São Paulo passa pelo Bolívar, mas Dorival só comprou tempo — não absolvição

Luciano, Calleri e Sabino garantiram o 3 a 1 e o duelo com o Boca, mas a vaga não apaga a irregularidade: Dorival terá três jogos para dar peso ao time.

19 de agosto de 2026

São Paulo passa pelo Bolívar, mas Dorival só comprou tempo — não absolvição

A classificação veio. A absolvição, não.

O São Paulo venceu o Bolívar por 3 a 1, avançou na Copa Sul-Americana e entregou ao torcedor aquilo que a noite exigia: gols de Luciano, Calleri e Sabino, vaga assegurada e um encontro daqueles com o Boca Juniors na fase seguinte. Depois do empate por 1 a 1 na Bolívia, o placar agregado de 4 a 2 não deixa espaço para contestação.

Mas também não convém confundir uma vitória necessária com uma virada definitiva de chave. Dorival Júnior saiu fortalecido, evidentemente. Só que saiu fortalecido como quem ganha alguns minutos extras no estacionamento antes de o guincho chegar. O carro continua no lugar errado.

Dorival comprou tempo. O São Paulo ainda precisa comprar a ideia dele.

Essa diferença é o centro da discussão. O mata-mata premia quem resolve o problema da noite, e nisso o Tricolor cumpriu o serviço. Luciano apareceu, Calleri fez o que se espera de um centroavante de peso e Sabino ajudou a fechar a conta. Em competição continental, não se pede desculpa por avançar. Vaga não tem asterisco, nem exige certificado de beleza.

Ainda assim, o desconforto permanece porque o contexto não desaparece ao primeiro grito de gol. Antes do 3 a 1, o São Paulo vinha de um empate em casa com o Coritiba. Havia empatado com o próprio Bolívar na ida, perdido por 2 a 1 para o Grêmio e ficado no 1 a 1 com o Flamengo. Nos cinco resultados mais recentes, esta foi a primeira vitória.

Não é exatamente uma sequência que faça o Boca perder o sono. No máximo, trocar o travesseiro.

A vaga vale muito — e não vale tudo

Seria injusto tratar a classificação como obrigação burocrática, quase um reconhecimento de firma. Mata-mata sul-americano costuma transformar favoritismo em areia movediça. O Bolívar já havia mostrado na ida que não seria um figurante disposto a posar para a foto. O São Paulo precisava vencer e venceu, marcando três vezes. Ponto para o time. Ponto para Dorival.

O problema começa quando se tenta usar essa atuação como borracha para apagar as anteriores. O empate com o Coritiba não foi um acidente isolado dentro de uma campanha sólida. A derrota para o Grêmio também não. São peças de um mesmo retrato: um time que ainda alterna momentos de autoridade com longos períodos de pouca convicção.

E time grande sem convicção joga carregando o próprio escudo nas costas. O símbolo pesa, a camisa cobra e qualquer passe lateral parece acompanhado por uma assembleia de condomínio nas arquibancadas.

São Paulo passa pelo Bolívar, mas Dorival só comprou tempo — não absolvição

Dorival conhece esse mecanismo. Também sabe que o resultado lhe oferece uma oportunidade rara no futebol brasileiro: trabalhar depois de uma noite positiva, sem precisar responder a cada pergunta como se estivesse diante de uma comissão parlamentar de inquérito. É aí que entram os próximos três jogos.

Não como prazo inventado para alimentar crise. Como prova.

Os próximos três jogos dirão se o 3 a 1 foi uma arrancada ou apenas um intervalo na irregularidade.

O São Paulo precisa dar peso ao próprio futebol. Isso significa repetir comportamentos, não necessariamente escalações. Precisa mostrar que consegue controlar partidas sem depender de um susto para acordar; que pode atacar sem se desmontar; que seus jogadores decisivos não terão de resolver toda noite no braço, na raça e na memória afetiva do torcedor.

Luciano e Calleri são atalhos valiosos, mas não podem ser o mapa inteiro. Quando os dois aparecem, o time ganha presença, personalidade e gol. Quando não aparecem, é responsabilidade do treinador construir outras respostas. Esperar que a dupla salve cada roteiro seria como escalar o Morumbi para bater escanteio: grandioso na imaginação, pouco prático na vida real.

Dorival é o responsável pela próxima etapa

Aqui não há espaço para dividir a culpa em dezessete parcelas sem juros. O elenco pode entregar mais, claro. Há jogadores abaixo do nível esperado, decisões ruins e oscilações individuais. Mas fazer o São Paulo deixar de parecer um conjunto de boas peças procurando instruções é tarefa de Dorival.

O treinador não precisa transformar a equipe numa máquina em três partidas. Precisa, porém, apresentar evidências. Um padrão mais reconhecível. Uma postura menos dependente do estado emocional do jogo. Um time que saiba por onde atacar e, principalmente, o que fazer quando o plano inicial trava.

A classificação sobre o Bolívar garante o direito de continuar tentando. Não garante que o trabalho esteja no caminho certo.

Esse é o perigo das noites de mata-mata: o placar acende todas as luzes e deixa alguns defeitos escondidos no canto do palco. O 3 a 1 foi convincente no que mais importa — a bola na rede. Só não pode servir de argumento para ignorar uma sequência em que o São Paulo havia empatado três vezes e perdido uma.

Diante do Boca, esse tipo de oscilação cobra pedágio. E cobra em dólar.

Um duelo de gigantes — mas ninguém chega de peito estufado

São Paulo e Boca dispensam apresentação. A camisa entra em campo antes dos jogadores, a arquibancada trata cada dividida como questão diplomática e qualquer erro ganha tamanho histórico. É um confronto com cheiro de continente, mesmo quando os times ainda estão longe de suas versões mais imponentes.

E talvez justamente por isso seja tão interessante. Não haverá um colosso perfeito encarando um adversário em ruínas. Haverá dois gigantes tentando provar que o passado ainda pode empurrar o presente — sem deixar que o presente tropece no próprio cadarço.

São Paulo passa pelo Bolívar, mas Dorival só comprou tempo — não absolvição

O São Paulo não deve temer o Boca. Deve temer a sua própria instabilidade. O adversário será pesado, a atmosfera será pesada, a eliminatória será pesada. Se o futebol tricolor continuar leve demais, quase sem deixar marca de uma partida para outra, a camisa não resolverá tudo sozinha.

Contra o Boca, tradição ajuda a entrar em campo. Quem fica em campo é o time.

Por isso, a vitória sobre o Bolívar precisa ser tratada como ponto de partida, não como salvo-conduto. Dorival merece respirar depois da classificação. Merece elogio pela resposta dada no jogo que não permitia hesitação. Mas agora tem três partidas para provar que a equipe encontrou mais do que gols numa noite decisiva.

O maior erro seria usar a vaga para baixar a cobrança. É hora de aumentá-la.

O 3 a 1 salvou a semana, preservou o treinador e devolveu algum entusiasmo ao ambiente. Ótimo. Só que o Boca já aparece no horizonte, e camisa pesada reconhece de longe quando o adversário ainda está procurando equilíbrio.

Dorival ganhou tempo. A auditoria continua marcada.