O Palmeiras perdeu oito pontos — e Abel não pode culpar o retrovisor

Após 19 rodadas na liderança, o Palmeiras deixou oito pontos evaporarem. O Flamengo fez sua parte; Abel precisa explicar a pane, não a perseguição.

7 de setembro de 2026

O Palmeiras perdeu oito pontos — e Abel não pode culpar o retrovisor

Oito pontos não evaporam. Eles são desperdiçados, rodada por rodada, até que alguém olha para a tabela e descobre que o conforto virou cobrança.

Foi exatamente o que aconteceu com o Palmeiras. Depois de 19 rodadas na liderança, o time de Abel Ferreira viu a vantagem de oito pontos desaparecer e agora está atrás do Flamengo: 54 a 53. Não se trata de uma oscilação qualquer, dessas que cabem numa entrevista protocolar. É uma virada de campeonato.

O Flamengo cumpriu seu papel. O Palmeiras, não. Qualquer explicação que tente inverter essa ordem está apenas maquiando a tabela — e tabela, como se sabe, tem a delicadeza de um cobrador de impostos.

O retrovisor não marca gols, não fecha espaços e muito menos devolve pontos.

Do 4 a 1 à trava no ataque

A goleada por 4 a 1 sobre o Vasco parecia o início de uma arrancada. Houve autoridade, gols e aquela sensação tão conhecida no Allianz Parque de que a máquina verde havia voltado a funcionar. Só que a máquina engasgou logo depois.

Contra o Mirassol, empate por 1 a 1. Diante do Botafogo, novo empate, desta vez sem gols. Em duas rodadas, quatro pontos deixados pelo caminho no momento em que o campeonato exigia sangue frio e precisão.

O 0 a 0 com o Santos pela Copa do Brasil, depois da vitória palmeirense por 3 a 0 no primeiro confronto, não teve peso esportivo semelhante. A classificação estava encaminhada e administrar a vantagem fazia sentido. Ainda assim, o placar ajudou a reforçar uma impressão incômoda: o ataque perdeu temperatura.

Uma coisa é controlar uma eliminatória. Outra é levar o modo econômico para o Brasileirão como quem esquece o pisca-alerta ligado durante 40 quilômetros.

O Palmeiras não desmoronou defensivamente. Longe disso. O problema foi ter transformado domínio potencial em produção insuficiente. Contra adversários que brigam por espaço, que fecham corredores e aceitam entregar a bola, faltou encontrar soluções antes que o relógio virasse mais um marcador rival.

Campeão não é o time que administra melhor a vantagem; é o que percebe quando administrar já virou acomodação.

Enquanto Abel olhava ao redor, o Flamengo olhava para a frente

A reação rubro-negra não permite desculpas verdes. Depois de perder por 2 a 1 para o Cruzeiro no Brasileirão, o Flamengo respondeu com três vitórias consecutivas: 3 a 0 sobre o Botafogo, 2 a 0 contra o Mirassol e 1 a 0 diante do Remo.

Foram nove pontos, seis gols marcados e nenhum sofrido nessa sequência. Não houve milagre, conspiração ou alinhamento dos planetas. Houve aproveitamento.

A vitória sobre o Remo talvez não entre para a coleção de atuações épicas do clube, mas campeonato também se ganha assim: resolvendo partidas que oferecem mais risco de tropeço do que espaço para espetáculo. O Flamengo não precisava dar concerto de gala. Precisava voltar com três pontos na bagagem. Voltou.

O contraste é cruel. O Palmeiras encontrou Mirassol e Botafogo e somou dois pontos. O Flamengo enfrentou os mesmos adversários e fez seis. Está aí boa parte da explicação, sem necessidade de PowerPoint, dossiê ou entrevista atravessada.

O Palmeiras perdeu oito pontos — e Abel não pode culpar o retrovisor

Abel escolheu o alvo errado

Abel Ferreira construiu no Palmeiras um trabalho histórico. Isso lhe dá crédito, respeito e autoridade. Não lhe concede imunidade.

Quando o treinador desloca a conversa para pressão externa, perseguição ou guerra psicológica, ele oferece ao elenco uma rota de fuga. E esse é o maior erro possível agora. O Palmeiras não perdeu a liderança porque o Flamengo falou, pressionou ou apareceu no retrovisor. Perdeu porque deixou de vencer jogos que estavam ao seu alcance.

A guerra psicológica pode até existir — futebol brasileiro vive dela desde que alguém descobriu um microfone perto do vestiário. Mas usá-la como explicação para a queda de rendimento é como culpar o garçom porque o atacante perdeu o pênalti.

A vantagem era do Palmeiras. Portanto, a responsabilidade por perdê-la também é do Palmeiras.

Isso não significa ignorar arbitragem, bastidores ou o peso político dos clubes. Significa estabelecer prioridades. Se o time não consegue transformar duas partidas em mais do que dois pontos, a coletiva precisa começar pela própria área técnica.

Por que o ataque perdeu fluidez? Por que o time que goleou o Vasco encontrou tão poucas respostas nas rodadas seguintes? Por que a liderança, sustentada durante 19 jornadas, não produziu serenidade quando o Flamengo encostou?

Essas são as perguntas. O resto é fumaça.

O Palmeiras perdeu oito pontos — e Abel não pode culpar o retrovisor

O campeonato mudou de dono — por enquanto

A diferença é mínima: um ponto. Ainda há estrada, confronto, lesão, suspensão e toda a coleção de imprevistos que faz do Brasileirão uma maratona disputada em pista esburacada. O Palmeiras continua totalmente vivo.

Mas a condição psicológica mudou. Antes, o Flamengo precisava correr atrás. Agora, o Palmeiras é quem vê a camisa rubro-negra à frente. Para um elenco acostumado a controlar cenários, essa inversão cobra adaptação imediata.

Abel precisa abandonar o megafone e voltar à prancheta. Recuperar agressividade, encontrar respostas contra blocos fechados e impedir que a ansiedade tome conta quando o gol demora. O treinador que tantas vezes corrigiu o time durante campanhas vencedoras terá de fazer isso novamente — sem transformar o adversário em álibi.

Quem lidera por 19 rodadas e termina olhando para cima não foi perseguido: foi ultrapassado.

O Flamengo fez o que um candidato ao título deve fazer quando sente cheiro de hesitação. Acelerou. Ao Palmeiras resta uma escolha bastante simples: reagir dentro do campo ou continuar discutindo quem piscou o farol no retrovisor.