Inter mantém Pezzolano porque a diretoria ficou sem ideias antes de ficar sem pontos
Após levar 3 a 0 no primeiro tempo, chegar a dez jogos sem vencer e ver o Beira-Rio esvaziar, o Inter chama de convicção o que já virou paralisia.
7 de setembro de 2026

O placar mostrava 3 a 0 para o Santos ainda no primeiro tempo, mas a cena mais constrangedora estava fora das quatro linhas. Enquanto parte da torcida deixava o Beira-Rio — porque paciência também tem horário de expediente —, a direção do Internacional preparava mais uma rodada de respaldo a Paulo Pezzolano.
No fim, o Inter diminuiu para 3 a 2. A reação serviu para evitar uma goleada e alimentar o tipo de discurso que costuma aparecer quando já não existe argumento melhor: “o time mostrou força”, “não se entregou”, “respondeu na segunda etapa”. Tudo verdade. E tudo insuficiente.
O Internacional chegou a dez jogos sem vencer. Nos últimos três compromissos, sofreu três gols do Bahia, três do Grêmio e três do Santos. Nove gols em três partidas. Não é oscilação, azar ou um tropeço fora da curva. É um padrão gritando na sala enquanto a direção aumenta o volume da televisão para fingir que não escutou.
Convicção sem evidência não é coragem. É teimosia de terno.
A reação que não pode esconder o desastre
Buscar dois gols depois do intervalo teve valor competitivo. O time poderia ter desmoronado por completo, sobretudo diante de um estádio esvaziando e de um ambiente que já havia passado da irritação para o desalento. Não desmoronou. Lutou até o fim.
Mas há uma diferença enorme entre reconhecer a entrega dos jogadores e usar a reação como salvo-conduto para o treinador. O Inter entrou em campo como se o jogo começasse apenas depois do intervalo. Quando acordou, já estava tentando escalar uma montanha de chinelo.
Tomar 3 a 0 no primeiro tempo, em casa, no décimo jogo de uma sequência sem vitórias, não pode ser tratado como detalhe corrigível na próxima sessão de vídeo. É a fotografia de um trabalho que perdeu controle, confiança e capacidade de oferecer respostas antes que o estrago esteja feito.
Pezzolano não é o único culpado. Também não é uma vítima inocente de um elenco imperfeito. O time é dele, a sequência é dele e a repetição dos problemas também. Um treinador pode sobreviver a um resultado ruim. Pode até atravessar uma fase pesada. O que não pode é passar semanas sem vencer e ainda depender de um segundo tempo desesperado para provar que o grupo continua respirando.
Respirar não basta. O Inter precisa jogar futebol.
Do ferrolho ao desmanche
A sequência recente conta uma história particularmente incômoda. Primeiro vieram dois empates por 0 a 0, contra Atlético-MG e Grêmio. Resultados que, isoladamente, poderiam ser vendidos como sinais de organização defensiva.
Depois, a represa estourou. Derrota por 3 a 2 para o Bahia, revés por 3 a 1 no Gre-Nal da Copa do Brasil e novo 3 a 2, agora para o Santos no Beira-Rio. O Inter saiu de dois jogos sem sofrer gols para três partidas consecutivas levando três.
Não há sistema que resista quando o time entra em campo vulnerável, emocionalmente quebradiço e sempre obrigado a correr atrás do prejuízo. Também não há discurso de “evolução” capaz de sobreviver a nove gols sofridos em três jogos. A matemática, essa inconveniente funcionária do futebol, não aceita reunião para alinhar narrativa.
E aqui está a parte central do problema: a permanência de Pezzolano não parece nascer da crença de que o trabalho vai virar. Parece nascer do medo de admitir que a direção não sabe o que fazer depois da demissão.

Manter por quê?
Se Alessandro Barcellos e Fabinho Soldado realmente enxergam evolução, precisam explicar onde ela está. Nos resultados, certamente não. Na estabilidade defensiva, muito menos. Na resposta emocional, talvez durante alguns minutos, sempre depois de o time transformar a partida em operação de resgate.
Manter treinador por convicção é legítimo quando existe um processo reconhecível, quando o desempenho oferece sinais concretos ou quando os resultados ruins contradizem o que acontece no campo. Não é o caso. O Inter não está apenas perdendo: está se tornando previsível na maneira de sofrer.
A diretoria chama de continuidade o que já virou paralisia.
Demitir Pezzolano, claro, não resolveria por milagre todos os problemas. Trocar técnico como quem troca pilha de controle remoto é uma velha especialidade do futebol brasileiro — geralmente o aparelho continua sem funcionar. Mas esse argumento não pode ser usado como chantagem intelectual. O fato de uma demissão não garantir a cura não obriga ninguém a manter um trabalho que deixou de produzir respostas.
O maior erro da direção não foi acreditar em Pezzolano. Foi continuar acreditando depois que o campo parou de oferecer motivos.
O treinador teve tempo. Teve jogos. Teve clássico, Copa do Brasil, partidas no Beira-Rio e diferentes oportunidades para interromper a queda. Dez vezes o Inter entrou em campo tentando reencontrar uma vitória. Dez vezes saiu sem ela.
Em algum momento, a palavra “paciência” deixa de representar maturidade e passa a significar omissão.
A Chapecoense virou escudo
Agora, a tendência é transformar o confronto com a Chapecoense numa espécie de tribunal definitivo. A famosa “última chance”, esse animal mitológico que no futebol costuma ter mais vidas do que gato de desenho animado.

É uma saída conveniente para os dirigentes. Se o Inter vencer, dirão que a confiança estava correta. Se perder, demitem o treinador e anunciam que fizeram tudo o que podiam. Pezzolano fica equilibrado na ponta da prancha, enquanto quem montou o elenco, bancou a sequência e adiou a decisão observa de distância segura.
Não. A responsabilidade não pode ser terceirizada para mais 90 minutos.
Quando todo jogo vira a última chance, a decisão já está atrasada.
A Chapecoense não deveria decidir se o trabalho de Pezzolano ainda faz sentido. Dez partidas sem vitória, três derrotas consecutivas sofrendo três gols e um primeiro tempo de 3 a 0 para o Santos já forneceram material suficiente. O próximo jogo pode mudar o placar da semana; não apaga o processo que trouxe o Inter até aqui.
O torcedor que saiu antes do apito não abandonou o time. Apenas percebeu antes da diretoria que o jogo mais importante já havia terminado: o da confiança.
Barcellos e Fabinho Soldado podem manter Pezzolano. Têm autoridade para isso. O que não podem é vender a decisão como demonstração de firmeza. Firmeza seria assumir que há um plano, defendê-lo com fatos e aceitar o desgaste. O que se vê é outra coisa: a esperança de que uma vitória ocasional faça desaparecer uma crise estrutural.
O Inter não está mantendo o treinador porque encontrou uma solução. Está mantendo porque ficou sem ideias antes de ficar sem pontos — e, a essa altura, já começa a faltar também o estádio cheio para ouvir a próxima explicação.
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