A menor folha não absolve o maior improviso da Chapecoense

A menor folha da Série A pesou, mas três treinadores, um interino e 29 movimentações expõem o improviso que empurrou a Chape à Série B de 2027.

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Barco da Chapecoense com tanque pequeno, quatro homens no leme e contratos cobrindo buracos no casco.

A Chapecoense caiu para a Série B de 2027 porque tratou um incêndio de temporada como se bastasse trocar o extintor de parede. A menor folha salarial da Série A, segundo levantamento citado pelo ge, reduziu drasticamente a margem de erro. A diretoria, porém, gastou essa margem em improvisos: três treinadores efetivos, um interino e 29 movimentações no elenco durante a pausa para a Copa do Mundo.

A confirmação matemática veio na Arena Condá. Pela 34ª rodada do Brasileirão, a Chape perdeu por 2 a 1 para o Mirassol e permaneceu com 21 pontos em 33 partidas. Tornou-se o primeiro clube rebaixado da competição, ainda com cinco jogos pela frente — um deles, o compromisso atrasado contra o Vasco.

A própria sequência dos gols parece escrita para aumentar a crueldade. Kauan abriu o placar aos 12 minutos. Reinaldo empatou de pênalti aos 45+4. Aos 57, o goleiro Anderson marcou contra. A noite que poderia adiar a sentença terminou carimbando a queda.

A menor folha explica o tamanho da dificuldade; não explica o tamanho da desordem.

É indispensável separar explicação de absolvição. Dinheiro faz diferença — e muita. Um elenco barato enfrenta concorrentes com mais opções, maior capacidade de reposição e menos necessidade de acertar todas as apostas. Para a Chapecoense, cada contratação precisava render, cada escolha de treinador precisava ter coerência e cada janela deveria obedecer a uma ideia clara. Justamente por ter pouco dinheiro, o clube não podia se dar ao luxo de errar tanto.

O orçamento curto não acendeu sozinho o incêndio. Ele apenas deixou o prédio com menos saídas de emergência.

Os números depois da derrota para o Mirassol são o laudo da perícia: pior ataque do campeonato, com 33 gols, e pior defesa, com 68 sofridos. Quando um time aparece na última posição dos dois lados essenciais do jogo, o culpado principal não cabe numa súmula: é a diretoria, que montou mal, trocou demais e planejou de menos. Não foi só falta de gol, nem apenas fragilidade defensiva. O sistema inteiro falhou.

Houve uma faísca enganosa logo na estreia. Em 28 de janeiro, a Chapecoense venceu o Santos por 4 a 2. Parecia um começo capaz de produzir confiança. Só que a segunda vitória no Brasileirão veio apenas na 24ª rodada, por 1 a 0 sobre o São Paulo. Entre um triunfo e outro, o campeonato deixou de ser uma disputa e virou uma longa perseguição ao prejuízo.

Nesse intervalo, a casamata também passou a funcionar como porta giratória. Gilmar Dal Pozzo foi demitido depois da derrota por 4 a 0 para o Atlético-MG, na Arena Condá, pela nona rodada. Fábio Matias assumiu e conquistou somente um dos 21 pontos que disputou no Brasileirão. Saiu após dez partidas, com duas vitórias, um empate e sete derrotas considerando todas as competições. Celso Rodrigues comandou a equipe interinamente, até Rafael Lacerda se tornar o terceiro treinador efetivo da temporada.

Trocar o comando tantas vezes pode até produzir o barulho reconfortante de que alguém está fazendo alguma coisa. Mas barulho não apaga fogo. Às vezes, é só o alarme disparando enquanto todo mundo procura a chave da mangueira.

Quem muda o plano a cada fumaça termina sem plano e sem ar.

A maior confissão de improviso apareceu durante a pausa para a Copa do Mundo. Foram 29 movimentações no elenco: 11 contratações, 15 saídas e três empréstimos. Não se trata de condenar individualmente cada chegada ou cada despedida. O problema é o conjunto. Uma reforma dessa dimensão no meio da temporada mostra que a avaliação inicial não resistiu aos primeiros meses de realidade.

Dirigentes usam um extintor que lança contratos sobre um escritório em chamas, com uma planta de planejamento no chão.

O mercado virou extintor. Em vez de corrigir algumas peças, a Chapecoense tentou combater as chamas disparando contratos para todos os lados. É uma solução tão segura quanto escalar um encanador na lateral para consertar o telhado no meio do temporal: muita correria, posição errada e a diretoria chamando aquilo de versatilidade.

Elenco barato não precisa ser sinônimo de elenco desorganizado. Pelo contrário. Quem tem menos recursos depende mais de continuidade, observação e convicção. Clubes com dinheiro conseguem comprar uma correção. Clubes de orçamento reduzido precisam construí-la antes. A Chape fez o inverso: começou com pouco espaço financeiro e, quando a temporada saiu do trilho, multiplicou decisões de curto prazo.

O único mérito daquela noite foi a franqueza de Eduardo Doma. “Não foi hoje que a gente caiu. A gente fez um ano muito abaixo em todos os setores”, afirmou o capitão. Ele também pediu desculpas à torcida e definiu a temporada como “um ano horroroso para nós”. Não há tentativa de maquiar o estrago, nem de atribuir tudo ao lance infeliz de Anderson contra o Mirassol. A queda não nasceu naquele gol contra. Ali, apenas chegou a fumaça que faltava para o árbitro matemático encerrar o expediente.

Ainda restam cinco partidas: Vasco, em 14 de novembro; Remo, no dia 18; Cruzeiro, no dia 21; Palmeiras, em 29 de novembro; e Flamengo, em 2 de dezembro. Os jogos não devolverão a vaga na Série A, mas também não podem ser tratados como protocolo. São a primeira oportunidade para a direção observar quem suporta o peso do momento, quais ideias merecem sobreviver e se existe alguma base aproveitável para 2027.

O maior erro agora seria confundir responsabilização com demolição. Rebaixamento exige mudanças, evidentemente. Não exige outra liquidação geral, mais uma pilha de chegadas e saídas e um novo projeto desenhado às pressas. Depois de uma temporada marcada por 29 movimentações, desmontar tudo novamente seria repetir o vício com a desculpa de combater suas consequências.

Dirigentes conduzem uma retroescavadeira diante de uma estrutura de blocos e ignoram uma caixa de ferramentas.

A Chapecoense precisa definir uma linha de trabalho, sustentar um comando e contratar por necessidade, não por ansiedade. O mercado deve fornecer peças para uma estrutura; jamais substituir a estrutura. Continuidade também não significa premiar o fracasso. Significa distinguir o que falhou daquilo que foi atropelado pela bagunça — trabalho bem mais difícil do que simplesmente apertar o botão de “reiniciar”.

Reconstrução não é derrubar todas as paredes; é descobrir quais ainda sustentam a casa.

A menor folha continuará sendo um obstáculo em 2027. Isso não mudará por discurso, indignação ou promessa. O que pode mudar é a forma como o clube administra cada real, cada escolha e cada crise. A torcida já viu o mercado ser usado como extintor; agora espera que a diretoria recolha do chão a planta do planejamento antes de riscar o próximo fósforo.

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