Palmeiras ainda lidera, mas o favorito ao Brasileirão já é o Flamengo
A tabela ainda veste verde, mas o returno ruim, o elenco curto e o calendário entregaram ao Flamengo o controle da ultrapassagem no Brasileirão.
31 de agosto de 2026

A rodada colocou os dois candidatos diante de um espelho cruel. Primeiro, o Flamengo fez 3 a 0 no Botafogo. Depois, o Palmeiras foi a Mirassol e ficou no 1 a 1. Quando a noite terminou, a liderança continuava alviverde — mas a sensação de controle havia trocado de mãos.
A tabela ainda pertence ao Palmeiras. O favoritismo, não mais.
Essa distinção incomoda porque parece provocação, mas é apenas a fotografia correta da corrida. O líder somou oito dos 18 pontos possíveis no returno, aproveitamento de 44,4%. É pouco para quem pretende levantar a taça e perigosíssimo quando o perseguidor tem elenco mais profundo, calendário menos sufocante e começa a encontrar espaço para acelerar.
A liderança é do Palmeiras. O campeonato, hoje, está nas mãos do Flamengo.
Não significa que o time rubro-negro virou uma máquina imbatível. Longe disso. O Cruzeiro venceu o Flamengo por 2 a 1 no Brasileirão e tratou de lembrar que ninguém atravessa esse campeonato de chinelo. A resposta, porém, veio com autoridade: 3 a 0 sobre o Botafogo, sem margem para discussão no placar e sem prolongar a ressaca.
O Palmeiras vive outra dinâmica. Goleou o Vasco por 4 a 1, passou pelo Santos por 3 a 0 na Copa do Brasil e venceu o Cerro Porteño por 1 a 0 fora de casa na Libertadores. Não há crise técnica, muito menos terra arrasada. O problema é mais traiçoeiro: o time continua competitivo em todas as frentes, mas passou a tropeçar justamente onde não poderia.
Antes do empate em Mirassol, havia perdido por 3 a 2 para o Fluminense. São cinco pontos deixados pelo caminho em três partidas do Brasileiro. Numa disputa apertada, isso não é oscilação decorativa. É convite para ultrapassagem.
Mirassol virou régua — mesmo sem querer
Futebol não aceita regra de três. Se aceitasse, matemático ganharia todas as apostas e treinador seria substituído por uma planilha com apito. Ainda assim, algumas comparações são inevitáveis.
Em 16 de agosto, o Flamengo foi ao mesmo estádio e atropelou o Mirassol por 5 a 1. Duas semanas depois, o Palmeiras saiu de lá com um empate por 1 a 1. Os jogos tiveram contextos próprios, claro, mas campeonato também é feito de mensagens. O Flamengo deixou a sua em caixa alta. O Palmeiras respondeu com letra miúda.
O efeito aparece nas projeções: 54,03% de chance de título para o Flamengo, contra 39,89% do Palmeiras. É uma inversão importante porque o líder, em condições normais, deveria carregar a vantagem estatística. Se não carrega, é porque a tabela está dizendo uma coisa e a tendência está gritando outra.

Campeonato não se ganha abraçado à fotografia da liderança.
O Palmeiras ainda tem pontos, camisa, treinador e uma capacidade de sobrevivência que ninguém sensato despreza. Abel Ferreira já ganhou batalhas em cenários bem mais hostis. Mas nem ele transforma desgaste em descanso ou multiplica jogador confiável por geração espontânea.
E aqui aparece o verdadeiro culpado pela perda de favoritismo: a montagem curta do elenco para uma temporada de ambição gigantesca.
Abel recebeu um cobertor pequeno demais
Disputar Brasileirão, Libertadores e Copa do Brasil exige mais do que 11 titulares fortes e algumas alternativas. Exige reposição sem queda brusca, capacidade de poupar e opções para mudar jogos quando o plano inicial emperra. O Palmeiras tem qualidade. O que não tem, neste momento, é folga.
Entre 19 e 30 de agosto, o time enfrentou Cerro Porteño, Vasco, Santos e Mirassol. Quatro partidas, três competições, 11 dias. O calendário não pede licença; entra pela porta, senta no sofá e ainda procura alguma coisa na geladeira.
O Flamengo também teve compromisso continental e enfrentou o Cruzeiro duas vezes pela Libertadores antes da rodada contra o Botafogo. A diferença está na capacidade de absorver o impacto. O elenco rubro-negro oferece mais caminhos para rodar peças, corrigir ausências e manter intensidade. Em pontos corridos, esse luxo costuma deixar de ser luxo lá por setembro. Vira argumento de campeão.
A diretoria palmeirense não pode fingir surpresa. O clube escolheu disputar tudo, como deve fazer um gigante, mas entregou a Abel um cobertor de solteiro para uma noite de inverno: quando cobre a Libertadores, descobre o Brasileirão; quando puxa para a Copa do Brasil, sobra um pé tremendo no returno.

Dinheiro em caixa não marca lateral, não recompõe o meio-campo e não entra aos 30 do segundo tempo.
Esse é o ponto em que a cobrança precisa subir de andar. É fácil transformar cada tropeço em discussão sobre escalação, substituição ou teimosia do treinador. Abel merece críticas quando erra, e erra. Mas o maior erro seria responsabilizá-lo por não encontrar no banco soluções que a direção não colocou ali.
O elenco curto não é uma desculpa para o aproveitamento ruim. É a explicação mais evidente para a dificuldade de sustentar o ritmo enquanto o calendário aperta.
Por que o Flamengo é o favorito
Porque tem mais elenco. Porque sua agenda tende a cobrar menos pedágio. Porque marcou oito gols nas vitórias sobre Mirassol e Botafogo. Porque, mesmo após perder para o Cruzeiro no Brasileiro, reagiu imediatamente. E porque o Palmeiras passou a jogar cada rodada com a obrigação de defender uma vantagem que já não transmite segurança.
Favoritismo não é taça antecipada. O Flamengo ainda pode tropeçar, desperdiçar chances e transformar euforia em ansiedade — especialidade histórica de qualquer candidato brasileiro. Mas, se ambos mantiverem o desempenho recente, a ultrapassagem não será acidente. Será consequência.
Ao Palmeiras resta abandonar a confortável ilusão de que estar na frente é o mesmo que controlar a disputa. Não é. O time precisa recuperar rendimento no Brasileiro, administrar melhor as outras frentes e receber da direção respostas compatíveis com a temporada que decidiu encarar.
Abel ainda segura o volante. Só que o Flamengo já ligou a seta, ganhou velocidade e escolheu a faixa.
Se o Palmeiras continuar olhando apenas pelo retrovisor, verá o rival passar bem de perto — e talvez ainda tenha de ouvir a buzina.
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