O São Paulo contratou a lembrança de Dorival — não uma solução

A virada do Grêmio expôs um São Paulo previsível e frágil. Gratidão por 2023 não pode servir de escudo para um trabalho que ainda não evoluiu.

11 de agosto de 2026

O São Paulo contratou a lembrança de Dorival — não uma solução

A derrota em Porto Alegre não foi um tropeço fora da curva. Foi a curva inteira.

O São Paulo saiu na frente, permitiu a reação do Grêmio e voltou para casa com um 2 a 1 que machuca menos pelo placar do que pelo roteiro. Quando a partida exigiu leitura, personalidade e capacidade de mudar o rumo, o time de Dorival Júnior ficou preso à própria previsibilidade. A vantagem, em vez de dar confiança, pareceu virar um teto baixo.

Perder para o Grêmio em Porto Alegre está longe de ser uma aberração. A questão é como. O São Paulo não foi derrubado por uma fatalidade, por um chute caído do céu ou por uma noite sobrenatural do adversário. Foi sendo empurrado até ceder. E cedeu com aquela fragilidade de quem percebe o problema, mas não encontra a ferramenta para resolvê-lo.

O São Paulo contratou a lembrança de Dorival. Até agora, a lembrança é mais convincente do que o trabalho.

É impossível discutir Dorival no Morumbi sem voltar a 2023. E nem seria justo apagar o que aconteceu. O título da Copa do Brasil teve peso histórico, emocional e institucional. Dorival entrou para uma galeria que parecia fechada a cadeado havia tempo demais. Entendeu o ambiente, recuperou jogadores, montou um time competitivo e entregou uma taça que o clube perseguia como quem corre atrás do último ônibus da madrugada.

Só que 2023 acabou.

Pode parecer uma informação simples, mas o São Paulo ainda não a assimilou por completo. O elenco mudou, os problemas mudaram, os adversários mudaram. O próprio Dorival precisa mudar. Usar a planta tática de três anos atrás para reformar o time atual é como tentar entrar no estádio com o ingresso guardado da final: bonito na carteira, inútil na catraca.

O São Paulo contratou a lembrança de Dorival — não uma solução

A gratidão virou um álibi

A torcida tem todo o direito de ser grata. O clube, não. Clube precisa avaliar desempenho, evolução e perspectiva. Quando a gratidão começa a adiar cobranças óbvias, deixa de ser reconhecimento e passa a funcionar como escudo.

Gratidão paga homenagem. Não paga ponto.

Nos quatro resultados recentes de Série A apresentados por esse recorte, o São Paulo somou apenas um ponto. Perdeu por 1 a 0 para o Remo, caiu em casa por 2 a 1 diante do Athletico-PR, arrancou um empate por 1 a 1 com o Flamengo e agora sofreu a virada do Grêmio. São três gols marcados e seis sofridos.

O empate no Maracanã poderia ter servido como ponto de partida. Virou apenas uma pequena pausa entre derrotas. A vitória por 2 a 0 sobre o Boston River, pela Sul-Americana, já ficou lá atrás, em 26 de maio. Não dá para viver de um bom resultado isolado quando o Brasileiro começa a cobrar aluguel toda semana.

O incômodo maior não está apenas nos números. Está na ausência de progresso visível. Um trabalho em construção pode até perder, desde que deixe pistas de futuro: um mecanismo novo, uma resposta coletiva, um jogador potencializado, uma identidade ganhando forma. Este São Paulo ainda oferece muito pouco disso. Parece sempre depender de o jogo aceitar o plano inicial. Se o adversário muda a pergunta, o time entrega a prova em branco.

Não se trata de exigir espetáculo. Ninguém está pedindo futebol de videogame, pressão sufocante durante 90 minutos ou uma coleção de golaços para colocar moldura. O mínimo é reconhecer um time preparado para atravessar diferentes momentos da partida. Em Porto Alegre, o São Paulo teve a vantagem e não soube transformá-la em autoridade. Depois da reação gremista, também não mostrou repertório para recuperar o controle.

Time previsível não precisa jogar mal o tempo inteiro. Basta ser fácil de decifrar quando o jogo aperta.

Dorival precisa romper com o próprio passado

Este é o ponto mais delicado. Dorival não pode tentar reproduzir 2023 como se estivesse remontando uma peça de teatro com atores diferentes. O mérito daquela passagem não está em uma formação congelada ou em alguma fórmula secreta escondida no CT. Esteve na capacidade de entender aquele elenco, naquele momento, e encontrar soluções adequadas.

É justamente essa capacidade que agora está sendo colocada à prova.

O treinador precisa olhar para o São Paulo de 2026 sem filtros nostálgicos. Quem oferece intensidade? Quem sustenta o time sob pressão? Quem merece espaço pelo que entrega hoje, e não pelo currículo? Que tipo de jogo este grupo realmente consegue executar? Essas respostas não podem vir de uma fotografia antiga.

O São Paulo contratou a lembrança de Dorival — não uma solução

Também é hora de abandonar a copiadora de justificativas. Calendário pesado, pouco tempo de treino, desfalques e oscilação fazem parte da vida de quase todo clube brasileiro. Explicam dificuldades; não absolvem um time que repete os mesmos defeitos. Quando o placar muda de 1 a 0 para 1 a 2 e a explicação continua igual à da derrota anterior, o problema já não é azar. É falta de resposta.

E o calendário não permitirá uma longa sessão de terapia. O compromisso continental de 12 de agosto está logo ali, apenas quatro dias depois da queda para o Grêmio. Não há tempo para reinventar o futebol, mas há tempo para tomar decisões. Simplificar o plano, ajustar prioridades, escolher quem aguenta o jogo e parar de tratar hierarquia como direito adquirido.

Dorival merece respeito. Blindagem, não.

O maior erro do São Paulo seria imaginar que cobrar o treinador significa desrespeitar 2023. É justamente o contrário. Quem conhece o melhor trabalho de Dorival no clube sabe que ele pode entregar mais do que este time burocrático, vulnerável e incapaz de sustentar uma vantagem.

A história abriu a porta para a volta. Daqui em diante, quem precisa mantê-la aberta é o futebol.

Dorival não tem de honrar 2023 repetindo 2023. Tem de honrá-lo tendo coragem para desmontar o que não funciona agora.