Palmeiras perdeu o mapa. Gustavo Gómez virou bússola em Assunção
O gol de Gustavo Gómez levou o Palmeiras às quartas, mas não absolveu o ataque. Em Assunção, o capitão resgatou a autoridade de um time ainda emperrado.
20 de agosto de 2026

Foi Gustavo Gómez quem achou a saída de emergência.
Quando o Palmeiras parecia rodar por Assunção com o GPS recalculando a rota, o capitão apareceu para marcar o gol da vitória por 1 a 0 sobre o Cerro Porteño e colocar o time nas quartas de final da Libertadores. Não houve espetáculo, tampouco uma súbita cura coletiva. Houve classificação. E, no momento atual, isso vale quase como oxigênio.
O resultado encerrou uma sequência de quatro partidas sem vitória e evitou que uma fase ruim se transformasse em crise continental. Depois do empate por 1 a 1 no jogo de ida, em São Paulo, a margem para erro havia desaparecido. O Palmeiras precisava recuperar a autoridade justamente fora de casa, diante de um adversário que enxergava no confronto a chance de empurrar o favorito para o abismo.
Quem tomou a responsabilidade não foi o ataque. Foi o zagueiro.
Gustavo Gómez não marcou apenas um gol: ele devolveu hierarquia ao Palmeiras.
Há jogadores que participam de uma classificação. Gómez a carimbou. Paraguaio, líder e acostumado a transformar bola aérea em assunto de Estado, ele atravessou uma noite de tensão com a naturalidade de quem conhece tanto o peso da camisa quanto o ambiente de Assunção. Quando o time mais precisava de alguém disposto a bater no peito, o capitão não pediu licença.
A vitória que alivia, mas não engana
É tentador tratar a vaga como ponto de virada definitivo. Convém não exagerar. O Palmeiras avançou, recuperou algum fôlego e voltou a vencer, mas seu ataque continua funcionando como motor antigo em manhã fria: faz barulho, ameaça pegar e deixa todo mundo olhando para o capô.

A classificação não absolve o setor ofensivo. Pelo contrário. Se a solução de um confronto tão importante precisa sair novamente de Gustavo Gómez, o problema continua exposto. Zagueiro decidir mata-mata é uma bênção; depender disso é falha de projeto.
O capitão pode abrir a porta, mas não deveria ser obrigado a carregar o ataque pela mão.
O incômodo vem de antes. O Palmeiras havia empatado sem gols com o Internacional, ficado no 1 a 1 com o próprio Cerro Porteño e perdido duas partidas por 3 a 2 — para Fortaleza, pela Copa do Brasil, e Fluminense, pelo Campeonato Brasileiro. Foram quatro jogos sem vencer, com cinco gols marcados e sete sofridos. Uma sequência estranha: em alguns momentos faltou contundência; em outros, nem marcar duas vezes foi suficiente.
Contra o Cerro, o mais importante era sobreviver. Missão cumprida. Mas Abel Ferreira não pode permitir que o alívio esconda a ferrugem. O Palmeiras tem elenco, experiência e repertório demais para atacar como quem procura a chave de casa no escuro. Falta transformar presença ofensiva em ameaça real, acelerar decisões e reduzir a dependência de lances salvadores de seus líderes defensivos.
Não é uma discussão estética. Ninguém exige futebol de videogame, tabela de calcanhar ou cinco gols por noite. Mata-mata também se ganha no detalhe, no desconforto e na cara fechada. O problema é outro: um time com ambição de título precisa saber onde machucar o adversário. Em Assunção, o Palmeiras encontrou o gol. Ainda não está claro se reencontrou o caminho.
Gómez recolocou ordem na casa
A grande virtude do capitão foi compreender a urgência. Uma equipe pressionada costuma esperar que o jogo produza um herói; Gómez age como se essa função já estivesse prevista no contrato. Ele lidera a defesa, organiza o ambiente e, quando necessário, invade a área rival para resolver o que os homens da frente deixaram pendente.
Há uma dimensão simbólica poderosa nisso. Depois de quatro tropeços, o Palmeiras chegou ao Paraguai cansado, questionado e com a confiança vazando pelos cantos. Saiu de lá classificado graças ao jogador que melhor representa sua versão mais competitiva: dura, insistente e pouco interessada em pedir desculpas por vencer sem encanto.

Em noite de neblina, o Palmeiras não teve farol. Teve capitão.
Isso não significa que Gómez deva ser romantizado como solução universal. Esperar que ele defenda, lidere, marque e ainda resolva toda partida seria como pedir ao porteiro do estádio que feche o gol e venda amendoim na arquibancada. O mérito individual é enorme justamente porque evidencia o tamanho da ausência coletiva.
O Palmeiras das quartas precisa ser mais do que um time socorrido por sua própria autoridade histórica. A vaga aumenta a responsabilidade de Abel e dos atacantes. A competição ficará mais dura, os espaços menores e o preço de uma noite improdutiva, muito mais alto. Não haverá sempre um Gómez para tirar uma classificação do bolso.
Ainda assim, convém reconhecer o que aconteceu sem frescura. Libertadores não distribui medalha por delicadeza. O Palmeiras foi ao Paraguai sob pressão, venceu o Cerro Porteño por 1 a 0 e avançou. Depois de uma sequência perigosa, interrompeu a queda antes que ela ganhasse velocidade.
Gómez fez o que os grandes capitães fazem: apareceu quando a camisa começou a pesar nos outros.
Agora o ataque precisa aparecer também. Porque bússola aponta a direção — não percorre o caminho inteiro.
Matérias relacionadas

Dorival entregou o Choque-Rei ao calendário — e agora deve a classificação contra o Boca
Após prometer força máxima, Dorival poupou contra o Palmeiras e gastou três pontos que o São Paulo não tinha. Agora, só a vaga acalma o MorumBIS.

Abel chutou o microfone — e a conta caiu no colo do Palmeiras
O recurso permitiu a Abel enfrentar o Botafogo, mas a pena subiu para três jogos. No Choque-Rei, o Palmeiras pagará pela indisciplina do treinador.

CBF vende a Copa por R$ 4 bilhões — e manda o torcedor comprar passagem
Direitos recordes e final única em Brasília valorizam a Copa do Brasil. Para os clubes, uma fortuna; para o torcedor, viagem, ingresso e desconfiança.