bonita para colocar na parede, inútil para explicar o presente.

O Fortaleza percebeu a rachadura e fez o que candidato sério precisa fazer: empurrou a porta. Não tratou o Heriberto Hülse como templo sagrado, nem o primeiro colocado como criatura mitológica. Respeitou o adversário sem prestar continência. Em uma Série B na qual tanta gente visita o líder já pensando no empate como prêmio, o Leão foi buscar algo maior.

E encontrou.

A tabela ainda chama o Criciúma de líder; o campo, desta vez, chamou de vulnerável.

O Fortaleza arrancou a máscara do líder — agora o G-2 virou obrigação

É importante não transformar uma vitória em conto de fadas. O Criciúma continua acima, tem campanha acumulada para sustentar sua posição e não desaprendeu a competir de uma hora para outra. Mas o 2 a 0 arrancou a máscara de invencibilidade simbólica que costuma acompanhar quem olha os demais do topo.

Líder também sangra. E, quando começa a tropeçar, a fila inteira sente o cheiro.

Os empates agora pesam de outro jeito

A atuação em Santa Catarina também obriga a reler os três jogos anteriores do Fortaleza na Série B. Foram empates com Cuiabá, Juventude e São Bernardo. O time não perdeu, o que tem seu valor, especialmente numa competição tão traiçoeira. Só que três pontos em três rodadas representam uma marcha lenta demais para quem agora enxerga o acesso direto logo adiante.

Contra o Cuiabá, 1 a 1. Diante do Juventude, 0 a 0. Depois, outro 1 a 1 com o São Bernardo. Resultados que isoladamente cabem no campeonato, mas que, colocados em fila, parecem três carros andando lado a lado a 40 km/h numa avenida vazia.

A vitória sobre o Criciúma impede que essa sequência ganhe cara de acomodação. Mais: prova que o Fortaleza possui capacidade para sair do modo econômico. O desafio agora é não voltar a ele justamente quando a tabela oferece uma chance concreta de salto.

Há ainda um detalhe que não pode passar batido. Antes desses compromissos pela Série B, o Fortaleza venceu o Palmeiras por 3 a 2 na Copa do Brasil. Não foi um lampejo isolado contra o líder, portanto. O time já havia mostrado que consegue elevar o nível diante de adversários de peso.

A questão incômoda é outra: por que essa agressividade competitiva aparece com tamanha nitidez nos grandes testes e nem sempre se repete nos jogos em que o Fortaleza precisa assumir o papel de protagonista?

Esse é o ponto que separa um candidato simpático de um promovido. Empolgar contra Palmeiras e Criciúma rende manchete, moral e peito estufado. O acesso, porém, também exige ganhar o jogo amarrado, furar o bloqueio do adversário modesto e sobreviver à noite em que a bola parece ter passado manteiga.

O acesso direto não será conquistado nas noites de gala, mas nos jogos em que ninguém aceita desculpa.

Playoff virou plano B — e olhe lá

Com o G-2 a quatro pontos, mirar apenas os playoffs seria uma espécie de covardia matemática. Claro que estar na zona de disputa do acesso é melhor do que passar a reta final fazendo conta para não cair. Mas o Fortaleza não pode se contentar com a roleta se o elevador está aberto a poucos passos.

O Fortaleza arrancou a máscara do líder — agora o G-2 virou obrigação

O playoff é sedutor para quem está longe. Para quem encostou, é risco desnecessário. Dois jogos ruins, uma expulsão, um desvio no zagueiro, um goleiro adversário incorporando o Lev Yashin por 90 minutos — e uma temporada inteira vira fumaça. Apostar voluntariamente nesse caminho quando o acesso direto está ao alcance seria como trocar um prato feito por um bilhete de bingo e ainda agradecer ao garçom.

Por isso, a régua mudou. Não basta permanecer por perto. Não basta comemorar invencibilidade feita de empates. Não basta dizer que o campeonato está embolado, essa frase-curinga usada por todo time que prefere não revelar a própria ambição.

O Fortaleza precisa atacar o G-2 agora.

Isso passa por transformar a vitória no Heriberto Hülse em padrão de exigência, não em peça de museu. O time mostrou força para derrubar o líder fora de casa. A partir daqui, cada ponto desperdiçado por excesso de cautela terá peso dobrado. Não porque o acesso esteja garantido — evidentemente não está —, mas porque a oportunidade ficou escancarada.

O maior erro seria tratar o 2 a 0 como bônus. Foi um aviso.

O Criciúma saiu de campo sabendo que sua vantagem já não intimida. O Fortaleza saiu sabendo que pode buscar muito mais do que uma vaga na fila da repescagem. E certas descobertas cobram atitude imediatamente.

Depois de arrancar a máscara do líder, o Leão não pode vestir a fantasia de coadjuvante outra vez.