O Gre-Nal pode salvar a Copa. Não pode absolver quem afundou o Inter
Com 25 pontos, nove rodadas sem vencer e contas atrasadas, o Inter precisa de mais que eliminar o Grêmio: precisa cobrar a direção que fabricou a crise.
1 de setembro de 2026

Se o Inter eliminar o Grêmio, haverá festa. E tem de haver. Gre-Nal não se vence pedindo desculpas pela tabela do Brasileirão, muito menos apresentando o extrato bancário do clube. Mata-mata contra o maior rival é sobrevivência, orgulho e, neste caso, uma rara oportunidade de respirar sem que o noticiário pareça um boletim de emergência.
Mas convém combinar uma coisa antes de a bola rolar: classificação não é anistia.
O Gre-Nal pode salvar a Copa do Inter. Não pode limpar as digitais de quem fabricou a crise.
O 0 a 0 do primeiro confronto deixou a eliminatória completamente aberta. Não houve vantagem, não houve sentença e tampouco apareceu um Inter capaz de convencer seu torcedor de que a maré virou. Houve, no máximo, uma pausa na aflição.
A realidade reapareceu três dias depois, sem a menor delicadeza, na derrota por 3 a 2 para o Bahia. O Inter marcou duas vezes fora de casa e, ainda assim, voltou sem ponto. Quando uma equipe em crise finalmente encontra o gol, mas continua incapaz de controlar uma partida, o problema já deixou de ser apenas técnico. É confiança quebrada, elenco mal montado, ambiente deteriorado e uma direção que passou tempo demais tratando consequência como causa.
Antes do Bahia, o Colorado havia empatado com Palmeiras, Remo e Atlético-MG. Três resultados iguais no placar, mas diferentes no incômodo: segurar o Palmeiras fora pode ser um ponto útil; tropeçar diante do Remo em casa tem outro peso; repetir o 0 a 0 contra o Atlético-MG aumentou a sensação de paralisia. Agora são nove rodadas sem vitória e apenas 25 pontos.
Nove jogos sem vencer não são uma fase ruim. São um pedido de socorro.
Pezzolano recebeu o volante de um carro sem motor
Naturalmente, os olhos se voltam para Paulo Pezzolano. É o treinador quem escala, troca, organiza — ou não organiza — o time. Não está acima da crítica. O Inter ainda joga com ansiedade demais, oferece espaços demais e produz menos do que deveria para quem carrega a camisa colorada. Em certos momentos, parece que cada ataque precisa atravessar uma repartição pública, pegar três carimbos e aguardar quinze dias úteis.
Só que transformar Pezzolano no grande culpado seria conveniente demais.
O técnico recebeu um elenco desequilibrado, uma tabela sufocante e a missão de alcançar um rendimento incompatível com a bagunça entregue pela própria direção. É como mandar alguém disputar a Volta da França numa bicicleta ergométrica e depois reclamar que ele não saiu da sala.

Se o trabalho não responder, a cobrança esportiva é legítima. O que não se pode aceitar é o velho truque cartola de apontar para o banco enquanto esconde o manual de montagem do elenco. Quem contratou? Quem planejou? Quem permitiu que a temporada chegasse a este ponto? Quem deixou contas atrasarem justamente quando o time mais precisava de estabilidade?
A resposta não usa agasalho na área técnica.
Treinador pode errar a escalação. Quem errou a temporada foi a direção.
O maior pecado dos dirigentes não foi uma decisão isolada. Foi o conjunto da obra. O Inter entrou no ano sem margem para improviso e improvisou. Precisava de um elenco confiável e montou um grupo vulnerável. Necessitava de comando político e entregou ruído. Agora tenta vender o Gre-Nal como portal para um novo campeonato, quando ele é, na verdade, uma boia lançada no meio do temporal.
A classificação teria valor enorme, claro. Avançar na Copa do Brasil significa dinheiro, calendário relevante e uma injeção emocional que nenhum discurso de vestiário consegue reproduzir. Eliminar o Grêmio seria ainda mais poderoso porque o rival chega reanimado pela vitória por 3 a 1 sobre a Chapecoense, depois de derrotas para Red Bull Bragantino e Atlético-MG. Também está longe de ser uma máquina. É um time irregular, ferido e perfeitamente batível.
É justamente por isso que o Inter precisa jogar o clássico sem a postura de quem pede licença. O empate do primeiro jogo não obriga loucura, mas exige personalidade. Em uma temporada cheia de atletas escondendo-se atrás do passe lateral, chegou a hora de alguém assumir o risco. Gre-Nal não costuma premiar beleza plástica; costuma premiar quem entende o tamanho da noite.
A Copa não congela o Brasileirão
O perigo mora no dia seguinte. Se vier a vaga, surgirão discursos sobre retomada, união e virada de chave. O departamento de metáforas dos clubes brasileiros funciona melhor que muito meio-campo. A direção tentará transformar a classificação em prova de que o plano sempre esteve sob controle.
Não esteve.
O Inter continuará com 25 pontos. Continuará sem vencer há nove rodadas na Série A. Continuará pressionado por uma campanha que o empurrou para uma briga indigna do investimento, da torcida e do tamanho do clube. E continuará obrigado a resolver os atrasos que corroem o cotidiano, porque boleto não se intimida com carrinho na bandeirinha.

Na sequência do campeonato aparece o Santos, que acaba de vencer o Corinthians fora de casa. O mesmo Santos havia levado 3 a 0 do Palmeiras pela Copa do Brasil poucos dias antes — um lembrete bastante útil de que mata-mata e pontos corridos contam histórias diferentes. Uma noite heroica não vacina ninguém contra a próxima rodada.
O Brasileirão pune quem vive de eventos. Para sair do buraco, o Inter precisará de rotina: defender melhor, competir durante 90 minutos, parar de desperdiçar períodos inteiros das partidas e transformar empates burocráticos em vitórias. Não há clássico suficiente no calendário para substituir esse trabalho.
A vaga pode mudar o humor do Beira-Rio. Só a responsabilidade muda o destino do clube.
Por isso, a torcida colorada não precisa escolher entre apoiar o time no Gre-Nal e cobrar a direção. Deve fazer as duas coisas — com a mesma força. Empurrar o Inter contra o Grêmio não significa esquecer o Bahia, os nove jogos sem vitória, os 25 pontos ou as contas atrasadas. Significa entender que a camisa precisa sobreviver aos erros de quem a administra.
Se eliminar o rival, o Inter terá conquistado uma noite para guardar. Pezzolano ganhará fôlego, os jogadores recuperarão um pouco da confiança e o clube seguirá vivo numa competição capaz de aliviar caixa e alma.
Os dirigentes, porém, não devem ganhar salvo-conduto.
Que comemorem a vaga, se ela vier. Depois, podem voltar para a mesa e explicar como conseguiram transformar uma temporada de ambição em uma operação de resgate. Porque o Gre-Nal pode até tirar o Inter da Copa dos desesperados por uma noite.
Da responsabilidade, ninguém passa nos pênaltis.
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