Vardy no São Paulo: um pôster caro não esconde rachadura
Livre no mercado aos 39 anos, Jamie Vardy seduz pelo currículo. Mas o São Paulo precisa de planejamento e vitórias — não de uma figurinha de luxo.
17 de agosto de 2026

Não.
É uma resposta curta para uma tentação enorme. Jamie Vardy está livre no mercado, carrega uma das histórias mais improváveis do futebol inglês e, mesmo aos 39 anos, ainda tem aquele cheiro de gol que faz dirigente procurar o telefone do empresário. O nome seduz. A foto com a camisa venderia. O anúncio renderia milhões de visualizações.
Mas o São Paulo não precisa vencer a quinta-feira das redes sociais. Precisa voltar a vencer jogos.
Vardy seria um pôster espetacular na parede de uma casa com infiltração.
O empate por 1 a 1 com o Coritiba, no Morumbis, aumentou uma sequência que já incomoda: são cinco partidas sem vitória. Antes, o Tricolor havia empatado com Bolívar e Flamengo, além de perder para Grêmio e Athletico-PR. Nesse recorte, marcou cinco gols, sofreu sete e não conseguiu transformar nenhum lampejo em resultado.
Não é uma crise que se resolve apenas contratando um homem para empurrar a bola para dentro. Se fosse assim, montar elenco seria igual pedir pizza: escolha o tamanho, acrescente um centroavante e espere meia hora.
O currículo entra em campo, mas não corre sozinho
É impossível tratar Vardy como um veterano qualquer. Ele foi o rosto da façanha do Leicester campeão inglês, construiu carreira na base da agressividade, da movimentação nas costas da defesa e de uma competitividade quase antipática — no melhor sentido possível. Nunca precisou parecer elegante. Vardy sempre teve mais cara de sujeito que invade a festa pela cozinha e sai levando o troféu.
Esse passado explica o encanto. Não justifica a contratação.
Aos 39 anos, o inglês chegaria a um campeonato fisicamente exigente, com calendário comprimido, viagens longas e pouquíssimo tempo para adaptação. Também entraria em um elenco que já conta com Calleri, André Silva e Ryan Francisco como opções para o comando do ataque. Pode haver diferenças de perfil entre eles, claro. Ainda assim, a prioridade não está ali.

O São Paulo tem buracos mais urgentes. Precisa de um time que controle melhor os jogos, ofereça sustentação ao ataque e pare de viver de momentos isolados. Precisa olhar para o elenco como uma construção esportiva, não como um álbum em que a figurinha dourada vale mais do que completar as páginas vazias.
Nome grande não corrige ideia pequena.
O problema da equipe ficou exposto nessa sequência. Contra o Flamengo, o empate por 1 a 1 poderia ser lido como um resultado aceitável fora de casa. Só que ele veio entre a derrota por 2 a 1 para o Athletico-PR e o tropeço pelo mesmo placar diante do Grêmio. Depois, mais dois empates. Uma partida isolada permite desculpas; cinco desenham um padrão.
O Tricolor tem competido, mas não tem mandado. Reage mais do que conduz. E um centroavante veterano, por mais inteligente que seja, não vai buscar a bola no pé dos zagueiros, organizar a saída, acelerar a circulação e ainda aparecer na área para concluir. Esperar isso de Vardy seria como contratar um chef famoso para consertar o encanamento do restaurante.
“Sem taxa de transferência” é uma das frases mais perigosas do futebol
Jogador livre não é jogador grátis. Há salário, luvas, comissão, bônus, moradia, logística e todas aquelas pequenas letras que só ficam grandes quando a conta chega. No caso de um atacante com o peso internacional de Vardy, a tendência é que o pacote cobre justamente aquilo que o nome representa.
E o risco esportivo ficaria com o São Paulo.

Se funcionar, haverá gols, manchetes e uma camisa que certamente circulará bastante. Se não funcionar, sobrará um contrato caro, um jogador perto dos 40 anos e a pergunta que ninguém na diretoria vai querer responder: qual era, exatamente, o plano?
Contratações desse tipo costumam ser defendidas com palavras bonitas. “Oportunidade de mercado” é a favorita. Serve para quase tudo, inclusive para decisões que não nasceram de uma necessidade do treinador, mas do fascínio de dirigentes diante de um sobrenome conhecido.
Oportunidade de mercado só é oportunidade quando resolve um problema do campo.
O São Paulo deveria investir os recursos disponíveis em pernas, intensidade e continuidade. Jogadores capazes de participar de uma temporada inteira, não apenas de produzir uma noite nostálgica. O clube precisa diminuir a distância entre os setores, aumentar a capacidade de pressão e construir um elenco que sobreviva ao calendário sem depender de remendos semanais.
Isso não diminui Vardy. Pelo contrário. A carreira dele merece ser tratada com mais respeito do que a caricatura do astro estrangeiro que chega ao Brasil para vender camisa e posar no aeroporto. Se ainda deseja competir, precisa encontrar um projeto montado para potencializar suas características — não um clube tentando usar sua presença como cortina para esconder falhas de planejamento.
Há também uma questão de mensagem interna. O que pensariam os atacantes já presentes no elenco diante da chegada de outro nome para a mesma faixa do campo, provavelmente com salário elevado e enorme atenção pública? Concorrência faz bem. Acúmulo, não. Um elenco desequilibrado pode ter cinco opções para uma função e continuar chegando ao segundo tempo sem saber o que fazer com a bola.
O empate com o Bolívar, por 1 a 1, na Sul-Americana, manteve o São Paulo vivo no confronto continental. Não apagou a dificuldade de impor seu futebol. Tampouco o 1 a 1 com o Coritiba pode ser tratado como simples azar. O time precisa criar soluções coletivas, e essa é uma tarefa muito menos charmosa do que anunciar um campeão inglês.
Justamente por ser menos charmosa, ela exige coragem.
Coragem para dizer não ao nome que domina a reunião. Coragem para mapear carências sem olhar primeiro o número de seguidores. Coragem para contratar dois jogadores úteis em vez de um personagem global. E, sobretudo, coragem para admitir que o torcedor já não compra projeto embalado apenas com música épica e vídeo de apresentação.
O São Paulo não precisa ganhar a janela. Precisa parar de perder o rumo.
Vardy seria assunto, bilheteria e curiosidade. Talvez até fizesse gols, porque quem passou a vida atacando espaço não esquece o caminho de uma hora para outra. Ainda assim, essa é a discussão errada. O maior erro seria confundir capacidade individual com adequação esportiva.
Que o inglês siga sua história em um lugar preparado para recebê-lo. No Morumbis, hoje, a prioridade deve ser outra: montar um time antes de comprar o pôster.
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