Santos terceiriza ao Genoa a avaliação de Robinho Jr. que não soube fazer
Renovado até 2031 e emprestado meses depois, Robinho Jr. pode ganhar minutos na Itália. Para o Santos, a opção de € 8 milhões expõe o improviso.
3 de setembro de 2026

O empréstimo ao Genoa pode ser ótimo para Robinho Jr. O problema é justamente esse: para descobrir se o garoto merece jogar, o Santos precisou mandá-lo para outro continente.
Renovado até 2031 e liberado meses depois, o jogador desembarca na Itália com uma missão que deveria ter sido cumprida na Vila Belmiro: ganhar sequência, enfrentar cobrança de verdade e mostrar qual é o tamanho do seu futebol. Se der certo, o Genoa terá uma opção de compra de € 8 milhões. Se não der, o Santos recebe de volta um ativo que continuará cercado pelas mesmas perguntas.
É um acordo potencialmente útil para o atleta e bastante revelador sobre o clube.
O Santos não traçou um caminho para Robinho Jr.; apenas encontrou uma saída.
Contrato longo, convicção curta
Renovar até 2031 foi uma forma de proteger patrimônio. Até aí, nada de absurdo. Clube formador que deixa uma promessa entrar na reta final do contrato merece ser obrigado a assistir a uma palestra de quatro horas sobre gestão esportiva — sem intervalo e com o projetor falhando.
O que incomoda é a sequência dos atos. O Santos amarrou o jogador por longo prazo e, poucos meses depois, concluiu que não havia espaço, ambiente ou coragem para utilizá-lo. Contrato de seis anos no papel; paciência de seis minutos na prática.

É possível renovar e emprestar? Claro. Grandes clubes fazem isso o tempo inteiro. A diferença está na existência de um plano. Qual característica o Santos esperava desenvolver? Quantos minutos pretendia oferecer? Em qual função? O empréstimo era parte do processo ou virou solução de emergência quando a comissão técnica olhou para o banco e não encontrou lugar para o garoto?
A impressão, hoje, é de improviso. E planejamento improvisado é aquele velho clássico do futebol brasileiro: todo mundo garante que existe, mas ninguém sabe apontar onde está.
Justamente agora, sem espaço?
O contexto esportivo torna a decisão ainda mais incômoda. Nos cinco resultados recentes apresentados, o Santos marcou apenas dois gols. Foram três empates, uma vitória e uma derrota. O time passou em branco diante de Macará e Palmeiras — duas vezes — e sofreu um 3 a 0 no confronto de ida da Copa do Brasil.
Na volta, o 0 a 0 contra o Palmeiras confirmou uma noite de ataque estéril. Antes disso, houve a importante vitória por 1 a 0 sobre o Corinthians, resultado valioso, daqueles que aliviam ambiente e compram alguns dias de paz. Mas uma exceção não apaga o diagnóstico: falta produção ofensiva.
Ninguém sério pode afirmar que Robinho Jr. resolveria sozinho esse problema. Colocar essa responsabilidade em um jovem seria como entregar a chave do ônibus a quem acabou de tirar carteira e reclamar porque ele não chegou antes do trânsito. A questão é outra: se nem em um ataque com dificuldade para marcar havia espaço para testá-lo, quando haveria?
Promessa não precisa de tapete vermelho. Precisa de minutos e de uma função clara.
O Santos poderia concluir, depois de observações internas, que o jogador ainda não estava pronto. É uma avaliação legítima. Nesse caso, porém, deveria escolher um destino no qual mantivesse controle mais próximo sobre o desenvolvimento — e, sobretudo, evitar entregar tão cedo ao clube receptor a possibilidade de capturar a valorização por um preço previamente fixado.
Os € 8 milhões são teto, não garantia
A opção de compra costuma produzir uma ilusão confortável. O torcedor lê “€ 8 milhões” e já começa a fazer conta, separar verba para reforços e imaginar comunicado de venda. Só que opção não é obrigação. O Genoa comprará se entender que o negócio vale a pena. Se Robinho Jr. não convencer, basta devolvê-lo.
A assimetria é evidente. O clube italiano ganha tempo para avaliar o jogador dentro de sua rotina, de seu campeonato e de suas necessidades. Se ele explodir, há um valor estabelecido. Se não funcionar, o risco esportivo é limitado. Ao Santos resta torcer para que o atleta jogue o suficiente para valorizar — mas não tanto a ponto de fazer os € 8 milhões parecerem uma pechincha.
Opção de compra não é venda encaminhada; é o direito de o outro clube decidir depois.
Esse é o ponto central. O Genoa não está pagando € 8 milhões para descobrir Robinho Jr. Está reservando a possibilidade de pagá-los caso o descubra. Quem abriu mão da primeira avaliação prática foi o Santos.
Pode acontecer de o jovem encontrar na Itália um ambiente mais organizado, treinos mais exigentes e uma comissão disposta a tolerar os erros naturais de formação. Pode voltar mais pronto. Também pode render tão bem que o Genoa exerça a cláusula sem hesitar. Em ambos os cenários, haverá mérito do atleta — e uma pergunta constrangedora na Vila: por que foi necessário atravessar o Atlântico para enxergar o que estava dentro de casa?
Bom para o jogador, ruim para a narrativa do clube
Para Robinho Jr., sair talvez seja a decisão correta. Ficar apenas como nome promissor, treinando e esperando uma chance que nunca chega, não desenvolve ninguém. Jogador jovem precisa competir. Precisa errar um domínio, tomar bronca, acertar uma jogada, começar no banco, entrar com o jogo pegando fogo. Formação não acontece em postagem de rede social.
O Genoa oferece a possibilidade de ruptura com o peso da expectativa santista. Na Itália, ele poderá ser avaliado pelo que entregar, não apenas pelo sobrenome, pela origem ou pelo rótulo de joia. Isso pode fazer muito bem.
Para a diretoria do Santos, entretanto, o acordo não merece ser vendido como uma obra sofisticada de engenharia de mercado. É uma correção de rota. Talvez necessária, possivelmente benéfica, mas ainda assim uma correção de rota.
Quando um clube formador terceiriza a coragem de usar seus jovens, deixa de formar e passa apenas a exportar dúvidas.
O maior erro agora seria comemorar antecipadamente os € 8 milhões. O Santos deveria acompanhar cada minuto, cobrar relatórios, manter diálogo com o jogador e preparar dois planos concretos: um para a venda e outro para a volta. Porque, se Robinho Jr. retornar em 2027 ou depois e o clube continuar sem saber o que fazer com ele, já não será falta de informação.
Será reincidência.
Matérias relacionadas

A Adidas obrigou o Santos a pôr preço no próprio tamanho
Com seis anos e presença em cerca de 120 lojas, a proposta expõe o ponto central: a Umbro só cobre a oferta se igualar também a distribuição global.

O Santos apostou o ombro de Brazão nas copas — e perdeu dos dois lados
Ao adiar uma cirurgia já considerada necessária, o Santos usou a saúde de Brazão como seguro nas copas. Foi eliminado e agora fica sem o titular.

Vaiaram Coutinho até a saída. Sete meses depois, chamam de Judas
Coutinho decepcionou em campo, mas não traiu o Vasco: depois de vaiá-lo até a rescisão, cobrar fidelidade eterna é crueldade vestida de paixão.