São Paulo rejeitou o antídoto enquanto a investigação seguia aberta
Com o inquérito sobre possíveis desvios mantido, o Conselho enterrou a reforma de controle. Não foi prudência estatutária: foi autoproteção política.
28 de agosto de 2026

O São Paulo escolheu o pior momento possível para dizer “não” a mais controle.
Com o inquérito sobre possíveis desvios ainda aberto, o Conselho Deliberativo enterrou uma reforma criada justamente para reforçar fiscalização, transparência e independência interna. Convém separar as coisas: investigação não é condenação, suspeita não é prova e ninguém deve ser declarado culpado no grito. Mas prudência jurídica também não pode servir de fantasia para covardia política.
Presunção de inocência protege pessoas. Falta de transparência protege estruturas.
A decisão do Conselho não absolve ninguém, tampouco comprova irregularidade. Ela apenas revela algo politicamente constrangedor: diante da oportunidade de fechar brechas, o clube preferiu mantê-las abertas. É como descobrir fumaça na cozinha e votar contra o extintor porque o regulamento do condomínio ainda está em revisão.

O estatuto virou escudo
A justificativa formal costuma vir embrulhada em expressões respeitáveis: segurança estatutária, competência dos órgãos, necessidade de amadurecimento, risco de atropelo. Tudo muito sóbrio, muito jurídico, muito engravatado. O problema é que, no futebol brasileiro, a burocracia frequentemente aparece com a velocidade de um ponta quando o assunto é impedir mudanças — e com a arrancada de um zagueiro veterano aos 48 do segundo tempo quando chega a hora de prestar contas.
Se o texto da reforma tinha falhas, que fosse corrigido. Se havia conflito com o estatuto, que se apresentasse uma redação alternativa. Se algum dispositivo concentrava poder demais, que fosse refeito em público, com prazo e compromisso de nova votação.
O que não se sustenta é usar defeitos corrigíveis para matar o princípio da mudança.
Porque o princípio era simples: quem administra patrimônio alheio precisa aceitar controle real. Controle que alcance contratos, documentos, fluxos de pagamento e decisões relevantes. Não uma comissão decorativa, convocada depois do estrago para produzir um relatório que termina esquecido numa gaveta.
Quem considera fiscalização uma ameaça já explicou mais do que pretendia.
A cifra de R$ 7 milhões associada às suspeitas torna a recusa ainda mais indefensável. Não se trata de afirmar que o valor foi desviado nem de antecipar o desfecho do inquérito. Trata-se de compreender a gravidade do ambiente. Quando uma quantia desse tamanho paira sobre a instituição, ampliar os mecanismos de controle deveria ser reação automática — quase um reflexo de goleiro. No Morumbi, porém, preferiram discutir se a luva estava prevista no estatuto.

O futebol oferece distrações convenientes
O time ajuda a embaralhar a conversa. Na Sul-Americana, o São Paulo eliminou o Bolívar depois de empatar por 1 a 1 fora e vencer por 3 a 1 em casa. Uma classificação segura, daquelas que dão ao torcedor algumas horas de alívio e à política do clube uma cortina providencial.
No Campeonato Brasileiro, porém, o cenário recente foi bem menos simpático: derrota por 2 a 1 para o Grêmio, empate por 1 a 1 com o Coritiba e revés por 1 a 0 diante da Chapecoense. O campo oscila, como sempre. Ganha uma, tropeça em outra, muda a escalação, discute-se o centroavante. Na arquibancada, a indignação corre atrás da bola.
E é justamente aí que dirigentes encontram abrigo. Uma vitória continental ocupa programas esportivos; uma derrota no Brasileiro incendeia redes sociais; uma crise de bastidor passa no rodapé. O torcedor sabe de cor quem perdeu a chance na pequena área, mas dificilmente recebe com a mesma clareza quem votou contra um mecanismo de controle e por quê.
Isso precisa mudar.
O placar dura uma noite. Uma estrutura sem fiscalização pode cobrar a conta por décadas.
Não há contradição entre discutir futebol e exigir governança. Pelo contrário. Elenco competitivo, estádio, base, contratações e pagamento de dívidas dependem do mesmo dinheiro cuja gestão precisa ser protegida. Cada real desperdiçado fora do campo reaparece lá dentro na forma de reforço que não chega, salário atrasado, venda apressada de promessa ou dívida empurrada ao próximo presidente.
A política interna do São Paulo ainda funciona em boa parte como condomínio antigo: todo mundo conhece todo mundo, ninguém quer brigar no elevador e qualquer proposta de auditoria parece uma ofensa pessoal ao síndico. Só que clube de massa não é reunião de amigos. O patrimônio pertence à instituição, e a instituição existe muito além dos mandatos e das alianças de ocasião.
A investigação não autoriza espera; exige resposta
Há quem diga que seria melhor aguardar o fim do inquérito antes de alterar as regras. É exatamente o contrário. A manutenção da investigação mostra que existe uma dúvida relevante a ser esclarecida. Enquanto autoridades apuram responsabilidades individuais, cabe ao clube reduzir riscos institucionais.
Uma frente não anula a outra.
Esperar a conclusão para então pensar em prevenção seria como instalar a catraca depois que todo mundo já entrou sem ingresso. A reforma não precisava apontar culpados. Precisava impedir que contratos e movimentações sensíveis permanecessem submetidos a controles frágeis, dependentes demais das mesmas relações políticas que deveriam fiscalizar.
O maior erro do Conselho foi tratar a proposta como disputa de poder, e não como proteção ao São Paulo. Nesse tipo de votação, os grupos internos pensam primeiro em quem ganha acesso, quem perde influência, quem passa a responder perguntas incômodas. O clube fica para depois — sempre depois, esperando na recepção enquanto os donos da chave discutem o tamanho do próprio gabinete.
Não basta agora divulgar nota reafirmando compromisso com transparência. Transparência de nota oficial é fácil: vem diagramada, revisada e sem uma única pergunta inconveniente. O compromisso precisa aparecer em medidas concretas.
A reforma deve voltar à pauta, com texto público, calendário definido e votação identificada. Conselheiros contrários precisam explicar objetivamente quais artigos rejeitam e apresentar alternativas. Também é indispensável garantir acesso efetivo a documentos e controles independentes, sem filtros criados por quem pode ser fiscalizado.
Sigilo pode proteger uma investigação. O silêncio político só protege quem prefere não dar explicações.
O São Paulo não pode controlar o tempo do inquérito nem antecipar seu resultado. Pode, sim, decidir que tipo de instituição deseja ser enquanto ele avança. Ao rejeitar o antídoto, o Conselho fez sua escolha: preservou o arranjo político antes de preservar a confiança do torcedor.
Agora terá de voltar atrás. Não como gesto de grandeza, mas por obrigação. Afinal, quando a casa está sob suspeita, trancar o armário e esconder a chave não é cautela estatutária.
É autoproteção com gravata e distintivo na lapela.
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