O VAR chegou ao mata-mata — pena que o Brasileirão Feminino começou meses antes
A CBF disputou a primeira fase sem VAR e levou a tecnologia às quartas. Profissionalismo não pode aparecer só quando o campeonato ganha vitrine.
29 de agosto de 2026

O caminhão da tecnologia finalmente estacionou no Brasileirão Feminino. Trouxe monitores, câmeras, linhas e toda a liturgia do “checando possível pênalti”. Só errou o horário da entrega: o campeonato já estava em andamento havia meses.
A CBF decidiu utilizar o VAR a partir das quartas de final, depois de disputar toda a primeira fase sem o recurso. É uma escolha difícil de defender, ainda que alguém abra uma planilha, aponte custos operacionais e tente transformar incoerência esportiva em decisão administrativa.
Porque o problema não é a chegada do VAR. Antes tarde do que nunca, claro. O problema é tratar a fase decisiva como futebol profissional e todo o caminho até ela como uma espécie de ensaio geral.
A vaga nas quartas vale tanto quanto o erro de arbitragem que pode impedi-la.

Não existe botão para revisar o passado. Uma bola que entrou e não foi validada, um impedimento mal marcado, um pênalti claro ignorado ou uma expulsão equivocada na primeira fase continuam produzindo efeito na tabela. Podem decidir classificação, mando, cruzamento e eliminação. Quando o VAR aparece apenas no mata-mata, ele não corrige a desigualdade anterior; apenas ilumina o palco depois que parte do elenco já foi mandada para casa.
E nem é preciso cair na fantasia de que o vídeo resolve tudo. Não resolve. O VAR brasileiro já produziu esperas intermináveis, linhas traçadas com a delicadeza de quem corta pizza com régua e interpretações capazes de fazer dois árbitros enxergarem esportes diferentes na mesma jogada. Ainda assim, é uma camada adicional de revisão. Se ela é considerada necessária nas quartas, por que seria dispensável quando as equipes brigavam para chegar até lá?
Essa é a pergunta que a CBF precisa responder sem recorrer ao velho “questão de estrutura”. Estrutura não nasce espontaneamente na semana do mata-mata. Ela é planejada antes da competição, entra no orçamento e determina o padrão oferecido do primeiro ao último jogo.
Profissionalismo por fases não é profissionalismo; é cenografia.
A justificativa financeira, embora real, não pode virar salvo-conduto. Operar o VAR custa dinheiro, exige equipe, equipamento, conectividade e estádios preparados. Perfeito. Então o orçamento do campeonato deve prever isso desde o início — ou a entidade deve assumir que organizou uma competição nacional sem bancar o mesmo instrumento de arbitragem em todas as partidas.
Não se trata de pedir uma cabine de vídeo até para decidir o par ou ímpar. Trata-se do principal campeonato feminino do país. Colocar VAR só quando chegam os jogos de maior audiência é como levar extintor apenas para a sala onde estarão as câmeras de televisão: a preocupação até existe, mas escolheu cuidadosamente onde deseja parecer importante.
A mensagem simbólica é péssima. Durante a primeira fase, as atletas viajam, treinam, jogam sob pressão, disputam contratos e defendem projetos que muitas vezes sobrevivem com orçamento apertado. Há clubes estruturados e outros ainda tentando acompanhar a evolução da modalidade. A obrigação da organizadora deveria ser reduzir essa distância no que está sob seu controle — calendário, regulamento, arbitragem, transmissão e condições operacionais —, não criar uma nova divisão dentro do próprio torneio.
De um lado, jogos com rede de proteção tecnológica. Do outro, jogos que valiam os mesmos três pontos sem ela.
O mata-mata não torna o futebol mais sério; apenas torna a audiência maior.
É justamente aí que a decisão incomoda mais. O VAR chega quando o produto ganha vitrine, quando a repercussão cresce e quando um erro grosseiro pode circular pelas redes sociais com mais força. Parece menos uma política esportiva e mais um seguro de imagem. A tecnologia protege as partidas que serão mais vistas, não necessariamente todas as equipes que deveriam ter sido igualmente protegidas.

O futebol feminino brasileiro conhece bem esse mecanismo. O investimento costuma aparecer no ponto em que rende fotografia, discurso e cerimônia. A base do projeto, menos glamourosa, recebe promessas. A ponta, mais vendável, ganha acabamento. É o bolo de dois andares: embaixo, massa seca; em cima, cereja, luz e dirigente sorrindo para a câmera.
Nada disso diminui a importância de ter o VAR nas quartas. Pelo contrário. Em confronto eliminatório, no qual um lance pode destruir uma temporada inteira, toda ferramenta de apoio à arbitragem é bem-vinda. A crítica não é “não deveria haver agora”. É exatamente a oposta: deveria haver antes.
Também não adianta argumentar que as regras continuam iguais. Formalmente, sim. Na prática, a capacidade de corrigir uma decisão muda. Uma árbitra que marca um pênalti inexistente na primeira fase carrega sozinha o erro. No mata-mata, pode ser chamada ao monitor. A diferença não está na regra escrita, mas na chance de reparar o dano. E essa chance deveria ser distribuída de maneira uniforme.
A CBF gosta de celebrar a evolução do Brasileirão Feminino — e há evolução, seria absurdo negar. A competição ganhou espaço, exposição e relevância. Mas crescimento verdadeiro não pode ser medido apenas pela festa dos jogos decisivos. Ele aparece na rodada comum, no estádio menos badalado, na partida sem holofote, quando a entidade oferece o mesmo nível de seriedade porque entende que ninguém precisa estar em uma semifinal para merecer organização profissional.
Quem só capricha quando a televisão chega não está valorizando o campeonato; está arrumando a sala para a visita.
Para as próximas edições, a obrigação é simples e não admite malabarismo retórico: o VAR precisa estar previsto desde a primeira rodada. Caso existam limitações de estádio, logística ou transmissão, cabe à organizadora resolvê-las com antecedência. Se o custo é alto, que o investimento seja tratado como parte do campeonato — não como acessório reservado aos confrontos que dão mais clique.
O Brasileirão Feminino não começa nas quartas. Começa quando a primeira bola rola, quando o primeiro ponto entra na tabela e quando o primeiro erro pode alterar o destino de uma equipe.
A tecnologia chegou ao mata-mata. A coerência, por enquanto, ainda está presa no trânsito.
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