O Brasil fez quatro gols. Agora não pode deixar essa geração no aeroporto

Goleada sobre a Tanzânia apresentou Evelin e uma geração promissora. O desafio real será garantir minutos, contratos e espaço após o Mundial Sub-20.

6 de setembro de 2026

O Brasil fez quatro gols. Agora não pode deixar essa geração no aeroporto

Quatro gols resolvem uma partida. Não resolvem uma carreira.

A goleada sobre a Tanzânia deixou uma sensação gostosa, dessas que fazem o torcedor procurar o próximo jogo antes mesmo de terminar o atual. O Brasil foi superior, encontrou espaços, atacou com fome e apresentou ao público um nome que merece ser guardado: Evelin.

Mais do que a atuação individual, porém, o que apareceu em campo foi uma geração com recurso técnico, coragem para jogar e uma relação saudável com a bola. Não houve aquele futebol juvenil engessado pelo medo de errar. Houve drible, aproximação, pressão e gente querendo decidir.

Ótimo. Maravilhoso. Agora vem a parte em que o futebol brasileiro costuma tropeçar no próprio cadarço.

O Brasil não tem dificuldade para revelar jogadoras. Tem dificuldade para não desperdiçá-las.

Evelin não pode virar lembrança de torneio

Evelin saiu da goleada como rosto de uma seleção que parece ter repertório. Sua presença ofensiva não foi apenas uma sucessão de lances bonitos: ela atacou espaços, participou do jogo e mostrou a personalidade que separa a promessa interessante da jogadora capaz de empurrar portas.

Só que nenhuma jovem deveria precisar arrombar sozinha a entrada do futebol profissional.

É tentador transformar uma boa atuação em profecia. A camisa pesa menos depois dos gols, o nome circula nas redes e imediatamente aparecem comparações, projeções e aquela velha ansiedade para descobrir “a próxima craque”. Convém baixar um pouco a bola — não para diminuir Evelin, mas para protegê-la da preguiça coletiva.

Quando uma jovem se destaca, o sistema costuma jogar toda a responsabilidade em seu colo. Se ela vingar, dizem que era diferente. Se desaparecer, concluem que “não confirmou”. Quase nunca perguntam quantos minutos recebeu, em que posição foi usada, qual estrutura encontrou ou se teve um calendário minimamente digno.

Talento abre a porta. Minutos em campo impedem que ela se feche.

O Brasil fez quatro gols. Agora não pode deixar essa geração no aeroporto

A atuação de Evelin precisa servir como começo de conversa, não como ponto final embalado em vídeo de melhores momentos. Ela e as companheiras terão de atravessar a catraca mais cruel do futebol feminino brasileiro: a passagem da base para o time principal.

É ali que muitas trajetórias emperram. A jogadora deixa de ser tratada como joia da categoria e passa a disputar espaço com atletas mais experientes, elencos curtos, treinadores pressionados e clubes que ainda planejam o futebol feminino como quem organiza churrasco em cima da hora — primeiro confirma a carne, depois pergunta se alguém comprou carvão.

A goleada mostrou mais do que o placar

Contra a Tanzânia, o Brasil teve o mérito de levar a sério uma partida em que a superioridade poderia convidar ao relaxamento. Seleções jovens também precisam aprender a esmagar quando encontram vantagem. Administrar cedo demais é um vício que costuma cobrar juros em jogos grandes.

Os quatro gols importam porque traduzem volume e eficiência. Mas o sinal mais animador foi outro: havia jogadoras se oferecendo para receber, acelerando a circulação e buscando soluções em vez de apenas obedecer ao desenho tático. Em categorias de base, esse atrevimento vale ouro.

Não se forma uma grande seleção adulta ensinando meninas a jogar com o freio de mão puxado.

O Mundial Sub-20 é uma vitrine poderosa justamente porque encurta distâncias. Em poucas semanas, uma atleta pode sair do anonimato para o radar de clubes, empresários e torcedores. O problema é que vitrine não é emprego. A luz apaga, o torneio termina e cada jogadora volta para uma realidade diferente — algumas com estrutura profissional, outras para bancos de reserva intermináveis, contratos frágeis ou equipes sem calendário suficiente.

Eis o verdadeiro adversário desta geração. Não é a Tanzânia, nem qualquer seleção que apareça pela frente. É o vazio depois do desembarque.

O Brasil fez quatro gols. Agora não pode deixar essa geração no aeroporto

O aeroporto é onde o discurso precisa acabar

A CBF gosta de celebrar campanhas de base, e os clubes adoram publicar fotos de convocadas. Faz parte. Convocação rende engajamento, orgulho institucional e legenda com emoji de bandeira. Mas a conta séria vem depois.

Quantas dessas jogadoras terão sequência no profissional? Quantas entrarão em campo quando o resultado estiver apertado, e não apenas aos 42 minutos de uma partida resolvida? Quantas receberão contratos que permitam tratar o futebol como profissão, em vez de aposta de curto prazo?

Essa é a régua.

Não existe projeto de base quando o prêmio por jogar bem é voltar para o fim da fila.

Os clubes precisam criar planos individuais para as atletas que retornarem do Mundial. Se houver espaço imediato, que joguem. Se não houver, empréstimos devem ser construídos com critério, para equipes que realmente pretendam utilizá-las. Emprestar apenas para tirar um nome da folha é terceirizar o abandono.

Também será necessário aceitar o erro. Jogadora jovem erra passe, perde duelo, toma decisão ruim. Acontece. O futebol masculino convive há décadas com promessas que recebem dez, quinze, vinte oportunidades antes de engrenar. No feminino, muitas vezes, uma partida abaixo já vira argumento para devolver a menina ao banco.

Não há formação sem paciência competitiva. E paciência competitiva não significa paternalismo; significa cobrar, corrigir e escalar de novo.

A responsabilidade não é de Evelin

É claro que Evelin terá de trabalhar, evoluir e responder às exigências que virão. O nível sobe, os espaços diminuem e as defensoras não costumam enviar convite antes de chegar firme. Faz parte do caminho.

Mas o maior erro seria transformar sua boa aparição em uma cobrança individual desproporcional. Ela não precisa salvar o futebol feminino brasileiro. Precisa jogar. Precisa de treino qualificado, contrato, confiança e uma sequência que não dependa de milagre ou goleada.

O mesmo vale para toda a geração que mostrou sua cara diante da Tanzânia. Algumas chegarão mais rápido ao alto nível. Outras precisarão de tempo. Nem todas se tornarão titulares da seleção principal — isso é normal em qualquer país. O inaceitável é perder jogadoras não por falta de futebol, mas por falta de caminho.

O futuro da seleção não será decidido apenas nos grandes jogos. Será decidido na escalação de uma terça-feira comum.

A vitória apresentou possibilidades. Evelin deu ao torcedor um nome, os quatro gols deram assunto e a geração deu motivos para acreditar. Agora dirigentes e clubes terão de provar que assistiram à mesma partida.

Porque medalha na base é bonita, foto no desembarque rende sorriso e discurso sobre renovação fica ótimo diante dos microfones. Mas a verdadeira homenagem a uma geração promissora não acontece no aeroporto.

Acontece quando ela volta para casa e encontra a porta aberta.