21 gols cobram a conta de Petraglia: Viveros não pode ser só vitrine
Recordista e líder da artilharia, Viveros expõe a contradição do Athletico: projetar uma venda milionária enquanto trava sua valorização salarial.
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Aos 32 minutos do segundo tempo, Kevin Viveros marcou de novo. A Chapecoense havia descontado seis minutos antes, mas qualquer tentativa de reação terminou ali: 4 a 1, Arena Condá, assunto encerrado. O colombiano já balançara a rede aos 31 da etapa inicial, depois dos gols de Leozinho e Luiz Gustavo.
Na saída, Viveros resumiu sua fome sem rodeios: “Estamos chegando, né? Quero ficar no primeiro lugar e vou trabalhar muito forte para isso”. Já está. São 21 gols em 28 partidas, média de 0,75 por jogo e cinco de vantagem sobre Pedro, do Flamengo.
Mais do que liderar a artilharia, ele reescreveu uma linha importante do campeonato. Superou os 20 gols de Carlos Tevez pelo Corinthians de 2005 e tornou-se o estrangeiro com mais gols em sua primeira temporada na Série A. Igualou Víctor Aristizábal, do Cruzeiro de 2003, na segunda posição entre os estrangeiros com mais gols numa única edição. À frente, Germán Cano e seus 26 gols em 2022. Restam oito rodadas.
Viveros não está vivendo uma boa fase. Está produzindo uma temporada histórica.
Em outra cena, longe da área e perto das planilhas, o Athletico conseguiu transformar um acerto em impasse. Clube e jogador haviam alinhado valores para renovação e valorização salarial. Mario Celso Petraglia voltou ao cotidiano da gestão, entendeu que não era necessário chegar àqueles números naquele momento e as conversas pararam.
Esse foi um erro de gestão. Não há malabarismo contábil que o disfarce.
O Athletico investiu US$ 5 milhões por 70% dos direitos econômicos do atacante em 2025. Em abril deste ano, recusou uma oferta superior a US$ 18 milhões. Agora, pessoas envolvidas no mercado do colombiano projetam uma negociação acima de € 20 milhões ao fim de 2026.
Quer dizer: o clube comemora cada gol como valorização do patrimônio, espera cobrar preço de joia europeia e, na hora de valorizar o salário, pechincha como quem discute dois reais no estacionamento. Não funciona assim — ou, pelo menos, não deveria funcionar num clube que pretende ser protagonista.

Quem precifica um jogador em euros não pode remunerá-lo em desculpas.
A terceira cena está na tabela. O Athletico fechou a 30ª rodada em terceiro, com 53 pontos. O Gato Mestre calcula em 71,89% a possibilidade de terminar no G-4, salto de 12,29 pontos percentuais após a rodada.
Se a vaga na Libertadores for confirmada, o planejamento de 2027 precisa começar por Viveros, não pela cotação dele. O contrato vai até julho de 2027 e prevê prorrogação automática até julho de 2028. Há margem para negociar sem liquidação de janeiro, sobretudo porque Aston Villa, Sunderland e clubes da Rússia e da Arábia Saudita já buscaram referências.
O atacante também estreou pela seleção colombiana em setembro e soma 33 gols pelo Furacão. Já é o segundo maior artilheiro estrangeiro da história do clube, atrás apenas de David Ferreira, com 39. Não se vende automaticamente um jogador assim no instante em que o projeto esportivo volta a ganhar tamanho.
Gol não é apenas ativo de mercado. Às vezes, é o próprio projeto.
Agora as três cenas se encontram: a rede da Arena Condá, a negociação salarial travada e a tabela que aponta para a Libertadores tratam da mesma escolha. O Athletico quer ser clube-formador ou protagonista continental?
Proposta realmente transformadora merece análise. Venda programada para janeiro, não. A ponte para 2027 já tem 21 gols de sustentação; tirar Viveros dela para encaixotá-lo é serrar a madeira e anunciar lucro com a ponte caindo.
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