Palmeiras precisa explicar por que Mansur voltou a fiscalizar as contas

Sem condenação, Mansur voltou ao COF enquanto negocia colaboração com a PGR. O Palmeiras deve dizer o que mudou desde a licença e justificar o retorno.

26 de agosto de 2026

Palmeiras precisa explicar por que Mansur voltou a fiscalizar as contas

O problema não é o Palmeiras ter permitido a volta de Mansur ao Conselho de Orientação e Fiscalização. O problema é o clube agir como se não devesse explicar por que permitiu.

Mansur havia se licenciado do COF em fevereiro. Em agosto, retomou sua cadeira enquanto negocia uma colaboração com a Procuradoria-Geral da República. Não há condenação contra ele — e esse ponto não pode aparecer entre parênteses, quase escondido, porque é central. Negociação de colaboração não equivale a culpa, muito menos a sentença.

Mas também não transforma a situação em assunto particular.

O COF existe para examinar contas, cobrar explicações, acompanhar a administração e funcionar como uma camada de controle institucional do Palmeiras. Seus integrantes não ocupam um camarote honorário. Exercem uma função de fiscalização dentro de uma associação gigantesca, dona de uma marca nacional e movimentadora de receitas que há muito deixaram de caber no velho cofrinho da sede social.

Quem fiscaliza as contas também precisa aceitar ser fiscalizado.

Essa é a pergunta que a diretoria deve responder: o que mudou entre fevereiro e agosto?

A volta não pode ser tratada como movimento automático

Se a licença foi considerada necessária em fevereiro, por que deixou de ser em agosto? Houve parecer jurídico? O Conselho Deliberativo foi informado? A presidência do COF avaliou o caso? Existiu alguma condição para o retorno? A negociação com a PGR foi considerada institucionalmente irrelevante — e, se foi, com base em qual entendimento?

Nenhuma dessas perguntas antecipa julgamento. Todas dizem respeito à governança.

É possível, sim, que o clube tenha concluído que não existe impedimento estatutário ou jurídico para Mansur exercer sua função. Se essa foi a análise, basta apresentá-la. Com objetividade, sem malabarismo verbal e sem aquela nota oficial escrita em dialeto de cartório que começa dizendo muito, passa três parágrafos não dizendo nada e termina agradecendo a compreensão da torcida.

Presunção de inocência não é salvo-conduto para opacidade.

O Palmeiras não precisa condenar Mansur. Precisa justificar uma decisão institucional tomada em torno de um órgão cuja razão de existir é justamente cobrar justificativas.

Palmeiras precisa explicar por que Mansur voltou a fiscalizar as contas

Há uma contradição incômoda aí. O conselheiro se licencia quando o caso ganha peso público e retorna meses depois sem que o clube esclareça qual fato novo sustentou a mudança. Se nada mudou, por que a licença ocorreu? Se algo mudou, o que foi?

Governança não pode funcionar como catraca de ônibus antigo: emperra na entrada, gira sozinha na volta e ninguém sabe quem pagou a passagem.

Vitória em campo não quita débito de transparência

O momento esportivo oferece ao Palmeiras aquela cortina conveniente que os clubes adoram. O time venceu o Vasco por 4 a 1 no Brasileirão, poucos dias depois de bater o Cerro Porteño por 1 a 0 fora de casa pela Libertadores. Quando a bola entra, dirigente costuma acreditar que até pergunta institucional vai parar na arquibancada e comemorar junto.

Não deveria.

Antes dessa sequência, o Palmeiras havia empatado por 1 a 1 com o Cerro Porteño, perdido por 3 a 2 para o Fluminense e ficado no 0 a 0 diante do Internacional. O futebol oscilou, como sempre oscila. A obrigação de prestar contas, porém, não pode depender da tabela, do humor da torcida ou de uma noite inspirada do ataque.

Aliás, um clube que se orgulha da própria estabilidade administrativa deveria ser o primeiro a compreender isso. Transparência só tem valor quando cria algum desconforto. Publicar balanço bonito, celebrar faturamento e posar para foto ao lado de troféu é a parte fácil. Difícil é explicar decisões delicadas envolvendo quem examina esses mesmos números.

Gol resolve jogo. Não resolve pergunta.

A torcida palmeirense não precisa conhecer o conteúdo de tratativas eventualmente protegidas por sigilo. Ninguém está pedindo que o clube publique documentos da PGR, invada competências de autoridades ou faça julgamento político em praça pública. O que se cobra é bem mais simples: quais critérios internos permitiram o retorno ao COF?

Essa explicação pode preservar informações confidenciais. Pode citar o estatuto, os procedimentos adotados, os órgãos consultados e a inexistência de impedimento formal, se for esse o caso. Pode ainda esclarecer se Mansur participa normalmente de todas as deliberações ou se existe alguma restrição diante de possíveis conflitos de interesse.

O que não cabe é fingir que a ausência de condenação encerra qualquer discussão. Não encerra. Ela impede que se trate alguém como culpado, mas não dispensa uma entidade privada de avaliar riscos reputacionais, conflitos institucionais e a credibilidade de seus mecanismos de controle.

O COF não pode pedir confiança no escuro

Em clubes brasileiros, conselhos fiscalizadores muitas vezes são apresentados como fortalezas da democracia associativa. Na prática, porém, algumas decisões circulam entre poucos personagens, em corredores onde a transparência entra com dificuldade e ainda precisa mostrar carteirinha.

Palmeiras precisa explicar por que Mansur voltou a fiscalizar as contas

O Palmeiras tem estrutura, recursos e departamento jurídico suficientes para não cair nesse vício. Não se trata de alimentar disputa política interna nem de oferecer munição a grupos de oposição. A melhor maneira de impedir exploração eleitoral do episódio é justamente retirar o assunto da névoa.

Uma manifestação pública deveria informar, no mínimo, a data do retorno, o procedimento que o autorizou, as instâncias ouvidas e o fundamento institucional da decisão. Se a licença foi voluntária e sua interrupção dependia apenas da vontade do próprio conselheiro, o clube também deve dizer. Talvez a resposta seja estatutariamente simples. Politicamente, não é.

O silêncio protege menos a instituição do que aqueles que preferem não prestar explicações.

E há um detalhe decisivo: a cobrança não deve ser dirigida apenas a Mansur. A responsabilidade principal é de quem administra os ritos do Palmeiras e permitiu que a retomada da função ocorresse sem esclarecimento público suficiente. Personalizar toda a questão nele seria conveniente para o clube, que passaria de agente da decisão a mero espectador do episódio.

Não é espectador.

O Palmeiras deve publicar a justificativa do retorno, indicar os critérios utilizados e deixar claro como preservará a independência do COF. Sem prejulgar Mansur, sem espetáculo e sem tribunal de rede social. Apenas fazendo aquilo que qualquer instituição séria exige de quem cuida de suas contas: documentação, coerência e resposta direta.

Se não fizer isso, “governança” continuará sendo uma palavra bonita na apresentação de PowerPoint — ótima para impressionar patrocinador, péssima para responder à única pergunta que importa: por que fevereiro exigiu uma licença e agosto autorizou a volta?