Seis brasileiros, nenhuma vitória: a Libertadores cobrou a conta da soberba

Os empates mantiveram as oitavas abertas, mas expuseram um velho engano: dinheiro ajuda fora do campo; na Libertadores, ninguém larga na frente.

14 de agosto de 2026

Seis brasileiros, nenhuma vitória: a Libertadores cobrou a conta da soberba

A conta chegou sem derrota, o que talvez seja a maneira mais debochada de a Libertadores dar um puxão de orelha. Foram seis brasileiros em campo, cinco confrontos, cinco empates e nenhuma vitória. Tudo aberto para a volta — e justamente por isso o alerta merece ser levado a sério.

Fluminense, Palmeiras e Mirassol não aproveitaram o mando. Corinthians trouxe um 0 a 0 de Rosário. Cruzeiro e Flamengo, no duelo doméstico das oitavas, ficaram no 1 a 1. Ninguém está eliminado, ninguém precisa decretar terra arrasada, mas aquela conversa preguiçosa de que o poder financeiro brasileiro transformou o torneio numa espécie de Copa do Brasil com escala no aeroporto levou um belo drible.

Na Libertadores, o extrato bancário não entra em campo — e, quando entra, marca mal.

O dinheiro explica a profundidade do elenco, a contratação cara, a recuperação de um jogador e a capacidade de atravessar uma temporada longa. Não compra vantagem no placar antes de a bola rolar. Também não amansa estádio, não reduz altitude e, definitivamente, não convence adversário algum a aceitar o papel de figurante.

Seis brasileiros, nenhuma vitória: a Libertadores cobrou a conta da soberba

O problema não foram apenas os resultados. Foi o contraste entre a expectativa e o que ficou para ser resolvido. O Brasil abriu as oitavas imaginando que pelo menos parte dos confrontos estaria encaminhada. Terminou a rodada fazendo contas, escolhendo voos e consultando a previsão do tempo. A calculadora da “superioridade financeira” tropeçou nos próprios números como centroavante tentando cobrar escanteio e cabecear ao mesmo tempo.

O Fluminense adiou um problema que já estava na porta

O 0 a 0 com o Independiente Rivadavia, no Rio, não apareceu do nada. O Fluminense já vinha de outro empate sem gols, contra o Bahia, de um 0 a 0 com o Vasco e da derrota por 3 a 1 no segundo jogo da Copa do Brasil. Depois, empatou por 1 a 1 com o Botafogo. Ou seja: em cinco partidas, nenhuma vitória e apenas dois gols marcados.

Não há como tratar a falta de produção como acidente isolado. O empate manteve o confronto equilibrado, sim, mas transferiu a decisão para Mendoza. O Independiente Rivadavia saiu com aquilo que queria; o Fluminense, com aquilo que não podia permitir: uma eliminatória curta transformada em jogo único fora de casa.

O maior erro seria buscar conforto no argumento de que “basta vencer a volta”. Claro que basta. Também basta acertar os números da loteria. A questão é criar condições para isso.

Empate não é tragédia. A soberba antes dele é.

Palmeiras dominou a expectativa, não o confronto

O Palmeiras chegou ao 1 a 1 com o Cerro Porteño carregando resultados recentes que autorizavam confiança. Havia goleado o Vitória por 4 a 0 e vencido o Fortaleza por 3 a 0 antes de perder a volta da Copa do Brasil por 3 a 2. Depois veio o 0 a 0 com o Internacional. Contra os paraguaios, mais um empate.

Não é uma crise. Nem perto disso. Mas é uma perda de oportunidade bastante concreta. O Palmeiras tinha em casa a chance de construir a vantagem e agora terá de encarar Assunção com o confronto zerado. O Cerro não precisa ser melhor tecnicamente durante 180 minutos; precisa sobreviver, incomodar e transformar a volta numa noite nervosa. É o manual mais antigo do mata-mata sul-americano, provavelmente escrito numa prancheta suja de lama.

A camisa alviverde tem experiência suficiente para não entrar em pânico. Tem também experiência suficiente para saber que desperdiçou uma ocasião valiosa. Uma coisa não anula a outra.

Cruzeiro e Flamengo fizeram o empate mais previsível — e mais traiçoeiro

No duelo entre brasileiros, alguém necessariamente sairia sem vencer. Saíram os dois. O 1 a 1 em Belo Horizonte entrega ao Flamengo o mando da volta, mas seria um erro enorme enxergar nisso uma passagem antecipada.

