14,8% nos clássicos: o Botafogo não pode apertar o reset outra vez

Tite perdeu os dois primeiros jogos, mas o desastre atravessa quatro técnicos. Com 35 pontos, cobrar a permanência é urgente; recomeçar repetiria o erro.

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Tite diante de um botão de reinício, com pranchetas quebradas, um painel de 14,8% e jogadores consertando uma engrenagem.

O botão de reiniciar precisa quebrar.

Duas partidas, duas derrotas e uma expulsão quase pastelão. A largada de Tite no Botafogo é péssima, sem maquiagem possível: perdeu por 2 a 0 para o Mirassol, com dois gols de Eduardo ainda no primeiro tempo, e caiu por 2 a 1 diante do Vasco no Nilton Santos, mesmo depois de ter 17 dias entre atividades e folgas para preparar o clássico. Alan Lescano abriu o placar aos 28 minutos, David ampliou aos cinco da etapa final e Alex Telles descontou aos 15. Aos 38, Tiquinho Soares marcou o que seria o empate, Tite invadiu o campo em festa e acabou expulso. Veio então a tecnologia semiautomática, encontrou um impedimento milimétrico e transformou a comemoração em constrangimento. O técnico reconheceu: “O técnico errou. Devia ter ficado contido na sua emoção.” Errou mesmo. E o cartão vermelho terá consequência imediata: Tite não poderá ficar no banco contra o Coritiba, em 12 de outubro, às 16h, no Couto Pereira. Num momento em que o Botafogo precisa de comando, seu treinador conseguiu ser arrancado da área técnica por um gol que nem valeu. É o tipo de cena que parece escrita por um roteirista vascaíno com tempo livre. Mas seria intelectualmente preguiçoso — e administrativamente desastroso — usar esses dois tropeços para fabricar mais um recomeço. O problema atravessa treinadores, escalações e discursos. Em nove clássicos cariocas disputados em 2026, o Botafogo conquistou uma vitória, um empate e sofreu sete derrotas. Foram quatro pontos em 27 possíveis: 14,8% de aproveitamento. Martín Anselmi, Rodrigo Bellão, Franclim Carvalho e Tite estiveram à frente da equipe nesse percurso. Quatro técnicos diferentes, o mesmo desconforto diante dos rivais. Quando a febre continua depois da quarta troca de médico, talvez seja hora de examinar o paciente. Os números pioram quando vistos sem anestesia: cinco gols marcados, 16 sofridos, defesa vazada nos nove clássicos e cinco partidas sem balançar a rede. Contra o Flamengo, três derrotas em três jogos — 2 a 1, 3 a 0 e outro 3 a 0. Isso não descreve uma simples sequência ruim de um treinador. Descreve um elenco que perdeu competitividade, uma direção que não conseguiu construir continuidade e um clube que passou tempo demais tratando a comissão técnica como peça descartável.

Quatro técnicos depois, a desculpa individual virou álibi institucional.

Tite, portanto, não merece demissão. Merece cobrança — forte, diária e sem o biombo confortável do contrato longo. O Botafogo está em 13º lugar, com 35 pontos, apenas quatro acima da zona de rebaixamento. Antes do clássico, o próprio treinador avisou que quem não alcançar 44 ou 45 pontos entrará na zona de perigo. A conta é conhecida: faltam nove ou dez pontos entre os 27 ainda disponíveis. Não é uma missão épica. Também não é passeio no parque, sobretudo para uma equipe que desaprendeu a fazer gols com seus atacantes. Arthur Cabral chegou a 14 partidas sem marcar e pode igualar contra o Coritiba seu pior jejum pelo clube, de 15 jogos. Ele tem nove gols em 2026, mas não marca desde o hat-trick contra o Corinthians, em maio. O último gol de um atacante alvinegro no Brasileirão ocorreu quase três meses antes, quando Lucas Emanuel e Kadir marcaram na vitória por 2 a 1 sobre o Santos. Não há treinador que atravesse ileso uma seca dessas, mas também não existe prancheta capaz de transformar teia de aranha em artilharia por decreto. Tite tem obrigação de encontrar soluções dentro do elenco, recuperar a confiança da equipe e entregar a permanência na Série A. Este é o primeiro item do contrato moral que assinou com o clube. Se fracassar, não poderá se esconder atrás do pouco tempo de trabalho. Pouco tempo não absolve decisões ruins, preparação improdutiva ou descontrole à beira do campo.

Tite sobe uma escada rumo aos 44 pontos, carregando duas derrotas, enquanto atacantes empurram uma bola com teias.

Contrato longo não é salvo-conduto; é cobrança com memória.

O vínculo até dezembro de 2028 foi apresentado pela nova gestão como parte de um projeto de estabilidade e trabalho longevo. Que seja levado a sério. Estabilidade não significa tolerar qualquer coisa, mas impedir que cada crise produza uma refundação de PowerPoint, uma nova comissão, outro vocabulário e a promessa reciclada de que “agora vai”. O maior erro do Botafogo seria confundir convicção com passividade ou cobrança com demissão. Tite precisa responder por seus dois jogos ruins, pela expulsão irresponsável e pela missão urgente de afastar o clube do Z-4. A direção, por sua vez, precisa responder por um time que conseguiu ser frágil em clássicos sob quatro comandos diferentes. Demitir o treinador agora seria como trocar o capitão porque o barco está fazendo água, enquanto os dirigentes discutem a cor do leme e ninguém tapa o casco.

A permanência é obrigação. O reset, desta vez, seria covardia.

Quem precisa cair é o botão.

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