Seis vagas, pouca certeza: a supremacia brasileira vai a julgamento na Libertadores
A Libertadores volta com seis brasileiros nas oitavas, mas a fartura de vagas esconde times instáveis e uma supremacia que ainda vive mais na planilha.
9 de agosto de 2026

Seis clubes nas oitavas. Parece demonstração de força, quase uma ocupação territorial. Mas basta tirar a fotografia da planilha e olhar para o campo: há um favorito em boa fase, dois gigantes oscilando, duas equipes feridas pelo calendário doméstico e um estreante tentando não ser engolido pela própria aventura.
A delegação brasileira chega numerosa. Não chega exatamente imponente.
Quantidade coloca bandeira no chaveamento. Supremacia se prova quando a bola começa a queimar.

O pavão abriu as seis penas, fez pose para a câmera e agora precisa andar sem tropeçar. É esse o tamanho do desafio. O dinheiro do futebol brasileiro, a profundidade dos elencos e a capacidade de contratar seguem muito acima da média continental. Só que a Libertadores nunca foi uma auditoria de orçamento. Se fosse, bastava mandar o balanço financeiro para a Conmebol e buscar a taça em Assunção.
Mata-mata cobra outra moeda: convicção. E convicção, hoje, está em falta para boa parte dos brasileiros.
Cruzeiro e Flamengo: uma vaga que já nasce com dono brasileiro — e um eliminado também
A primeira crueldade do chaveamento está na catraca compartilhada por Cruzeiro e Flamengo. Um deles estará nas quartas. O outro transformará a fartura brasileira em discurso de crise antes mesmo de setembro.
Pelo momento, o Cruzeiro chega mais inteiro. Depois da derrota por 1 a 0 para o Botafogo, respondeu vencendo o Coritiba fora, eliminando a Chapecoense na Copa do Brasil e batendo o Mirassol por 3 a 1. Não é uma sequência espetacular de videogame, mas há uma coisa valiosa ali: o time parece saber o que deseja fazer com a partida.
O Cruzeiro atual não depende de um roteiro perfeito. Consegue controlar, sofrer quando necessário e acelerar sem transformar cada ataque em uma assembleia de condomínio. Em confronto eliminatório, isso pesa.
O Flamengo tem teto técnico mais alto. Também tem o hábito irritante de deixar o adversário descobrir que pode competir. Venceu o Benfica por 2 a 1 em amistoso, fez 4 a 2 no Olimpia e atropelou a Chapecoense por 4 a 0. Parecia ganhar tração. Depois vieram dois empates por 1 a 1, contra São Paulo e Internacional, com a sensação familiar de uma equipe capaz de produzir muito e mandar pouco no próprio destino.
Não há motivo para tratar o Flamengo como coitado — seria como oferecer boia a um transatlântico porque caiu uma garoa. O elenco continua sendo um dos mais poderosos do continente. Mas nome não marca pressão, folha salarial não acompanha lateral e camisa pesada também fica pesada para quem joga sem clareza.
O Flamengo assusta pelo que pode jogar. O Cruzeiro convence pelo que está jogando.
Hoje, a vantagem moral é mineira. O maior erro rubro-negro seria entrar no duelo acreditando que a classificação virá por gravidade, puxada pelo escudo. A Libertadores tem especial prazer em humilhar esse tipo de certeza.

