O Fluminense colocou Zubeldía em campo como técnico descartável
Pressionado e sem proteção, Zubeldía encara Botafogo e Libertadores em três dias. O problema não é apenas o técnico: é a indecisão de quem manda.
8 de agosto de 2026

A diretoria do Fluminense já começou a demitir Luis Zubeldía sem ter coragem de demiti-lo.
Não houve anúncio, nota oficial ou aquela fotografia protocolar de despedida no CT. O método foi mais perverso: deixaram o treinador atravessar sozinho uma sequência capaz de engolir qualquer trabalho, cercado por dúvidas públicas e sem uma palavra firme de proteção. Agora, Botafogo e Libertadores aparecem no intervalo de três dias, como se o calendário tivesse sido contratado para integrar a comissão de crise.
Treinador sem respaldo não comanda: sobrevive.
É essa a situação de Zubeldía. Ele está no cargo, mas tratado como interino de si mesmo. Cada entrevista vira prova oral, cada escalação parece plebiscito e cada resultado pode ser interpretado como sentença. Enquanto isso, quem manda no clube observa de longe, com a serenidade de quem acendeu o fósforo e depois foi procurar onde fica o extintor.

A derrota por 3 a 1 para o Vasco, depois do empate sem gols no primeiro encontro pela Copa do Brasil, não criou a crise. Apenas retirou o pano que tentava escondê-la.
Antes disso, o Fluminense já havia empatado com RB Bragantino, Grêmio e Bahia pelo Campeonato Brasileiro. Na sequência, ficou no 0 a 0 com o Vasco e perdeu o duelo seguinte. São cinco partidas sem vitória, com apenas três gols marcados. Não é um tropeço isolado. É um time que desaprendeu a transformar posse, esforço e intenção em autoridade.
Os números não absolvem Zubeldía. O Fluminense tem produzido pouco, ameaça menos do que deveria e passa tempo demais negociando com o jogo em vez de dominá-lo. Há momentos em que a equipe parece esperar uma autorização por escrito para acelerar. A bola circula, volta, muda de lado e termina sem ferir ninguém — um ataque com a agressividade de fila de banco em dia de chuva.
O treinador, portanto, tem responsabilidade. Muita. O que ele não pode receber é a culpa inteira por um ambiente montado para tornar seu trabalho provisório.
A indecisão virou política de futebol
Se a direção acredita que Zubeldía perdeu o grupo, esgotou suas soluções ou já não consegue fazer o time competir, deve demiti-lo. É uma decisão dura, cara e sujeita a críticas, mas ao menos é uma decisão.
Se ainda acredita no treinador, precisa protegê-lo de maneira inequívoca, cobrar o elenco e sustentar o trabalho além do próximo placar. Não adianta oferecer respaldo com prazo de validade menor que iogurte aberto.
O que não existe é a terceira via adotada pelo Fluminense: manter Zubeldía no banco enquanto espalha a sensação de que ele pode cair a qualquer momento. Isso enfraquece o comandante diante dos jogadores, alimenta a ansiedade da arquibancada e transforma cada partida num julgamento improvisado.
O maior erro do Fluminense não é bancar Zubeldía nem demiti-lo. É fingir que ainda não precisa escolher.
Esse limbo também contamina o campo. Jogador percebe quando o técnico está por um fio. Empresário percebe. Funcionário percebe. A torcida, evidentemente, percebe antes de todo mundo. E, quando a autoridade do treinador passa a depender do gol que pode sair aos 47 minutos, o vestiário começa a funcionar com uma hierarquia paralela.
Não significa que os atletas deixem de correr deliberadamente ou que exista uma conspiração de novela. Futebol profissional é mais sutil — e mais cruel. Uma orientação passa a ser discutida por tempo demais. Uma cobrança perde força. Um reserva descontente decide esperar. O compromisso coletivo vai ganhando pequenas rachaduras até que a parede inteira pareça culpada pela infiltração.
O 0 a 0 com o Vasco já havia mostrado um Fluminense sem punch, incapaz de assumir o confronto como deveria. O 3 a 1 posterior foi a cobrança com juros.
Botafogo e Libertadores não são audiência de conciliação
É nesse estado que Zubeldía chega ao clássico com o Botafogo e, logo depois, a um compromisso de Libertadores. Três dias para encarar duas partidas de peso emocional gigantesco. Não há espaço para laboratório, discurso abstrato ou promessa de evolução gradual. O treinador precisa entregar resposta imediata com um time que vem acumulando empates e insegurança.
Só que exigir reação é diferente de usar dois jogos como roleta russa administrativa.
O clássico demanda intensidade, concentração e coragem para jogar. A Libertadores cobra tudo isso com uma camada extra de tensão, porque a competição transforma qualquer erro de saída de bola em trauma continental. Se o Fluminense entrar nesses compromissos preocupado em salvar o emprego do técnico, já começará pensando no assunto errado.
Time grande não pode disputar clássico carregando uma urna de votação nas costas.
O elenco precisa jogar pelo Fluminense, não pela permanência de Zubeldía. E isso só acontecerá se a diretoria tirar o futuro do treinador do terreno da especulação. A cobrança interna pode — e deve — ser pesada. Publicamente, porém, o clube necessita de uma linha clara.
O pior cenário seria uma vitória sobre o Botafogo servir como salvo-conduto temporário e, três dias depois, um revés na Libertadores reabrir a execução. Isso não é avaliação de trabalho. É direção por impulso, aquela modalidade em que a convicção dura até o próximo escanteio.
Um clube não precisa prometer eternidade a treinador algum. Precisa apenas ter critérios que sobrevivam a 90 minutos.
Zubeldía também precisa parar de esperar proteção
Há, naturalmente, uma parte da resposta que pertence ao próprio argentino. Se a diretoria o deixou exposto, ele não pode reagir com um Fluminense tímido. A sequência pede escolhas fortes, mesmo que impopulares. Nome não pode jogar por currículo. Hierarquia não pode ser escudo para baixa intensidade. E cautela, neste momento, seria apenas outro nome para medo.
Zubeldía precisa simplificar o time, recuperar agressividade e encontrar mecanismos para que a equipe chegue à área com mais gente. Três gols em cinco partidas não são acidente estatístico; são o retrato de um ataque que perdeu espontaneidade e contundência. Contra adversários desse tamanho, controlar a bola sem produzir perigo será como levar guarda-chuva para enfrentar enchente: dá alguma sensação de preparo, mas não resolve o problema.
A resposta que pode salvá-lo não virá de uma entrevista eloquente. Virá de um Fluminense reconhecível, competitivo e disposto a incomodar. Mesmo assim, uma atuação convincente não deveria substituir a obrigação da diretoria de decidir com base no trabalho completo.

Zubeldía foi colocado à beira do campo como um técnico descartável: útil enquanto o resultado ajuda, inconveniente quando o placar aperta. É confortável para os dirigentes, porque preserva todas as saídas. Se vencer, dizem que confiaram. Se perder, afirmam que a troca era inevitável.
Não era inevitável. Foi construída.
Quem terceiriza a convicção para o placar acaba dirigido pelo acaso.
O Fluminense precisa escolher antes que Botafogo e Libertadores escolham por ele. Bancar Zubeldía ou encerrar o trabalho são decisões defensáveis. Continuar empurrando o treinador para o gramado com a etiqueta de descartável é que não é planejamento — é covardia vestida com agasalho de dirigente.
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