O Santos passou sem Neymar — agora precisa parar de escolher o chão

A vaga no Equador comprou tempo, não uma solução: com duas decisões no sintético, o Santos precisa assumir os limites de Neymar e planejar sem teatro.

21 de agosto de 2026

O Santos passou sem Neymar — agora precisa parar de escolher o chão

O 0 a 0 em Ambato teve pouca poesia e enorme utilidade. Depois de vencer o Macará por 2 a 1 na ida, o Santos atravessou a noite equatoriana sem Neymar, segurou a vantagem e avançou na Copa Sul-Americana. Não foi uma atuação para guardar em moldura. Foi para guardar a vaga — e, convenhamos, mata-mata não distribui pontos por beleza.

O resultado também entregou ao clube uma informação que deveria encerrar uma discussão bastante infantil: existe Santos sem Neymar. Evidentemente, é um Santos menos talentoso, menos imprevisível e com muito menos gente procurando onde assistir ao jogo. Ainda assim, existe. Compete, sofre, fecha espaços e pode sobreviver.

Isso não diminui o camisa 10. Pelo contrário. Coloca a importância dele no lugar certo.

Neymar deve ser tratado como protagonista, não como plano de emergência para qualquer ocasião.

A classificação no Equador comprou tempo. Não comprou uma solução para o problema que está logo ali, usando chuteira adequada e fazendo barulho sob as travas: o gramado sintético.

Com decisões no horizonte contra Palmeiras e Atlético-MG, em palcos de piso artificial, o Santos precisa parar de fingir surpresa. A restrição de Neymar a esse tipo de superfície não apareceu ontem, não caiu do céu e tampouco pode ser resolvida com uma conversa motivacional na porta do vestiário. O histórico físico do jogador exige cautela. Se ele e o departamento médico entendem que o risco é alto, acabou a discussão.

Escalá-lo apenas para provar autoridade seria uma irresponsabilidade fantasiada de coragem.

O Santos passou sem Neymar — agora precisa parar de escolher o chão

O erro está em outro lugar: montar o planejamento esportivo como se a realidade pudesse negociar com o calendário. Não pode. O sintético não vai se transformar em grama natural porque alguém na Vila Belmiro fez cara feia. Esperar até a véspera para decidir se Neymar joga é como levar um guarda-chuva furado para a tempestade e discutir com a nuvem.

O Santos já demonstrou que consegue encontrar respostas. Antes do empate no Equador, havia atropelado o Vasco por 3 a 0 fora de casa. Também vencera o Remo por 1 a 0 na Copa do Brasil. No meio do caminho, porém, perdeu por 2 a 0 para o Athletico-PR em casa. O recorte é quase uma radiografia da equipe: competitiva, capaz de jogar longe da Vila, mas ainda sujeita a apagões quando precisa assumir o controle.

Sem Neymar, a solução não pode ser apenas correr mais. Esse é um vício antigo do futebol brasileiro: quando falta talento, alguém manda “igualar na vontade”, como se suor tivesse aprendido a dar passe entre linhas. O time precisa de mecanismos. Aproximação no meio, amplitude real, pressão coordenada e atacantes ocupando a área em vez de aguardarem uma invenção individual que não estará em campo.

A ausência do craque muda tudo, mas não pode desmontar tudo.

É aí que a classificação sobre o Macará ganha valor além da vaga. O Santos passou 90 minutos dentro de um mata-mata continental obrigado a tomar decisões sem recorrer ao seu maior atalho técnico. Em certos momentos, faltou qualidade para reter a bola. Em outros, sobrou prudência. Mas o time não se desorganizou emocionalmente, não ofereceu o caos de bandeja e voltou do Equador com aquilo que precisava.

Há mérito nisso. Seria tolice negar.

Também seria perigoso transformar o 0 a 0 em certificado de independência. Uma coisa é administrar a vantagem contra o Macará. Outra é enfrentar elencos mais fortes, em decisões brasileiras, sem o jogador capaz de inventar um gol quando a partida parece trancada com dois cadeados.

O Palmeiras, apesar da sequência recente irregular, continua sendo adversário de peso. Empatou com o Cerro Porteño em casa e venceu por 1 a 0 no Paraguai pela Libertadores. No Brasileirão, ficou no 0 a 0 com o Internacional e perdeu por 3 a 2 para o Fluminense. Também sofreu uma derrota por 3 a 2 para o Fortaleza na Copa do Brasil. Não vive seu momento mais imponente, mas ninguém sensato confunde oscilação com fragilidade.

O Atlético-MG chega com outra pulsação. Venceu o Juventude por 1 a 0, bateu o Bragantino fora pela Sul-Americana, goleou o Grêmio por 3 a 0 e confirmou a classificação continental com um empate por 2 a 2. É um time que vem encontrando resultado em diferentes competições e que, em casa, costuma transformar qualquer hesitação adversária em avalanche.

Contra ambos, o Santos tem de partir de uma premissa objetiva: se Neymar não atua no sintético, o plano A começa sem Neymar. Nada de preparar a semana em torno de uma liberação improvável, alimentar suspense nas entrevistas e, horas antes do jogo, improvisar o substituto. Isso não é estratégia. É teatro — e dos baratos, com cenário balançando quando alguém fecha a porta.

O Santos passou sem Neymar — agora precisa parar de escolher o chão

Há ainda a gestão física e disciplinar. Em uma temporada dividida entre Brasileirão, Copa do Brasil e Sul-Americana, cada minuto do camisa 10 precisa ter propósito. Não faz sentido expô-lo onde o risco é considerado maior para depois perdê-lo justamente em uma partida na qual sua presença seria decisiva. Cartões, desgaste, recuperação e tipo de piso devem fazer parte da mesma conta. Craque não é peça de porcelana, mas também não é chave de roda para ser jogada no porta-malas e usada em qualquer emergência.

Preservar Neymar não é poupar o Santos; é impedir que o Santos desperdice Neymar.

A diretoria e a comissão técnica precisam assumir essa posição publicamente, sem empurrar a responsabilidade inteira para o jogador. Quando o clube deixa Neymar sozinho diante do microfone para explicar por que não atua no sintético, cria-se a impressão de escolha pessoal, quase um capricho. Não é justo — e tampouco é inteligente.

Se existe respaldo médico, o Santos deve dizer. Se a decisão é preventiva, deve bancá-la. Se houver condições seguras para jogar, que a avaliação seja técnica, não política. O que não cabe é usar o craque para vender esperança durante a semana e apresentar a conta ao treinador quando a escalação sair.

A equipe já recebeu o aviso no Equador. Passou sem Neymar, mas passou no limite de uma atuação controlada, sem grande margem para erro. Agora precisa transformar aquela sobrevivência em modelo de trabalho: um time mais autônomo, preparado para decisões nas quais seu principal jogador talvez não esteja disponível.

O chão pode ser artificial. O planejamento do Santos não pode.

Neymar continuará sendo o melhor jogador do elenco e o homem capaz de mudar o teto competitivo da equipe. Só não pode ser também a desculpa para tudo: quando joga, o time espera que resolva; quando não joga, todos agem como se o futebol tivesse sido cancelado.

A vaga contra o Macará mostrou uma saída. Cabe ao Santos ter coragem de segui-la sem melodrama, sem suspense fabricado e, principalmente, sem escolher o chão para só depois descobrir quem pode pisar nele.