Palmeiras: o candidato mais confiável, embora longe de ser uma máquina
Se há um brasileiro em quem se pode confiar pela estrutura competitiva, é o Palmeiras. Não porque esteja jogando um futebol imperial, mas porque sabe atravessar semanas ruins sem incendiar o prédio para matar uma barata.
A sequência recente resume bem a ambiguidade. O time perdeu em casa para o Atlético-MG por 2 a 1 e, dias depois, goleou o Vitória por 4 a 0. Na Copa do Brasil, abriu 3 a 0 sobre o Fortaleza, perdeu a volta por 3 a 2 e avançou. Depois, ficou no 0 a 0 com o Internacional.
É oscilação, claro. Só que existe diferença entre oscilar com método e oscilar no escuro. O Palmeiras ainda tem mecanismos reconhecíveis, repertório para jogos amarrados e a paciência de quem não confunde ansiedade da arquibancada com necessidade de abandonar o plano.
Isso faz dele o brasileiro mais confiável da chave, ainda que o Cruzeiro apresente o melhor momento. Em Libertadores, saber jogar mal sem se desmontar é quase uma especialidade. Não rende compilação bonita, mas rende passagem de fase.
Favoritismo de verdade não é prometer espetáculo; é continuar vivo quando o espetáculo não aparece.
Fluminense: a camisa ainda fala, mas o campo anda cochichando
O Fluminense chega às oitavas carregando mais dúvidas do que soluções. Empatou com Grêmio e Bahia, ambos por placares apertados ou sem gols, e ficou no 1 a 1 com o Botafogo. No meio disso, caiu na Copa do Brasil diante do Vasco: 0 a 0 na ida e derrota por 3 a 1 no Maracanã.
Não foi apenas uma eliminação. Foi um aviso. O time tem encontrado dificuldades para transformar posse em domínio e domínio em perigo real. A bola circula, pede licença, passa pela sala e, muitas vezes, vai embora sem incomodar o goleiro adversário. É futebol com etiqueta demais para um torneio que costuma entrar de chuteira suja.
O Fluminense ainda possui experiência, jogadores acostumados a noites grandes e uma identidade que pode reaparecer. Mas não dá para tratar memória como desempenho atual. O passado ajuda a suportar pressão; não ganha dividida em 2026.
Seu verdadeiro adversário nas oitavas será a lentidão. Se insistir em amadurecer cada jogada até ela pedir aposentadoria, estará fora.
Corinthians: sobreviver não pode ser o único plano
O Corinthians vive aquela fase em que todo jogo parece disputado dentro de um elevador lotado: pouco espaço, muito empurra-empurra e ninguém chega rapidamente ao andar desejado.
Depois de vencer o Remo por 3 a 0, empatou com Bahia e Athletico-PR. Na Copa do Brasil, perdeu a ida para o Internacional por 2 a 0 e até ganhou a volta por 2 a 1, mas a reação foi insuficiente. A vitória sem classificação serviu mais como atestado de atraso do que como consolo.
O Corinthians tem competitividade, torcida capaz de alterar a temperatura de uma noite e talento para endurecer qualquer confronto. Falta, porém, uma ideia ofensiva mais robusta. Não se pode passar 180 minutos esperando que a mística resolva o que a criação não resolveu. São Jorge ajuda, mas não costuma aparecer livre entre as linhas.
A equipe precisa abandonar a postura de quem entra no mata-mata satisfeito por manter o placar respirando. Libertadores não premia apenas resistência. Em algum momento, é preciso atacar com intenção — e não como quem pede desculpas por estar incomodando.
Mirassol: o intruso que precisa escolher onde gastar o oxigênio
O Mirassol é a história mais simpática entre os seis e, justamente por isso, corre o risco de ser tratado com condescendência. Não deveria. Chegar às oitavas não é brinde, sorteio de shopping ou excursão internacional. Houve mérito.
O problema é o presente. Após vencer o Remo por 2 a 1 e empatar com o Vasco, o time foi eliminado pelo Grêmio na Copa do Brasil — empate por 1 a 1 em casa e derrota por 1 a 0 fora — e depois levou 3 a 1 do Cruzeiro.
A Libertadores oferece prestígio, dinheiro e uma vitrine histórica. O Brasileiro cobra pontos toda semana e mantém o alçapão do Z-4 aberto. Administrar as duas frentes será uma prova de maturidade institucional, não apenas de preparo físico.
O Mirassol não pode entrar em campo apenas para “aproveitar a experiência”. Essa frase é simpática até o adversário fazer 2 a 0. Precisa assumir a condição de azarão como arma: jogo curto, risco controlado, estádio envolvido e nenhuma vergonha de tornar a noite desconfortável. Favorito detesta adversário que não respeita o roteiro.
A supremacia está mesmo ameaçada?
A resposta curta: sim — ao menos a supremacia automática, preguiçosa, baseada na soma dos elencos.
O Brasil continuará tendo mais recursos, mais opções e maior capacidade de corrigir problemas durante a temporada. Isso não está em discussão. O que está em julgamento é a distância entre poder e desempenho. E ela cresceu.
Há seis brasileiros nas oitavas, mas Flamengo e Cruzeiro eliminam um ao outro. O Palmeiras oferece segurança sem brilho constante. Fluminense e Corinthians chegam atingidos por eliminações domésticas e futebol pouco convincente. O Mirassol divide atenção com uma luta muito mais áspera no campeonato nacional.
O cenário não é de desastre. Também não autoriza desfile antecipado.
A Libertadores não está impressionada com os seis brasileiros. Ela quer saber quantos suportam duas noites sem desculpas.
Se fosse necessário apontar uma hierarquia agora, o Cruzeiro teria a melhor forma, o Palmeiras a maior confiabilidade e o Flamengo o maior potencial. Os outros três entram correndo por fora — e sem espaço para romantismo.
A planilha ainda veste verde e amarelo. A bola, inconveniente como sempre, não reconhece supremacia por procuração.
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