Stabile deve se afastar: o Corinthians não pode virar escudo de defesa pessoal

Presunção de inocência evita condenação antecipada, não garante cadeira. O afastamento provisório de Osmar Stabile é um dever institucional do Corinthians.

15 de setembro de 2026

Osmar Stabile segura uma cadeira presa a 15 notas fiscais, ao lado do escudo do Corinthians e de uma porta aberta.

Stabile deve se afastar. Agora.

Osmar Stabile não precisa esperar a Justiça decidir se recebe a denúncia para deixar provisoriamente a presidência do Corinthians. Aliás, é justamente porque ainda não houve julgamento que o gesto precisa ser institucional, não penal. A cadeira presidencial não pode servir de trincheira a quem terá de explicar por que R$ 721.194,66 do clube foram destinados a um serviço apontado pelo Ministério Público como segurança pessoal.

Presunção de inocência protege contra condenação antecipada; não garante cadeira cativa.

Árbitro representando a Justiça e quarto árbitro indicam a saída temporária de Osmar Stabile enquanto dirigentes do Corinthians aguardam.

A denúncia do MP sustenta que o Corinthians fez 15 pagamentos à Bear Security entre 15 de julho de 2025 e 20 de agosto de 2026, em valores de R$ 33 mil a R$ 65 mil. Os serviços teriam começado em julho, mas o contrato formal só teria sido assinado em março de 2026. A acusação reúne notas fiscais, registros de seguranças acompanhando familiares de Stabile em compromissos particulares e uma entrevista na qual o dirigente definiu o trabalho como “segurança VIP ao presidente”.

Osmar Stabile diante de uma conta de R$ 721.194,66 sobre uma mesa com o escudo do Corinthians.

Há mais. Segundo a denúncia, a Bear Security não possuía autorização da Polícia Federal para funcionar como empresa de segurança privada. O MP informou que encaminharia esse ponto à própria PF. E, conforme a Folha, o Corinthians já mantém a Unity na segurança institucional da Neo Química Arena e do Parque São Jorge. A pergunta, portanto, não é apenas quanto se pagou. É por que se pagou, a quem se pagou e em benefício de quem.

A defesa afirma que “a segurança não foi contratada para Osmar como pessoa, mas em razão do cargo” e que ameaças ligadas à presidência também alcançaram sua família. O clube sustenta ainda que a contratação foi autorizada pelo artigo 119, alínea “f”, do estatuto e passou pelo compliance. O MP contesta: o dispositivo trataria de despesas obrigatórias. O artigo 119, convenhamos, não pode virar capa de chuva para qualquer boleto que desabe sobre o Parque São Jorge.

O Corinthians não pode pagar a conta e ainda carregar o desgaste no colo.

Esse é o ponto que torna o afastamento inevitável. Stabile precisa defender a própria conduta, enquanto a presidência deveria defender exclusivamente o Corinthians. As duas tarefas já entraram em choque. O MP pediu bloqueio de R$ 721 mil em bens, ressarcimento e ao menos R$ 540,9 mil por danos morais ao clube, além de cautelares que incluem impedir o dirigente de entrar nas instalações, representar a instituição e manter contato com dirigentes e testemunhas. Nada disso equivale a condenação. Tudo isso inviabiliza a normalidade administrativa.

Quem governa pensando em sobreviver no cargo já deixou de governar o clube.

E o calendário não oferece anestesia. O Corinthians é o 13º colocado do Brasileirão, com 32 pontos em 27 rodadas, lanterna isolado do segundo turno e vindo de quatro derrotas consecutivas na competição. Ao mesmo tempo, recebe o Estudiantes em 16 de setembro, às 21h30, valendo vaga na semifinal da Libertadores após o 1 a 1 em La Plata. Serão 49.984 entradas disponíveis, todas reservadas por membros do Fiel Torcedor em 15 de setembro, embora parte das compras ainda pudesse não ser concluída.

Antes desse estádio pulsar, Stabile deve entregar provisoriamente a caneta e preparar sua defesa longe da presidência.

A defesa é de Stabile; o escudo é do Corinthians.