Sonda promete R$ 20 milhões, e o Inter chama colapso de união

Com dívida de R$ 925,6 milhões, o Inter festeja a promessa de R$ 20 milhões de um credor histórico. O gesto é nobre; a dependência condena a gestão.

12 de setembro de 2026

Delcir Sonda usa um cheque de R$ 20 milhões como extintor, ao lado de Alessandro Barcellos e de contas atribuídas ao Internacional.

Como é que o Inter chegou ao ponto de precisar da promessa de um credor para colocar em dia compromissos salariais? Essa pergunta já escapou da arquibancada e foi parar no balcão do bar — geralmente acompanhada de outra, menos publicável.

A autópsia começa pelo tamanho do estrago. A dívida do Internacional alcançou R$ 925,6 milhões no fim de maio, segundo o Conselho Fiscal, que recomendou à direção estudar formalmente um pedido de recuperação judicial. Dentro de campo, o paciente também inspira cuidados: antes da 27ª rodada, o Colorado era o 18º colocado do Brasileirão, com 25 pontos em 26 jogos.

São dez partidas sem vitória na competição, com seis derrotas e quatro empates desde o triunfo sobre o Vasco, em 16 de maio. Na sequência recente, houve empates sem gols contra Atlético-MG e Grêmio, além de derrotas para Bahia, Grêmio — pela Copa do Brasil — e Santos.

É nesse cenário que surge Delcir Sonda com a promessa de doar R$ 20 milhões. O gesto pessoal é extraordinário e merece reconhecimento sem cinismo. Não é todo dia que alguém se dispõe a colocar uma quantia dessas no clube. O problema começa quando o Inter apresenta o socorro como demonstração de “generosidade, compromisso e amor”, mas não explica o básico: quando o dinheiro entra, se há condições envolvidas e como o valor será utilizado e fiscalizado.

A nota oficial publicada em 11 de setembro informou que o clube recebeu, por intermédio do conselheiro Roberto Melo, a notícia da doação. Não confirmou que os R$ 20 milhões já estavam na conta. Melo, pré-candidato à presidência colorada, afirmou que o recurso serviria para regularizar compromissos salariais com jogadores e funcionários.

Doação é favor. Salário é obrigação.

Primeira incisão, portanto: o Inter celebrou uma promessa antes de apresentar o comprovante. Pode parecer detalhe, mas clube mergulhado em crise financeira não tem o direito de trabalhar com fumaça. Precisa de datas, documentos e prestação de contas. Fé é ótima para o domingo de futebol; para fluxo de caixa, costuma marcar mal.

A segunda incisão revela a proporção real do alívio. Os R$ 20 milhões equivalem a apenas 2,16% da dívida apontada pelo Conselho Fiscal. Também representam aproximadamente um mês do custo atual do futebol: entre janeiro e março de 2026, o Inter gastou R$ 62.090.928 no departamento, média mensal de R$ 20.696.976 — acima dos R$ 19.683.659 mensais registrados no primeiro trimestre de 2025.

Ou seja: Sonda oferece oxigênio para algumas semanas, não uma cura. É como tentar salvar um transatlântico com uma boia de piscina. A boia ajuda quem está se afogando, claro, mas seria prudente perguntar por que o comandante continua apontando o navio para o iceberg.

Navio do Internacional afunda com uma âncora de R$ 925,6 milhões enquanto recebe uma boia de R$ 20 milhões.

R$ 20 milhões apagam o incêndio do mês; não reformam quem deixou o Beira-Rio pegar fogo.

A terceira incisão é ainda mais constrangedora. Delcir Sonda não aparece agora como um benfeitor desconhecido. Dono da rede de supermercados Sonda, investidor da DIS Esportes e parceiro histórico do Inter em empréstimos e contratações, ele também está ligado a empresas que cobram cerca de R$ 60 milhões do clube em quatro processos judiciais. O Inter contesta o cálculo e estima a dívida total em aproximadamente R$ 32,7 milhões.

Duas cobranças envolvem direitos relacionados a Andrés D’Alessandro; as outras se referem a empréstimos originais de R$ 2 milhões e R$ 10 milhões concedidos a antigas diretorias. Em decisão de 30 de julho, a Justiça determinou o bloqueio de R$ 11.584.133,60 das contas coloradas numa ação movida pela DSPLAN, empresa de Sonda.

Nada disso diminui a doação anunciada. Pelo contrário: torna o gesto pessoal ainda mais relevante. Mas escancara a dependência crônica do Inter em relação a um credor histórico. O clube deve, litiga, sofre bloqueio judicial e depois comemora quando o mesmo personagem estende a mão. Isso não é modelo de gestão. É sobrevivência por relacionamento.

Há também a marca eleitoral. Roberto Melo é pré-candidato à presidência e foi o intermediário do anúncio. Portanto, goste-se ou não, o socorro financeiro já nasceu como fato político. Em ano de disputa pelo comando do clube, uma corda de resgate de R$ 20 milhões inevitavelmente vem com um santinho amarrado na ponta.

Quando um pré-candidato intermedeia o dinheiro que paga salários, a crise deixa de ser apenas contábil e entra em campanha.

A gestão de Alessandro Barcellos diz que analisou a recuperação judicial, mas não a considera necessária agora. A receita apresentada é renegociar e alongar dívidas, administrar o caixa, captar recursos, aumentar receitas e adequar despesas. No papel, impecável. Também no papel, o Conselho Fiscal registrou movimentação de R$ 2,43 milhões em três cartões corporativos entre janeiro e maio, incluindo cerca de R$ 1,4 milhão em hospedagem, R$ 539,9 mil em alimentação em Porto Alegre e R$ 194,2 mil pagos à CBF.

O laudo, então, está fechado. O culpado não é Delcir Sonda, que merece agradecimento. Não é Roberto Melo por ter encontrado o doador, embora explore um papel de evidente peso eleitoral. Nem Paulo Pezzolano pode ser transformado no responsável por uma dívida próxima do bilhão.

O verdadeiro culpado é a gestão de Alessandro Barcellos, que conduziu o Inter até o ponto de comemorar como união aquilo que, na prática, é um atestado de falência administrativa.

Neste sábado, às 17h, o Colorado enfrenta a Chapecoense na Arena Condá. A Chape abriu a rodada na lanterna, com 17 pontos em 25 partidas. É confronto de sobrevivência, não passeio.

Se nem contra a lanterna o Inter reagir, a direção talvez descubra que não existe cheque capaz de comprar aquilo que ela desperdiçou: credibilidade.