O Cruzeiro vinha embalado: venceu Coritiba, Chapecoense e Mirassol antes do confronto. O Flamengo, por sua vez, havia goleado a Chapecoense por 4 a 0, empatado com São Paulo e Internacional e batido o Vitória por 2 a 0. Eram equipes em trajetórias competitivas, não dois times procurando o manual de instruções.

O resultado favorece emocionalmente o Flamengo porque desloca a decisão para sua casa. Só que favoritismo emocional não vale gol. O Cruzeiro mostrou na sequência anterior que sabe competir e chega à volta sem precisar inventar futebol. Para o Rubro-Negro, o perigo está justamente na tentação de confundir mando com classificação.

Quem entra para administrar um empate costuma descobrir, tarde demais, que o jogo também sabe fazer contas.

Mirassol aprendeu a crueldade do “quase”

Entre os seis brasileiros, o Mirassol era quem tinha menos espaço para desperdiçar o mando. O 1 a 1 com a LDU, portanto, pesa mais do que o mesmo placar em outros confrontos. Não por falta de qualidade, mas pelo destino da volta: Quito não costuma oferecer hospitalidade esportiva, oxigênio de cortesia ou minutos tranquilos.

A equipe já chegava pressionada pelos resultados anteriores. Depois de vencer o Remo por 2 a 1, empatou com o Grêmio por 1 a 1, perdeu a volta por 1 a 0 e caiu por 3 a 1 diante do Cruzeiro. Contra a LDU, deixou escapar a chance de viajar com alguma gordura.

Agora será preciso competir com a bola e com o ambiente. A altitude não chuta, é verdade, mas cobra juros de quem corre errado. Para o Mirassol, a solução não pode ser subir ao Equador apenas para resistir. Passividade em Quito é convite para passar 90 minutos vendo o relógio andar de muletas.

Seis brasileiros, nenhuma vitória: a Libertadores cobrou a conta da soberba

O único brasileiro que voltou com sensação de missão cumprida

O Corinthians foi a exceção no contexto, embora não no placar. Empatar por 0 a 0 com o Rosario Central na Argentina é um resultado bem mais aceitável do que tropeçar em casa. O time levou a decisão para seus domínios e escapou do tipo de descontrole que tantas vezes transforma uma noite argentina numa sequência de faltas, cartões e reclamações com o árbitro em três sotaques diferentes.

Também havia sinais de recuperação. O Corinthians venceu o Internacional por 2 a 1 na Copa do Brasil e o Bragantino por 2 a 0 no Brasileiro antes da viagem. Ainda assim, convém não romantizar demais o empate. O Rosario Central atravessará a fronteira sabendo que uma vitória simples resolve tudo e que um gol pode incendiar a volta.

O Corinthians fez o resultado mais útil dos brasileiros. Não fez um resultado definitivo.

A conta real não é financeira

Os cinco empates não provam uma queda estrutural do futebol brasileiro, tampouco anunciam o fim de sua força continental. Seria exagero de mesa-redonda depois da meia-noite. O que eles desmontam é outra coisa: a noção de que a diferença econômica permite atravessar eliminatórias no piloto automático.

Não permite.

Fluminense, Palmeiras e Mirassol entregaram o mando sem vantagem. Flamengo e Cruzeiro deixaram o duelo nacional em estado puro de decisão. O Corinthians fez fora de casa o que os outros não conseguiram fazer diante de suas torcidas: saiu sentindo que o plano funcionou.

A rodada de volta cobrará postura, não currículo. Fluminense terá Mendoza; Palmeiras, Assunção; Mirassol, Quito. Cruzeiro e Flamengo carregarão toda a tensão de um clássico brasileiro para dentro da Libertadores. O Corinthians receberá um adversário argentino que adora o tipo de jogo em que cada lateral vira assembleia de condomínio.

A Libertadores não ficou mais fácil para os brasileiros; os brasileiros é que ficaram confortáveis demais com a própria fama.

Ainda há tempo para corrigir. Mas corrigir exige reconhecer o erro: dinheiro ajuda a montar o time, não a jogar por ele. Quem continuar confundindo orçamento com vantagem pode descobrir que a taça, além de pesada, tem um senso de humor bastante cruel.